Artista mineiro recria exposição da Bienal de Veneza em bairro homônimo de Neves

O artista Paulo Nazareth, que tem trabalhos na bienal de arte italiana, mas se recusa a ir à Europa, lança hoje uma exposição coletiva de artistas e sua fundação em imóvel inacabado

por Walter Sebastião 30/05/2015 14:30

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LEANDRO COURI/EM/D.A.PRESS
Paulo (à esq.) e Júlio Nazareth exibem obra de Gustavo Speridião, que integra a 2ª Bienal de Veneza / Neves (foto: LEANDRO COURI/EM/D.A.PRESS)

O artista Paulo Nazareth, quando criança, sempre ficou intrigado com placa, na BR-040, indicando o Bairro Veneza, da cidade de Neves (MG). Menino, morador de área rural, chegou a pensar que seria um lugar cheio de marinheiros e mercadores italianos. “Durante muitos anos, quando se falava na cidade italiana, o que vinha à minha cabeça era o bairro de Neves”, recorda, rindo. Hoje, aos 38 anos, artista plástico celebrado internacionalmente, o mineiro participa pela segunda vez da Bienal de Veneza (Itália), ao lado de outros 14 artistas selecionados pelo curador Alfons Hugs em mostra dedicada à América Latina.

Assim como em 2013, quando foi convidado pela primeira vez para participar da mais famosa bienal de arte do mundo, Paulo Nazareth não foi a Veneza. E, nos dois casos, pelo mesmo motivo: prometeu só pisar na Europa depois de passar por todos os países do continente africano. Já cruzou uma dezena deles criando obras, registrando situações, coletando objetos e vivências para uma série de trabalhos, em andamento desde 2012, chamada Cadernos de África. Trata-se de um registro de viagem-performance que faz dialogar aspectos de vários países com matrizes africanas, construindo memórias do que o artista gosta de chamar de África universal.

Em 2013, a recusa em viajar à Europa veio acompanhada de uma atitude, para lá de transgressiva: Paulo Nazareth apresentou, num barracão do Bairro Veneza, em Neves, o mesmo trabalho que estava na Itália. Agora ele repete o gesto, em escala ampliada, com a realização da 2ª Bienal de Veneza/Neves, que vai ser aberta hoje, às 15h, num imóvel com construção inacabada. “Nem todos os barcos levam à mesma Veneza”, brinca o artista. “A de Neves é o outro lado da italiana”, acrescenta, ressaltando a disparidade de condições das duas cidades homônimas, sendo a de Minas um bairro “de trabalhadores humildes, altamente estigmatizados pelo comércio de drogas e pela cor de sua pele”.

“A arte não pode ser só glamour, coquetel, puxação de saco e mi-mi-mi. Tem que ser viva, mexer, sacudir e virar as pessoas pelo avesso”, argumenta Paulo Nazareth. “A periferia é um outro centro”, afirma. “Todo mundo olha o ipê- amarelo só como árvore muito bonita, mas ela tem outras histórias. É árvore de resistência, que floresce em época de seca”, conta. “Gostaria que a Bienal de Veneza/Neves fosse vista como o ipé amarelo. Aqui também existem memórias, histórias, riquezas de relacionamentos humanos. Temos uma tendência a esquecer tudo isso”, diz.

O barracão onde vai ser realizada a exposição deve se tornar sede da Fundação Bienal de Veneza/Neves. O projeto é que seja um centro cultural com atividades permanentes, em especial oferecendo programa de residência para artistas. O primeiro deles a morar no local será Francisco Magalhães.

Herança africana é tema do artista

Paulo Nazareth nasceu em Governador Valadares. Formou-se na Escola de Belas Artes da UFMG. Vive e trabalha em Belo Horizonte. Ele ganhou repercussão internacional com a série Notícias da América. Uma viagem-performance (ou vice-versa), movida por andanças pelo continente americano. No trabalho, o artista vai comentando o que via pelo caminho – com fotos, vídeos, cartazes– e interpela o colonialismo, a identidade, os encontros e conflitos culturais.

Essa performance se desdobrou no projeto Cadernos de África, que o artista vem desenvolvendo desde 2012 e que teve como ponto de partida a pergunta: o que tem de África na cozinha da minha casa e da cozinha da minha casa na África?. Trata-se, como explica Paulo, de construção de memória sobre a África universal, que existe em todos os lugares devido a diáspora.

Na instalação sonora Bureau de Langue, que está sendo apresentada em Veneza (a da Itália), por exemplo, ouvem-se vozes de crianças Caioás ensinando ao artista a língua delas. A evocação aos índios tem várias referências, entre elas o fato de eles serem chamados no período colonial brasileiro de “negros da terra”. O Nazareth, no nome do artista, vem da avó dele, descendente de índios e devota do candomblé.

L’arvre de l’oublié (A árvore do esquecimento) são vídeos realizados na Nigéria, em Moçambique e no Brasil, em que o artista faz um ritual (dar voltas em torno de uma árvore) ao contrário. No original, o objetivo era que os negros esquecessem o passado antes de ser embarcados para o Brasil. O ipê-amarelo, observa o artista, foi usado no Brasil como árvore do esquecimento.

“Estou montando um quebra-cabeças de memórias que foram apagadas”, conta Nazareth. O jogo tem  trazido descobertas e o contato com situações dramáticas, cujo impacto ele sente de diversas formas. “Às vezes, vem revolta com discriminações, com incompreensões que se tornaram lugares comuns, como identificar o negro com bandido. Isso machuca e ofende. Faz chorar, mas de raiva”, conta.

As viagens têm trazido também momentos divertidos. “Ouvir, de repente, a palavra família, que é usada na Tanzânia, foi um choque. Fez-me sentir em casa”, recorda. As andanças de Paulo Nazareth pelo mundo e a obra dele podem ser vistas em www.cadernosdeafrica.blogspot.comlatinamericanotice.blogspot.com.br.

2ª Bienal de Veneza (Neves)

Obras de Thiago Martins de Melo, Daniel Murgel, Sônia Gomes, Gustavo Speridião, Marconi Marques, Francisco Magalhães, Moisés Patrício, Edgar Calel, Lucas Dupin, Lucas Di Pasquali, Adolfo Cifuentes, Alessandro Lima, Joacélio Batista, Marco Paulo Rolla, Tales Bedeschi, Marcel Martins Diogo, Wagner Rossi, Miguel Sepulve, Angel Poyón, Fernando Poyón, Juan Monteparre, Juan Celín, Coletivo Bordados Pela Paz Guarani e Caiouá.Hoje, das 15h às 20h. Rua Nossa Senhora do Rosário, 51, Bairro Veneza, Ribeirão das Neves. De quarta a domingo, das 10h às 18h. Até dia 22 de dezembro. Informações e agendamento de visita: (31) 8506-6085 (Júlio Nazareth).

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