Espanhol David Quiles Guilló lança livro abstrato

'Abstract/Ext' reúne 45 autores internacionais, que responderam a uma convocatória pública feita pelo Facebook

por Estado de Minas 26/05/2015 08:30

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Divulgação
(foto: Divulgação)
Ao organizar o recém-lançado 'Abstract/Ext', o espanhol David Quiles Guilló, de 42 anos, quis provocar danos na literatura. Típico do “sociopata cultural” que ele é. “Sociopata cultural” porque, como o próprio se define, ele “não sente culpa nem se arrepende de atos que atentem contra o establishment artístico”. Por danos, não entenda algo necessariamente negativo. A palavra pode ser entendida como “impulsora de mudanças”, diz o autor, editor e “leitor psíquico” da editora independente Abstract Editions.

“A tecnologia tem sido danosa à comunicação interpessoal, linear, com muitas pessoas ao mesmo tempo se falando via WhatsApp, Facebook, Twitter... Tudo isso faz com que o discurso se frature cada vez mais.”  Se hoje diálogos se esburacam feito queijo suíço, Guilló sugere que não o preenchamos com significados preestabelecidos. Daí surgiu sua “literatura abstrata”, espelhada no movimento-irmão das artes plásticas – do impressionismo de Jackson Pollock aos pôsteres psicodélicos dos anos 1960.

A filosofia é esta: “As palavras não têm a obrigação de contar uma história, de descrever personagem, paisagem, sentimento. Elas podem fluir livremente e gerar um sentido apenas em quem as lê, baseado em seu background literário ou de vida.” “Deixem as palavras serem livres”, resume o manifesto cunhado por ele.

Daí vem sentenças como estas a seguir, escritas por Guilló, na versão original em inglês:  “It starts with a whole yeah hey oh cool yeah that goes as high hole and then down to home as we come back we can go with you to see them the same, we changed, them all remain same but different.” O que, numa tradução livre, seria algo como: “Começa com todo um sim ei ó legal sim que vai feito buraco alto e então volta para casa enquanto nós voltamos nós podemos ir com você para vê-los o mesmo, nós mudamos, eles todos permanecem iguais, mas diferentes.”

MANIFESTO
'Abstract/Ext' (à venda no http://abstracteditions.org, por 45 euros, em torno de R$ 153) reúne 45 autores internacionais, que responderam a uma convocatória pública feita pelo Facebook.

A obra corporaliza em 240 páginas o “Manifesto da Literatura Abstrata” proposto por Guilló: primeiro conheça as regras literárias, para então expulsá-las de sua zona de conforto.  “Molde textos randomicamente num formato reconhecível para a leitura: prosa comum ou trabalhos poéticos. Nenhum experimento gráfico, poesia concreta serão permitidos. Sirva-se de gramática e sintaxe conhecidas como seu playground”, diz o texto.

Um brasileiro seguiu esse chamado: Carlos Issa, músico e artista visual paulistano. Ele escreve Urbe novata, aglomerado de ideias “que se formam ansiosamente na minha cabeça”. O texto é em inglês, com uma ou outra intervenção em português, com termos como “aparapêndulos”, “afetomáquinas” e “aracnodata visútil”. “Eles vêm dessa mania doentia que tenho de colar palavras umas nas outras, no pensamento”, diz. Tamanha bricolagem cognitiva é, para ele, “um desrespeito respeitoso que tenho pela literatura de modo geral”.

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