Ópera 'Carmen', de Bizet, estreia nesta quinta no Palácio das Artes

Primeira montagem operística da Fundação Clóvis Salgado neste ano, espetáculo fica em cartaz até 28 de junho

por Walter Sebastião 18/06/2015 08:30

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Fotos: Túlio Santos/EM/D.A Press
(foto: Fotos: Túlio Santos/EM/D.A Press)
A cigana Carmen, funcionária de uma fábrica de cigarros, foi assassinada pelo cabo do Exército Don José, seu ex-amante. O crime foi perpetrado em frente à Praça de Touros, em Sevilha (Espanha), pouco antes do início da tourada. A motivação do homicídio foram os ciúmes descontrolados de Don José. O militar não aceitava o fim de seu romance com Carmen, muito menos o envolvimento dela com o famoso toureiro Escamillo. Antes de esfaquear a cigana, Don José discutiu com ela e tentou, à força, convencê-la a voltar para ele. Ela respondeu atirando-lhe o anel que havia ganhado de presente do amante.

Don José conheceu Carmen ao prendê-la durante um tumulto entre funcionários da fábrica de cigarro. A operária havia agredido uma companheira de trabalho com uma navalha. A cigana não apenas convenceu o militar a soltá-la, como fez dele seu amante. Influenciado por ela, o cabo ingressou numa gangue de contrabandistas, perdeu seu posto no Exército e pôs um ponto final em seu noivado com Micaela, a nora queridinha de sua mãe.

O enredo de 'Carmen', de Bizet, seria mais ou menos assim, se fosse contado pelo jornalismo policial contemporâneo. Ao ensanguentar o palco com um drama passional, Bizet chocou a plateia parisiense na estreia da ópera, em 1857. Também rendeu polêmica o fato de a heroína da história ser uma mulher que não troca sua liberdade por um homem e uma vida familiar convencional, mas prefere viver intensamente aventuras amorosas. É a obra de Bizet que marca a primeira montagem operística da Fundação Clóvis Salgado neste ano, com estreia nesta sexta-feira.

O pivô da tragédia em Carmen é o toureiro Escamillo, interpretado por Licio Bruno, carioca de 50 anos, radicado em Vila Velha (ES). O ator define seu personagem como um homem vaidoso, bem-sucedido, viril, que tem prazer em disputas e se sente atraído pelo “animal indomável” que é Carmen e faz tudo para conquistá-la. “Carmen é uma ópera sobre sentimentos que o ser humano conhece bem, porque os tem dentro de si, mas que, em determinado momento, saem do controle”, afirma. O cantor enxerga no texto uma tensão entre as forças do instinto e as sociais, dada no embate entre aspectos telúricos e a razão.

Carmen é uma mulher que chama a atenção pela beleza e a sensualidade e que se vale desses poderes para afirmar-se. Ela vai ser interpretada por Luciana Bueno, paranaense que vive em São Paulo. “Carmen não é morte, mas vida. É alegre, expansiva, bem resolvida, vive intensamente o que sente, uma mulher que enfrenta tudo de frente, com coragem e não foge ao destino dela. Se as coisas dão errado ou certo, isso para ela é parte da vida”, observa.

Esta é a décima vez que Luciana Bueno encarna a cigana. A cantora conta que já imaginou outro final para a história: Carmem com Don José, que é “o grande amor da vida dela”, embora a relação não tenha dado certo. Mas, pondera a cantora, uma mulher como Carmen não ficaria indiferente ao homem famoso, valente e sensual que é Escamillo. Ele se arrisca a ir atrás dela num lugar ermo, onde estão contrabandistas. “É algo que Don José jamais fez.”

Luciana considera “a música de Carmen extraordinária, arrebatadora do começo ao fim”. A cantora afirma que quando alguém que não ouve ópera habitualmente lhe pede uma dica sobre por onde começar a curtir o gênero, é Carmem sua indicação. “Quem vir a cena e ouvir a música entende tudo, independentemente do texto. Carmem é a personagem que mais me exige fisica e emocionalmente, porque com ela tudo é muito. Não tem nada mais ou menos.”

O papel do homem que, transtornado, mata Carmen é do carioca Fernando Portari. “Todos nós, homens e mulheres, somos Don José. Todos já tivemos uma pessoa que passou por nossa vida, nos transformou e foi embora. O modo de reagir a esta perda é que difere”, afirma ele.  Don José é um homem comum, com formação religiosa e moral rígida, que sonha em se casar, constituir uma família e ter filhos. Um homem que “mata o objeto de seu amor por não suportar ter por ela tanto amor”, define Portari. “Carmen é a chave, o portal para Don José descobrir nele dimensões que desconhece”, observa, apontando a cigana como uma representação do inconsciente.

O fascínio que Carmen exerce, na opinião do cantor, que a classifica entre as três mais importantes óperas de todos os tempos, vem da soma de dramaturgia clara e sem maniqueísmo com a força das personagens e “a mágica” da música. “É a música que dá ambiência perfeita para todas as ambiguidades humanas que são postas no palco, criando um outro mundo de significados para elas.” Portari observa que Bizet é inovador na história da ópera por trazer questões e personagens contemporâneas e populares para um gênero que até então abordava apenas tramas épicas, dramas históricos ou sobre reis e rainhas. É o caminho que abre as portas para o musical.

A OUTRA

Há uma segunda mulher em cena: Micaela, uma camponesa que vê seu noivado ruir quando Don José se apaixona por Carmen. “Muitas montagens tratam Micaela como uma boba. Vejo nela uma mulher de coragem, que, percebendo o destino sombrio do noivo, luta por ele e contra a situação até o fim”, afirma a carioca Rosana Lamosa, que interpreta a personagem. Ela cita a ária em que a camponesa pede coragem para enfrentar Carmen, descrita como perigosa e bela, para argumentar: “Micaela revela que cada pessoa tem opção de tomar vários caminhos, ainda que não seja simples administrá-los”.

“A história apresentada em Carmen ocorre todo dia, especialmente no Brasil”, observa Rosana. “A sociedade mudou mas a essência do ser humano é a mesma: questionamentos sobre ética, o amor, a retidão do comportamento etc.”, enumera.

Em tempo: no romance de Prosper Mérimée publicado em 1845, que é fonte de inspiração para Carmen, Don José termina condenado à morte.

Carmen

De Georges Bizet, com a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, Coral Lírico de Minas Gerais, Coral Infantojuvenil do Palácio das Artes, Cia. de Dança Sesiminas.

. Hoje e sábado (dias 20/6 e 27/6), às 20h30; domingo (dias 21/6 e 28/6), às 19h. Grande Teatro do Palácio das Artes, Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400.

. R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia- entrada).

. Classificação: 10 anos.

. Direção musical e regência: Marcelo Ramos.

. Concepção, direção cênica e cenografia: Menelick de Carvalho.

. Adaptação do original, com duração de duas horas, em formato de concerto cênico com trechos da ópera, apresentando de forma concisa a narrativa.

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