Manifestações de 2013 são tema de exposição na Bienal de Veneza

Pavilhão brasileiro apresenta a mostra 'É tanta coisa que nem cabe aqui', inspirada nos protestos que tomaram as ruas do país

por Walter Sebastião 09/05/2015 14:00

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Ana Mokarzel/divulgação
'Quando todos calam', de Berna Reale, apresentada em Belo Horizonte. A artista participa da mostra de Veneza com um vídeo (foto: Ana Mokarzel/divulgação)

A 56ª Bienal Internacional de Arte de Veneza será aberta hoje ao público. A proposta do  curador geral, o nigeriano Okwui Enwezor, é recriar, com a arte dos dias atuais, o contexto social, cultural e político que  há 120 anos impulsionou a criação da mostra italiana. Esta edição ganhou o nome de  Todos os futuros do mundo e permanecerá aberta à visitação até  22 de novembro.

A única brasileira a fazer parte da mostra é a mineira Sônia Gomes. Porém, o Brasil leva a Veneza uma representação oficial para o seu pavilhão, construído em 1964 . Batizada de É tanta coisa que nem cabe aqui, a mostra brasileira exibirá obras de  Antônio Manuel (RJ), Berna Real (PA) e André Komatsu (SP). A curadoria pertence a Luiz Camilo Osório e Cauê Alves.

É tanta coisa que nem cabe aqui remete às jornadas de junho de 2013, de protestos pacíficos nas ruas das cidades brasileiras. Volta-se, segundo os curadores, para poéticas contemporâneas relevantes não só para história da arte como reveladoras do contexto social brasileiro.

A paraense Berna Reale vem ganhando nos últimos anos merecido destaque com suas instalações, performances e vídeos, que já foram apresentados em grandes exposições no Brasil. Em 2015, ela foi uma das vencedoras do prêmio Marcoantonio Vilaça. Está no projeto Rumos e no Panorama da Arte Brasileira (MAC/USP). “É tanta coisa que às vezes penso se isso está realmente acontecendo. Parece um filme”, afirma.

Berna vai apresentar em Veneza um vídeo de pouco mais de três minutos chamado Americano. É um registro da artista percorrendo os corredores do Complexo Penitenciário de Americano, em Santa Izabel (RJ), carregando uma tocha. Segundo Berna, a obra questiona a tocha como símbolo do triunfo e alude à revelação e ocultação de problemas sociais.

Outros vídeos da artista serão exibidos em fachadas de casas fora do circuito histórico de Veneza, num projeto independente, com curadoria de Caroline Carrion e Rudolf Schmitz, que objetiva tornar a arte acessível a quem não frequenta a Bienal e outros espaços de arte.

RUÍDO

“Meu trabalho procura causar um ruído sobre questões de violência, qualquer uma, mesmo a silenciosa”, diz Berna Reale. Além de performances, ela trabalha com instalações e com fotografia. “Resolvi também fazer performance quando senti que gostaria de interferir no espaço da cidade com meu corpo, com uma atitude”, afirma.

Antônio Manuel, de 68 anos, nasceu em Portugal, mas mora no Rio de Janeiro desde criança. Começou sua atividade artística na passagem dos anos 1960 para os 1970, integrando o que se convencionou chamar de vanguarda carioca. O trabalho incial com fotos, jornais e objetos deu lugar, com o tempo, a pinturas e instalações cujo mote recorrente é o choque entre ordem e desordem, centro e periferia.

O artista participa do pavilhão brasileiro em Veneza com filme e instalações que recriam vivências de personagens e ambientes das favelas cariocas. “Ser convidado para a bienal é um reconhecimento da minha trajetória como artista”, afirma.

O paulista André Komatsu, formado em artes plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), tem 27 anos e participou do programa Bolsa Pampulha. Vai apresentar em Veneza duas instalações, criadas com vários materiais: Status quo (2011) e Estado de coisas 2 (2011).

Ainda estão na Bienal de Veneza os brasileiros Rosana Palazyan, que integra o pavilhão da Armênia, e Vic Muniz, que faz exposição independente.

 

Antonio Manuel / Acervo Pessoal
Instalação do artista brasileiro nascido em Portugal Antônio Manuel, selecionado para o pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza (foto: Antonio Manuel / Acervo Pessoal)
Mostra faz alusão à catástrofe da guerra

O tema Todos os futuros do mundo dialoga com a pintura de Paul Klee (1879-1940)  Angelus novus. Trata-se da imagem de um anjo que, segundo a interpretação do crítico cultural Walter Benjamin (1892-1940), olha com olhos arregalados a catástrofe que é a história.

“Cem anos depois dos primeiros tiros disparados na 1ª Guerra Mundial, e 76 anos após o início da 2ª Guerra Mundial, em 1939, o cenário mundial novamente aparece despedaçado e de caos, marcado por motins violentos e aterrorizado pela crise econômica”, afirma o curador, em texto a respeito da mostra. Ele cita ainda a catástrofe humanitária dos deslocamentos populacionais via mares e desertos, com imigrantes buscando refúgio em terras mais ricas e tranquilas e, muitas vezes, morrendo na travessia.

“Em todos os lugares para onde se olha temos a sensação de ver uma nova crise, a incerteza e a instabilidade aprofundando-se em todas as regiões do mundo”, prossegue Okwui Enwezor em seu texto.

LEÃO DE OURO


O Leão de Outro da 56ª Bienal de Veneza foi concedido ao ganês El Anatsui, de 71 anos, escultor e professor da Faculdade de Belas-Artes da Nigéria, que vive e trabalha na cidade universitária Nsukka. Na opinião do curador, Anatsui oferece uma grande contribuição para o sucesso de artistas africanos contemporâneos no cenário global. O prêmio será entregue no sábado.

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