Jornalista Vitor Nuzzi escreve biografia não autorizada do músico Geraldo Vandré

Músico decretou sua morte artística em 1968, durante a ditadura

por Mariana Peixoto 21/06/2015 00:13

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O CRUZEIRO/EM/D. A. PRESS
Depois de se ausentar do país durante a ditadura, músico negociou a volta em 1973 (foto: O CRUZEIRO/EM/D. A. PRESS)
No sábado 5 de junho o jornalista paulistano Vitor Nuzzi passou em frente ao prédio da Rua Martins Fontes, em sua cidade. Disse para si mesmo que precisava levar o livro. Dos 100 exemplares numerados que Nuzzi mandou imprimir de Geraldo Vandré – Uma canção interrompida, 80 já foram entregues. O de número 1 deve chegar em breve ao apartamento da região central de São Paulo, que pertence há décadas ao biografado.

Nuzzi não tem muita ilusão quanto à reação que Vandré terá ao livro. Ao mesmo tempo, sabe que tentou, de todas as formas, ouvi-lo (sempre sem sucesso) durante o longo processo que culminou na biografia de quase 400 páginas do cantor e compositor paraibano.

Vandré, que completa 80 anos em 12 de setembro, “desapareceu artisticamente” há 47. Durante a última década, Nuzzi dedicou-se ao livro. Uma canção interrompida não tem perspectiva, pelo menos a curto prazo, de vir a público. Os exemplares bancados pelo próprio autor, também responsável pela edição e revisão, não estão à venda. Se a história de Vandré rendeu um livro, a trajetória de Nuzzi para narrá-la também tem contornos interessantes. Na tentativa de publicá-lo, ele ouviu negativas de seis editoras.

Nuzzi tem 50 anos. Aos 20, fez seu primeiro contato com Vandré. Então estudante de jornalismo, foi até o apartamento do compositor. Meio sem saber o que dizer ou como se portar, apenas foi. Chegou a entregar a ele um jornalzinho da faculdade. Vandré não gostou. Deu-lhe boa-noite e colocou-o para fora de casa.

O interesse, a despeito do (mau) tratamento, permaneceu. Desde 1985, Nuzzi pesquisa sobre a vida de Vandré. Eram pastas e pastas de material pesquisado em bancos de dados de jornais e revistas. Quando dos 70 anos do compositor, em 2005, Nuzzi publicou um artigo no site Digestivo Cultural (www.digestivocultural.com). A repercussão foi tamanha (o texto conta hoje com 77 mil acessos) que ele começou a pensar num projeto maior.

Tentou fazer contato por telefone e carta. Nada. “Paciência”, é o que Nuzzi diz a respeito das recusas de Vandré em falar com ele. Fez a sua parte. Entrevistou uma centena de pessoas e debruçou-se sobre toda a bibliografia disponível – inclusive meia dúzia de trabalhos acadêmicos.

Uma canção interrompida pouco traz da vida particular de Vandré. O que está em foco é a obra, que vai muito além das emblemáticas Pra não dizer que não falei das flores e Disparada, canções que se tornaram muito maiores do que o próprio autor.

PERSONA Vandré como tal só existiu por pouco mais de uma década. Nascido em João Pessoa, em 1935, Geraldo Pedrosa de Araújo Dias criou a persona a partir do sobrenome do próprio pai, o otorrino José Vandregíselo. Nos anos 1950, foi ‘Carlos Dias’ quem batalhou seu lugar ao sol nos programas de auditório, cantando boleros. Teve ainda um breve momento como ‘Geraldo Dias’. “E ele, como quase todos de sua geração, também cantou bossa nova. Aos poucos e foi saindo do universo cor-de-rosa da bossa”, afirma Nuzzi, que dá destaque para outras nuances da carreira de Vandré.

O ídolo dos festivais foi também um pesquisador da música brasileira. “Embora sua carreira tenha sido muito curta (Vandré decretou a própria morte artística em 13 de dezembro de 1968, dia do AI-5), chama a atenção a seriedade de sua pesquisa. Ele estudou Guimarães Rosa para fazer a trilha do filme A hora e a vez de Augusto Matraga. Também pesquisou a moda de viola num período em que era vista com muito preconceito na região Centro-Sul.”

O auge da carreira de Vandré ocorreu entre 1964 e 1968. Com o AI-5, ele deixou o país, retornando apenas em 1973. Cantou no exterior, mas, de volta ao país, sumiu de cena. Esse é o período mais obscuro, já que muito se dizia que ele havia enlouquecido pós-tortura. Vandré negou, nos anos 1990, que tenha sido submetido a sofrimento físico durante a ditadura.

“Foi preciso muita negociação para que ele voltasse. Como estava meio doente, sentindo falta do país, e é uma pessoa muito apegada à terra, ele entrou numa negociação”, relembra Nuzzi, que descreve com riqueza de detalhes a produção de uma “entrevista” armada de Vandré que foi ao ar em agosto de 1973 no Jornal Nacional, condição para que ele permanecesse no Brasil.

Não havia um repórter da emissora entrevistando-o, somente um cinegrafista profissional, que recebeu a função de gravar em cima da hora. Evilásio Carneiro, o responsável pela gravação, lembra-se de um homem “magro e abatido”, recém-chegado ao Brasil, que teve que dar declarações ainda no aeroporto de Brasília. Vandré recebia orientações do que dizer de homens que o cinegrafista reconheceu como militares, segundo descreve Nuzzi. Um dos dizeres mais emblemáticos foi o de que ele só faria “canções de amor e paz”.

MILITANTE “Vandré nunca fez parte de nenhum grupo político, nunca foi militante no sentido tradicional da palavra. E naquele momento encontrou um país muito diferente do que deixou. Talvez esperassem um cantor carismático que foi erroneamente dito como um revolucionário, mas encontraram uma pessoa fragilizada. Aquele foi um momento definitivo do que ele passou a ser dali em diante”, comenta o biógrafo.

Mais tarde, Vandré chegou a ser anistiado como funcionário público. “O que ele não aceitou, pois como nunca havia sido criminoso, não poderia ser anistiado. É um raciocínio bem coerente com o inconformismo dele”, diz Nuzzi.

O silêncio das décadas seguintes fez com que o mito em torno de Vandré crescesse. Aparições eventuais – a mais recente, em 2014, foi durante show de Joan Baez, sua admiradora há muito, em São Paulo, em que ela cantou Caminhando – e sumiços relatados pelos amigos compõem a parte final da narrativa.

“Do Vandré de hoje não se tem muita notícia, a não ser da pessoa reclusa, desconfiada. Até mesmo os amigos me disseram que ficam semanas sem ter notícias dele”, afirma Nuzzi. Incansável, o biógrafo não desanima. Além de deixar o livro no apartamento em São Paulo, ainda espera o 12 de setembro para dar mais um telefonema de aniversário, ritual que pratica há pelo menos oito anos.

 

Trecho da biografia
“Toda a gravação (da trilha do filme A hora e a vez de Augusto Matraga, 1965, de Roberto Santos) foi feita em uma só noite, recorda o maestro Walter Lourenção, ex-diretor do Museu de Arte de São Paulo e ex-regente do Teatro Municipal de São Paulo, que dirigiu corais durante 27 anos. Um deles foi o do Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro, onde certo dia recebeu a visita de Vandré. ‘Conversamos muito e fiquei fã dele. Ele conduziu a partitura, eu ensaiei os cantores’, lembra. Mas não foi uma tarefa fácil. Como em todos os trabalhos, Vandré era difícil de satisfazer. Lourenção dá uma ideia de um diálogo daquela madrugada de gravação. ‘A gente gravava, ele falava que não era nada daquilo.’ ‘Você modificou a música’, reclamava Vandré, e cantava. ‘Vandré, não é que mudou, você acabou de compor outra música’, respondia o maestro. ‘Então eu quero essa’, replicava o compositor. Lá pelas tantas, o diretor do filme praticamente implorou: ‘Vandré, já são 6 horas da manhã, quer parar de compor?’” 

 

Autor é sondado por editoras após decisão do STF
Ana Clara Brant

No último dia 10, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiram por unanimidade derrubar a necessidade de autorização prévia de uma pessoa biografada para a publicação de obras sobre sua vida. A decisão libera biografias não autorizadas pela pessoa retratada (ou por seus familiares) publicadas em livros ou veiculadas em filmes, novelas e séries. O jornalista Vitor Nuzzi, autor de Geraldo Vandré – Uma canção interrompida, considerou a decisão da Corte memorável e um grande momento do nosso Judiciário.

“Foi um avanço e tanto. Acompanhei atentamente o voto ‘resumido’ da ministra Cármen Lúcia e arquivei o texto integral, que vale uma boa reflexão. É preciso lembrar que isso não significa uma liberação geral de biografias. Quem escreve precisa ser responsável com aquilo que apura e publica. Os biografados têm uma preocupação válida. Esses livros são registros históricos e devem ser vistos como tal.”

Após a decisão do STF, algumas editoras fizeram contato com Nuzzi. “Com relação à minha parte, esse fato não muda muito, mas sim em relação às editoras, que compreensivelmente agora se sentem mais seguras em relação a possíveis projetos. Geraldo Vandré é um personagem importante da nossa cultura e sua obra precisa ser mais conhecida. Acredito que outros (livros) virão. Assim espero. A memória brasileira agradece.”

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