Turbulenta relação de amor de Frida Kahlo e Diego Rivera ganha versão no teatro

Com texto de Maria Adelaide Amaral e montagem que vai da comédia ao drama, espetáculo inclui boleros cantados ao vivo

por Carolina Braga 29/05/2015 09:30

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LENISE PINHEIRO/DIVULGAÇÃO
Os atores Leona Cavalli e José Rubens Chachá interpretam os mexicanos Frida Kahlo e Diego Rivera em texto de Maria Adelaide Amaral (foto: LENISE PINHEIRO/DIVULGAÇÃO)
Na primeira vez em que o ator José Rubens Chachá esteve no México com seus colegas do grupo Teatro do Ornitorrinco, ele foi surpreendido por dois terremotos. Um deles, literal. O pior da história do país, com magnitude 8,1, deixou 10 mil vítimas, em setembro de 1985. O outro foi simbólico e até hoje abala as estruturas do artista.


“As obras de Frida e Diego tiveram o mesmo impacto para mim. Conheci-a dos livros e revistas, mas nunca dei muita importância”, afirma Chachá, referindo-se a Frida Kahlo (1907-1954) e Diego Rivera (1886-1957), dois expoentes latinos das artes. Vinte anos depois – e por um grande acaso do destino – o ator foi convidado para dar vida no palco ao papel de Rivera. Frida é a personagem de Leona Cavalli em 'Frida y Diego', que tem sessões em Belo Horizonte neste sábado e no domingo.

Coincidências não faltam nos bastidores da montagem. “Tinha ido ao México, fiquei quatro dias em função deles, sempre fui apaixonada. Quando cheguei ao Brasil, o Eduardo (Figueiredo, diretor) aparece na minha casa”, conta a escritora Maria Adelaide Amaral. O pedido de Figueiredo: que Adelaide escrevesse uma obra teatral sobre os famosos, controversos e apaixonados mexicanos.

Dedicada a projetos na televisão havia pelo menos nove anos, Maria Adelaide estava propositalmente afastada da dramaturgia teatral. A questão é que o convite, além de sedutor, soava um tanto ou quanto místico. “Pensei: não acredito que é isso que esteja acontecendo. Tenho que escrever essa peça”, recorda a dramaturga.

Imersa em muitas informações e referências sobre o casal, Maria Adelaide resolveu pinçar aquilo que pudesse oferecer mais nuances dramáticas. Foi assim que a conflituosa relação dos dois ganhou relevo na trama. “Todo o inferno e todo o êxtase”, ressalta.

Frida Kahlo e Diego Rivera nunca foram convencionais. “Pertenceram a uma geração do México que viveu seu grande momento cultural. Era um território de experimentação muito rico”, acrescenta a autora. “A relação dos dois era muito aberta e escandalosa”, diz José Rubens Chachá, que comemora 40 anos de carreira com a peça.

O ator afirma que “a peça passa por vários gêneros. Tem seu lado trágico, mas também tem comédia”.  'Frida y Diego' flerta até com o musical. A trilha sonora, de Guga Stroeter, é executada ao vivo. Chachá e Leona  são acompanhados por dois músicos, um no acordeom e outro no baixo. “A Maria Adelaide consegue passar por todos esses gêneros com muito brilhantismo. Ela nos dá a oportunidade de fazer, inclusive, um dramalhão mexicano”, diz o intérprete.

Graças a um desses momentos, Chachá relembra seus tempos de teatro musical. O ator fez parte do primeiro elenco de clássicos como Os saltimbancos e Ópera do malandro. Também cantou na noite. Agora, encara dois boleros, um deles bem dramático. “É um momento de separação, depois da primeira exposição dela no México”, conta.

“O Chachá está perfeito”, avalia Maria Adelaide. Ela reconhece, em tom de brincadeira, que muitas vezes os autores são os chatos do processo. No caso, a “mágoa” fica por conta da trilha sonora. No texto da peça, a dramaturga deixou apontamentos sobre determinadas músicas para a trilha sonora. “Eu pedia alguns boleros específicos. Ele (o diretor) usou muito mais. É uma bobagem minha, porque as pessoas adoram.”

AMOR ETERNO As particularidades ligadas à arte aparecem como pano de fundo em 'Frida y Diego'. “Acho Frida maravilhosa, não só pela grande pintora que foi, mas porque viveu muito à frente de seu tempo e foi um ser humano que não se deixou abater pelas dificuldades”, opina Leona Cavalli. Como a personalidade de Frida foi o que mais chamou a atenção de Leona, ela conta que privilegiou, em seu processo de composição da personagem, o encontro com as emoções da artista mexicana, para somente depois tentar moldar sua postura às experiências doloridas do corpo de Frida, que carregou sequelas de um acidente de trânsito.

O espetáculo destaca o reencontro dos amantes depois de anos de ódio e muita mágoa. Foi em uma fase em que Frida já estava bastante doente. “É um momento delicado, quando eles percebem que um não vive sem o outro”, conta Chachá. “As pessoas têm a oportunidade de entrar na intimidade daquele casal, passando pelas obras, os pensamentos filosóficos, políticos e também pelos ciúmes e as traições que magoaram ambos”, completa a atriz.

Como o espetáculo não tem uma linguagem linear, ao longo dos 90 minutos esse grande reencontro é permeado de flashbacks. Momentos como o casamento, as desavenças e os incentivos artísticos, assim como as mútuas traições, marcam presença em cena. Personagens importantes na história deles, como o revolucionário russo Leon Trotsky, com quem Frida teria tido um envolvimento amoroso, são citados.

O diretor Eduardo Figueiredo conta com projeções no cenário que reproduz a residência do casal, na Cidade do México. A iluminação é de Guilherme Bonfanti. Márcio Vinícius assina cenário, figurino e adereços


Frida y Diego

De Maria Adelaide Amaral. Com Leona Cavalli e José Rubens Chachá. Amanhã, às 20h, e domingo, às 19h. Grande Teatro Sesc Palladium. Rua Rio de Janeiro, 1.046, (31) 3214-5350. Plateia 1: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia). Plateia 2: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia).

Palavra de especialista
Daniela brandáo

Facilitadora de processos criativos e diretora de encantamentos da Waau Ideias e apaixonada por frida khalo

 

A beleza na dor
Dois acidentes teriam mudado o destino de Frida Kahlo. É o que costumava dizer sua mãe, Matilde Kahlo.


O primeiro deles ocorreu quando ela tinha 18 anos. Uma colisão entre um bonde e um ônibus deixou a mexicana com sequelas para a vida toda. Presa em uma cama, olhando para um espelho no teto, Frida encontrou a pintura e a si mesma. Foi durante sua recuperação que nasceram seus primeiros autorretratos.


O segundo acidente veio alguns anos depois, sob o nome de Diego Rivera. Ao encontrar o grande amor de sua vida, Frida não imaginava que encontraria também uma nova forma de experimentar a dor. O relacionamento dos dois foi marcado por brigas e traições, de ambos os lados.

 

O envolvimento do marido com a irmã mais nova de Frida foi a gota d’água para a separação. E, mais uma vez, ela encontrou na arte o caminho para a superação. Quadros marcados por sofrimento, conflitos internos e até a negação da sua feminilidade marcaram essa fase de sua carreira. Se o bonde deixou Frida com cicatrizes no corpo, Diego a teria deixado com cicatrizes na alma.


O afastamento do casal não durou muito tempo. Cinco anos depois, eles se casaram novamente. Foi Diego quem cuidou de Frida quando a saúde dela se deteriorou ainda mais. Após ter a perna amputada, a pintora disse uma de suas frases mais famosas: “Pés, para que te quero se tenho asas para voar?”.


A capacidade de encontrar a beleza em meio a tanta dor foi um dos legados que Frida Kahlo nos deixou.

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