Mariangela Chiari expõe imagens artísticas que são documento da transformação de lugares

Fotógrafa que testemunhou a passagem do analógico para o digital, mostra o poder de conservação da memória em objetos

por Walter Sebastião 06/06/2015 10:00

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MARIANGELA CHIARI/DIVULGAÇÃO
Imagem da série dedicada aos Lençóis Maranhenses, que compõe um dos módulos da exposição (foto: MARIANGELA CHIARI/DIVULGAÇÃO)
A mineira Mariangela Chiari vem, já há quase três décadas, desenvolvendo sua carreira como fotógrafa. Ela tem 64 anos e, desde 1990, mostra ensaios fotográficos cuja tônica é o olhar que articula o documental, valores estéticos e certa especulação sobre a memória coletiva e pessoal. Dezesseis imagens de sua autoria, feitas entre 1990 e 2014, estão reunidas agora no projeto Art at Florense. A série é dividida em três módulos – um dedicado a portas e aldravas, um com o uso de filme infravermelho e outro com imagens dos Lençóis Maranhenses.

Mariangela explica que o registro de portas, de várias partes do mundo, é um tema recorrente em sua obra dela. Os detalhes de portas remetem ao gosto pelo simbolismo e ao hábito de fantasiar sobre histórias e memórias que permanecem em certos cômodos ou objetos. Já as fotos feitas com infravermelho trazem “a surpresa” que vem de imagens produzidas com um material que registra além daquilo que o olho vê.

“As fotos sobre a região dos Lençóis Maranhenses mostram algo surreal: o único deserto do mundo que durante parte do ano fica coberto por água”, brinca a fotógrafa. Embora serja uma região de muita beleza, ela carrega um drama: as areias estão invadindo áreas outrora cultivadas e habitadas. Não é a primeira vez que Mariangela se dedica a uma questão assim. Na China, ela fotografou áreas que, por terem sido transformadas em represas, despareceram. Mariangela também testemunhou a localidade mineira onde seus pais moravam (Souza Noschese, perto de Brumadinho) tornar-se cidade-fantasma.

FOTOS: MARIANGELA CHIARI/DIVULGAÇÃO
Registro da Praça da Liberdade com a técnica do filme infravermelho, que a fotógrafa adaptou para câmeras digitais (foto: FOTOS: MARIANGELA CHIARI/DIVULGAÇÃO)
FRAGMENTOS


“Olhando para as imagens, sinto que estou fotografando fragmentos de história. Muito do nosso mundo foi destruído. Vivemos um momento de transformação que traz coisas boas, mas também diminuiu a qualidade de vida e as oportunidades de apreciar a beleza”, observa a fotógrafa. “Registro o que me emociona.” Mariangela tribui o aspecto documental das imagens que faz à formação em Comunicação Social e não esconde que gosta de que haja nas fotos beleza, uma intenção estética.

Mariângela Chiari pertence à geração que viu a passagem do digital para o analógico. “Foi o parto mais difícil da minha vida”, afirma. “Amava o laboratório, o cheiro de química, o momento em que meu filho chegava, me via revelando fotos e dizia: ‘É mágica’”, recorda. Aprender uma nova tecnologia, na qual não tinha fé (“Durante muito tempo nada garantia que o futuro ia ser digital”), não foi simples. Hoje, ela aprova a inovação que trouxe mais qualidade e outros modos de processar a imagem fotográfica, leveza de equipamentos, eficácia.

Mas, na opinião da fotógrafa, a praticidade das novas tecnologias também trouxe questões discutíveis. “Acho muito pretensioso uma pessoa se declarar fotógrafa porque faz fotos com telefone, sem nenhum embasamento, desconhecendo os processos técnicos e a história da fotografia”, critica. Mas, até neste contexto, vê transformações. “Houve uma mudança no olhar. As pessoas não fazem só selfies, querem registrar o que, por vários motivos, acham importante”, observa, lembrando que, em outros tempos, ninguém pensaria em guardar nada. “Eu gostaria muito de que fosse por motivos estéticos, de memória, mas...”, conclui deixando avaliação em suspenso.

Diálogos visuais fotos de Mariângela Chiari
Art at Florense, Rua Santa Catarina, 605, Lourdes, (31) 3287-2040. De segunda a sexta, das 9h às 19h; sábados, das 9h às 13h. Até 30 de junho. Entrada franca.

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