Chega às livrarias a versão definitiva de 'A suavidade do vento', de Cristovão Tezza

Lançada originalmente em 1991 e reeditada em 2002, fábula do escritor catarinense sobre as dificuldades de um professor para se relacionar com o mundo ganha terceira edição

por Pabline Félix 20/06/2015 07:00

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*Paulo Nogueira


Arte: Janey Costa / EM / D.A Press
(foto: Arte: Janey Costa / EM / D.A Press)
Medo, depressão, preguiça, mentira, vingança, angústia, inércia, solidão, rancor, timidez, arrogância, impotência... Incontáveis são os monstros que atormentam a vida de um professor, deslocado de seu mundo em plena década de 1970, marcada pelos piores anos da ditadura militar. Eles estão sempre à espreita nos cantos, nas prateleiras e até nos ombros do dono da casa, esperando apenas uma recaída, um tropeço de caráter, prontos para estimular transgressões e devorar a rebeldia reprimida do anti-herói sem rumo, que se refugia escrevendo o livro 'A suavidade do vento', com o qual tenta se libertar de si próprio e de sua “nobre preguiça”.

Reconhecido por seus personagens com complexo perfil psicológico, Cristovão Tezza, nascido em Lages (SC) e residente em Curitiba (PR), virou referência na literatura contemporânea ao ganhar o Prêmio Jabuti em 2007 e outros prêmios importantes com o tocante 'O filho eterno'. Mas já vinha conquistando leitores desde 1980, com a coletânea de contos 'Cidade inventada'. Hoje, depois de 14 livros, é um dos escritores brasileiros mais traduzidos.

Em 1991, Tezza lançou 'A suavidade do vento', bela fábula sobre as dificuldades do professor de gramática Josilei Matozo, um desajustado de 38 anos que precisa exorcizar seus monstros para se relacionar com o mundo, fugir de sua caixa de pandora. Seu principal refúgio, sua Pasárgada, é o livro que escreve e assina como J. Mattoso – história de alguém que vai morrer –, autor-personagem criado para escrever uma obra dentro de outra.

Ainda virgem, de sexo e de sexualidade, Matozo passa o tempo entre a sala de aula, o bar e seu quarto desarrumado, cheio de garrafas de uísque e monstros, muitos monstros nada engraçados. Pelo contrário, querem sua ruína. Outra rota de fuga é o I-Ching, oráculo que dita ou desdita seus passos.

 

“Ponha-se de fundo o disco do Pink Floyd (outro companheiro inseparável), algumas consultas ao oráculo, e a mimese estará quase perfeita”, acredita Matozo. Isso também acalma os monstros. A terceira válvula de escape é a embriaguez, ilusão perigosa em meio à rebeldia e ao inconformismo inertes.

“Eu sou um homem que perdeu, para sempre, a medida das coisas. Posso viver mais 100 anos e vou morrer sem saber o que se passa na minha cabeça. O mundo não é a minha cabeça.” Assim Matozo se define para então correr para sua zona de conforto, a suavidade: “Na natureza, é o vento que dispersa as nuvens acumuladas e deixa o céu claro e sereno.” Ou então: “A suavidade permite avaliar as coisas e permanecer oculto”. O tempo todo Matozo precisa se construir e se desconstruir na cidade pequena e empoeirada. Precisa aniquilar seus monstros ou será banido da cidade e talvez do mundo. Será que ele vai conseguir? Vale conferir o desfecho surpreendente do livro.

CARINHO

Quando foi lançado, 'A suavidade do vento' teve “recepção crítica razoável para um autor fora do eixo e ainda patinando no Brasil pré-internet”, como o próprio Tezza definiu. A obra ganhou nova edição, já bastante revisada, em 2002. Agora, a terceira e definitiva chega às livrarias. O autor diz ter carinho especial pela história do professor Matozo. Diz que a obra contém “cacoetes literários” e idiossincrasias dos anos 1980 e 1990, hoje datados e que considerou intrusos no livro, como o abuso da metalinguagem e das conversas com o leitor, que desviavam esse leitor da narrativa de uma estrutura simples, na qual Tezza relutou em mexer devido ao caráter fabular do romance e sua composição dramática não realista.

“Depois de prontos, e já com algum tempo de afastamento, sinto os livros que escrevo como animais estranhos que precisam ser decifrados”, confessa Tezza no posfácio da obra. Ele conta que pensou no livro como uma peça de teatro, tanto que criou uma moldura (o primeiro e o último capítulos) na qual um motorista de ônibus desembarca no início e embarca no fim os personagens de A suavidade do vento. Trata-se de um livro – ou uma peça – dentro de outro, uma narrativa dupla, de dramaturgo ou cineasta. Ou até três narrativas, se for considerado o alter ego Mattoso com a segunda suavidade do vento.

Tezza chegou a receber sugestões para suprimir essa moldura para a terceira edição, mas não o fez. A decisão foi acertada, assim como a supressão da metalinguagem abusiva, embora tenha sido suficiente ainda para evitar um pouco de dispersão da narrativa linear. Outro problema é a apresentação excessiva, extemporânea e desnecessária do protagonista pelo narrador – apesar da revisão das duas edições anteriores –, como se Matozo, em sua via-crúcis existencial, não fosse capaz de conquistar sozinho a atenção do leitor. A excentricidade dele já é suficiente para prender a leitura.

A insistência de Tezza em reforçar a personalidade esquisita do protagonista por meio de uma conversa com o leitor é descartável. Matozo dispensa apresentações, porque a construção de seu perfil psicológico é feita com maestria. Ainda assim, esse imbróglio literário não tira o brilho do livro nem obscurece a grande capacidade de Tezza de construir fortes perfis psicológicos. É uma obra recomendada para todos os tipos de leitor, dos mais certinhos aos mais excêntricos.

Afinal, quem não precisa exorcizar um monstrinho de vez em quando?


PÍLULAS DE TORMENTO


“Eu sou um homem que perdeu, para sempre, a medida das coisas. Posso viver mais 100 anos e vou morrer sem saber o que se passa na minha cabeça. O mundo não é – o mundo não pode ser – a minha cabeça.”

“Por que mergulhava tão inapelavelmente em infernos abissais em meio a desertos
até tranquilos?”

“É a depressão que inventa fantasias persecutórias. Procurar as pessoas, conversar, desarmar-se.”

“Trêmulo, contemplando o carnaval de monstros que faziam piruetas na mesa, engoliu o uísque e começou a avaliar, torturadamente, a extensão da tragédia (da grande mentira que inventara).”

“São duas classes: os que agem sobre o mundo e aqueles sobre os quais o mundo age.”

“A única surdez é a morte.”

“Correu para o espelho e contemplou-se. Reconheceu, surpreendido, que até então estava andando de costas: um homem imaturo, incompleto, sem referências. Agora andaria de frente.”


. Josilei Matozo, personagem de A suavidade do vento

'A SUAVIDADE DO VENTO'
. De Cristovão Tezza
. Editora Record
. 256 páginas, R$ 35

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