Artistas e ativistas culturais ajudam a desenhar a cara de uma BH inquieta

Personagens estão ajudando a desenhar uma cidade avessa a retrocessos e disposta a redefinir seu perfil no modo de produzir e consumir arte

por Mariana Peixoto 10/05/2015 07:00

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A arte além do espetáculo. Há quem pense a cultura de uma forma mais ampla, que vai além da manifestação artística, seja ela de que natureza for. Cada um à sua maneira, os quatro artistas abaixo são também ativistas culturais. Hoje, para além da música, do show ou da peça, eles pensam ainda como a cultura pode atuar como transformadora da cidade e de sua população. Sem fórmulas prontas, Guto Borges, Makely Ka, Pedro Valentim e Gustavo Bones, entre erros e acertos, tornaram-se referência para a cultura de uma Belo Horizonte inquieta, insatisfeita e que está querendo ser diferente.

LEANDRO COURI/EM/ D. A. PRESS
''BH tinha dificuldade de se entender'' - GUTO BORGES, 33 anos, músico e historiador (foto: LEANDRO COURI/EM/ D. A. PRESS)


Quem participa do renascido carnaval de BH já deve ter se deparado com o músico Guto Borges em alguns dos blocos que saem pela cidade. Ele está em todos, bem como na Praia da Estação, movimento surgido há cinco anos que se tornou um divisor de águas para a efervescência cultural que, a partir das redes sociais, tomou conta do Centro de BH.

“A cultura é um dos grandes elos da vida comum de uma cidade. E BH tinha uma dificuldade de entender a si mesma. A Praia da Estação e o carnaval de rua se tornaram marcos, dois encontros que mostram como nossa cidade é rica e não vive a reboque de outros lugares. Para mim, ativismo é fazer a reinvenção constante disso, pois a cultural é uma espécie de constituidora da própria cidade.”

Foi a partir de outros centro urbanos que Guto começou a entender a cultura como tal. Como integrante da banda Dead Lover’s, ele fez parte da geração de grupos e coletivos de BH que começaram, na segunda metade da década passada, a viajar pelo Brasil tocando em festivais independentes.
“Cidades como Belém, Cuiabá e Goiânia me mostraram outras formas de trânsito cultural. Foi a partir das viagens que vi como a música autoral poderia habitar o espaço público”, diz Guto, que esteve entre os realizadores do OutroRock, reunião de bandas e coletivos que estreou em 2008 com um festival na Praça Floriano Peixoto.


Pedro David/Esp. EM /D.A Press
''Há uma parceria natural entre todos'' - PEDRO VALENTIM, 31 anos, integrante do Família de Rua (foto: Pedro David/Esp. EM /D.A Press)


Não há como falar sobre a revitalização cultural do Centro de BH sem falar de um de seus protagonistas, o Duelo de MCs. Realizado desde 2007 embaixo do Viaduto de Santa Tereza, é um dos pontos-chave para que grupos de teatro, de música, bares e centros culturais também fizessem da região sua “casa”.

Integrante do coletivo Família de Rua, realizador do Duelo, o MC Pedro Valentim conta que o local foi escolhido por causa do fácil acesso. “Historicamente, o hip-hop tem uma postura de pensar a cultura de forma coletiva e colaborativa. Naquele momento, não tínhamos consciência de que iríamos discutir a cidade no âmbito do coletivo. A proposta era ter um espaço de convivência que fosse para todo mundo.”

Não foram poucos os percalços para que o Duelo, um encontro de rappers, MCs e B.boys, continuasse a ser realizado até os dias de hoje. Com o poder público, a luta tem sido grande. Em janeiro de 2014, tanto o Família de Rua quanto outros coletivos que ocupavam o viaduto foram surpreendidos com o fechamento do local, para reforma, sem nenhum aviso prévio.

Houve uma consequente ocupação do viaduto, a criação de uma comissão paritária (que acabou não indo muito adiante) para discutir a função do espaço e uma obra que se prolonga sem muitas definições. Hoje, o Duelo voltou para o viaduto (somente o lado da Serraria Souza Pinto foi reaberto) e é realizado no segundo e no quarto domingos de cada mês. Tem a seu lado outras iniciativas culturais, como encontros de skate, saraus de poesia e shows de samba.

Mas está longe do ideal, já que conta com uma estrutura mínima. Não há iluminação durante a noite, tampouco banheiro. Cada novo passo do Família de Rua é acompanhado de perto por seus 40 mil seguidores no Facebook. “Nos últimos anos, os coletivos conversam entre si. Há uma parceria natural entre todos, que contribuem nas várias mobilizações realizadas na cidade.”


Alexandre Guzanshe / EM / D.A Press
''Pensamos a rua teatralmente'' - GUSTAVO BONES (dir.), 30 anos, ator, integrante do Espanca! (foto: Alexandre Guzanshe / EM / D.A Press)


Prestes a completar 11 anos, o grupo de teatro Espanca! tem uma linha divisória muito clara para a realização de seu trabalho. Foi em 2010, quando abriu o Teatro Espanca! na Rua Aarão Reis, que a formação teatral pôde ir além dos próprios espetáculos.

“A paisagem por que a gente passa quando se desloca para ir trabalhar interfere sobremaneira no nosso trabalho. Fizemos daquele lugar um espaço de discurso”, afirma Gustavo Bones, um dos três integrantes do Espanca! (à direita na foto).

O grupo tem seis espetáculos em seu repertório. Os dois mais recentes, Dente de leão e Líquido tátil, foram produzidos no teatro, na verdade uma loja que convive pacificamente com o movimento intenso da região.

“Quando abrimos o teatro, pela própria relação de apropriação que existe com o espaço daquela região, a gente foi obrigado, no bom sentido, a ampliar nosso público através de encontros, saraus. A maioria dos grupos de teatro que têm sede se dedica a receber outros grupos de teatro”, diz.

O diálogo com a rua é sempre uma constante. “Conseguimos pensar a rua teatralmente, o que é uma certa forma de ativismo. Temos uma performance que se chama Ruído que se dedica à observação do espaço externo, coisa que fazemos com a população de rua”, acrescenta Bones.

Marco Antonio Goncalves Jr./Divulgacao
''Temos poder de mobilização'' - MAKELY KA, 39 anos, cantor, compositor e escritor (foto: Marco Antonio Goncalves Jr./Divulgacao)


O meio cultural conhece bem Makely Ka. Uma das vozes mais conhecidas de debates e discussões tanto com o poder público quanto com o setor privado, o cantor, compositor e escritor nunca fugiu de uma polêmica. E isso muito antes das redes sociais.

“Penso a cultura dentro da perspectiva antropológica. Ela está muito presente nas práticas cotidianas, do que a gente come, veste, na forma como falamos. As manifestações artísticas estão inseridas dentro deste universo cultural”, afirma ele, que acredita que todo ato artístico é político.

“Meu ativismo, sem ser panfletário, faz parte do meu trabalho artístico. Quando faço uma canção, de uma certa forma estou sendo político, mesmo que a temática não seja política”, acrescenta ele, também atuante na política cultural.

“Minha atuação é um desdobramento da atividade artística, algo que está integrado ao meu cotidiano”, diz Makely, que é integrante da Cooperativa da Música e o Fórum Nacional da Música.

Desde março, ao lado de artistas, produtores, coletivos e grupos de diferentes áreas, ele integra o Movimento Matraca, de reflexão sobre as políticas públicas para a cultura. “O grande diferencial  é que os participantes são artistas já calejados, que não estão a fim de ficar só na discussão das plenárias. Queremos ir para a rua, fazendo ocupações e intervenções na cidade, pois há um tipo de cobrança que tem que atuar de forma mais incisiva”, diz.

Os encontros, quinzenais, já reuniram 80 pessoas. Houve algumas atuações neste curto espaço de tempo desde a criação do Matraca, como uma manifestação  contra o fechamento do Teatro Klauss Vianna, previsto para 30 de junho. “Nossa melhor forma de atuação é artística, coisa que os burocratas não conseguem fazer. Temos poder de mobilização”, conclui.

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