Fernando Eiras apresenta o espetáculo 'O outro Van Gogh' em Belo Horizonte

Em monólogo sobre Theo Van Gogh, o irmão de Vincent, o ator fala sobre amor e apoio à arte. Espetáculo tem duas sessões neste fim de semana

por Carolina Braga 13/06/2015 10:00

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Mauro Kury/divulgação
O ator Fernando Eiras em O outro Van Gogh. Ele também está na TV, em novela das 18h (foto: Mauro Kury/divulgação )

Zuzula. Era assim que o pai de Fernando Eiras, um compositor de marchinhas de carnaval, o tratava carinhosamente. Para o ator, é como se, desde pequeno, ela já tivesse um personagem. “Quando criança, eu não conseguia entender o mundo dos adultos. Não conseguia imaginar nele um lugar para mim. Olhava com estranheza”, afirma.


Eiras acha graça no apelido dado pelo pai. Ainda mais quando pensa na carreira que construiu, como  intérprete na TV, no cinema mas, principalmente, nos palcos. O ator apresenta hoje e amanhã em Belo Horizonte o monólogo O outro Van Gogh. Ouvi-lo falar sobre seu ofício não deixa dúvidas a respetio da necessidade que ele sente de exercê-lo.


“Faço teatro porque foi a maneira que encontrei para ficar no mundo dos adultos. Entendi que daquela forma poderia continuar brincando com a vida, trabalhando com o lúdico, com a música, com a imagem, com a transfiguração da realidade”, diz. E tem mais: no teatro, mesmo quando se faz um monólogo, sempre há uma relação com o outro. É também um lugar de onde se lançam olhares.


No caso dessa montagem, um olhar  para a vida de Theo Van Gogh (1857-1891), irmão mais novo do pintor holandês Vincent Van Gogh (1853-1890). Eiras se interessa por grandes poetas póstumos do século 19. Fernando Pessoa, Nietzche, Arthur Rimbaud, artistas que receberam reconhecimento mundial depois de mortos. “É trágico, porque eles se sacrificaram para que gerações futuras usufruíssem”. Em sua opinião, Vincent Van Gogh faz parte dessa casta.


Embora sempre tenha admirado a obra do pintor, nunca achou que seria o caso de levar uma biografia dele para o palco. Até que conheceu melhor a história de Theo. Marchand respeitado, foi um dos responsáveis pelo lançamento do movimento impressionista, jogando luz sobre nomes como os de Degas e Monet na Europa do século 19.


“Theo não conseguiu vender um quadro do irmão. Ninguém sabia validar. As pessoas diziam que parecia desenho de criança”, conta o ator. Descontada a relação profissional, os irmãos se admiravam e tinham uma relação de amor muito forte. Theo faleceu seis meses depois do suicídio de Vincent, aos 34 anos, preso em um manicômio. “Morreu de solidão. Se a obra de Vincent revolucionou a pintura, foi por causa de Theo, que sustentou o irmão a vida inteira. Foi um amor realmente.”


O outro Van Gogh tem direção de Paulo de Moraes, da Armazém Cia de Teatro, e dramaturgia de Maurício Mendonça Arruda. Fernando Eiras revela que eles se atracaram artisticamente para conseguir revelar o retrato de um personagem importante para a história da arte mundial, mas sobre o qual se conhece tão pouco.


Para o ator, uma das riquezas do monólogo é a relação de intimidade que se constrói com a plateia. “A minha vaidade tem que ser um recurso coadjuvante, me manter de pé para que eu sirva àquela causa”. Como é característico no trabalho de Paulo de Moraes, a música desempenha um papel importante na narrativa.


“Não conto historinha. Mostro que Theo Van Gogh foi um marchand, um apaixonado pela obra do irmão, pela pintura. Tinha uma grande sensibilidade e está sem o reconhecimento que merece”. O espetáculo estreou em 2012, mas foi interrompido por causa de compromissos assumidos por Eiras na televisão e no cinema. Retomou a turnê por Brasília e ainda não chegou a São Paulo.

 

O OUTRO VAN GOGH
Hoje, às 20h, e amanhã, às 19h. Teatro Oi Futuro Klauss Vianna. Av. Afonso Pena, 4.001, Mangabeiras,
(31) 3229-2979. R$ 30 e  R$ 15 (meia). 

Amante do teatro e bom amigo da TV

Mauro Kury/divulgação
(foto: Mauro Kury/divulgação)
Fernando Eiras é irredutível na paixão que tem pelo teatro. É focado na atuação. Nem se arrisca a dirigir, porque sabe que os ciúmes que sentiria do intérprete inviabilizariam o trabalho. Diz que tem duas figuras-chave em sua carreira. No teatro, Enrique Diaz e, no cinema, Julio Bressane.


Quando fez As três irmãs, de Tchekov, sob a direção de Enrique Diaz, disse ter alcançado um novo entendimento de si mesmo como ator. Na televisão, encontrou prazeres diferentes. “Quando faço TV, penso: agora vou brincar de improvisar. Exercito a agilidade diante daquelas câmeras”. Atualmente no ar na trama global das 18h Sete Vidas, não poupa elogios ao texto de Lícia Manzo. “Ela escreve sobre criaturas de muita qualidade. É um prazer fazer essa novela, com atores amigos. Eu me divirto muito.”


Eiras só não pode ficar muito tempo longe dos palcos. Foi por causa dessa relação visceral – e obviamente do resultado dela – que o ator recebeu, há cerca de dez anos, um dos mais cobiçados convites no mundo do teatro. “(A diretora francesa) Ariane Mnouchkine me chamou para ir para o Theatre du Soleil”, conta. O azar de Mnouchkine é que, na mesma semana, o amigo Enrique Diaz telefonou para Eiras com uma proposta irrecusável: a montagem de In on It, do dramaturgo canadense Daniel MacIvor.


O trabalho é um marco na carreira dele e uma das melhores montagens brasileiras desta década. Quando pensa na comparação entre teatro e cinema, ele cita a atriz Liv Ullman. “Em uma entrevista, ela disse que, quando faz teatro, trabalha com o espaço – o corpo, a voz, tenta atingir o outro que está ali. No cinema, trabalha o infinito interior. Porque somos infinitos por dentro.”


Fernando Eiras tem pelo menos dez longas metragens no currículo, entre eles Dias de Nietzsche em Turim (2001) e Filme de amor (2003), ambos de Bressane. “Ele me ensinou a fazer cinema. A câmera, a máquina está ali para servir ao olhar dele. Sinto-me observado pelo pensamento dele. Bressane transfigura o que pensa da vida. É um poeta do cinema”, resume.
Atualmente, enquanto viaja com O outro Van Gogh, ele se vê capturado pelas palavras do escritor Stephen King no livro Sobre a escrita: a arte em memórias. É uma outra camada desse artista que ele ainda mantém guardada. “Tenho loucura para escrever, mas não tenho coragem”.

 

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