Nos 14 anos em que Drummond viveu em BH, a capital assistiu a uma inflexão na literatura

Movimento teve à frente o poeta, que aqui se tornou amigo do modernista Mário de Andrade

por Mariana Peixoto 01/05/2015 10:00

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 Acervo CDA do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa
O poeta Carlos Drummond de Andrade, que lançou 'Alguma poesia', seu primeiro livro, há 85 anos. O volume é dedicado ao escritor Mário de Andrade, que ele conheceu em Belo Horizonte (foto: Acervo CDA do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa)
“Sua opinião me interessa mais do que a de qualquer outro, e você sabe que já estou acostumado à sua franqueza rude. A sensação que experimento, ao ver esse livro concluído, é de alívio. Sim senhor! Que coisinha mais difícil de parir.”

Ao longo de 21 anos de amizade, Carlos Drummond e Mário de Andrade pouco se encontraram. Mas a distância não os impediu de manter relacionamento estreito, traduzido nas 161 cartas que trocaram no período.

A que abre este texto foi escrita por Drummond em abril de 1930. Ele havia acabado de publicar 'Alguma poesia', que dedicou a Mário. Na época, havia seis anos que os dois tinham se conhecido pessoalmente.

A vinda dos modernistas a Belo Horizonte, em abril de 1924, foi um marco não só para Drummond, mas para a própria cidade. Era ele o mais entusiasmado com a visita de Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Tarsila do Amaral, na chamada viagem de descoberta do Brasil, iniciada logo após o carnaval no Rio.

“Tive notícias do grupo na Rua da Bahia por Carlos Drummond, que estava convocando visitantes para ir ver os paulistas no Grande Hotel”, relembra Pedro Nava em 'Beira-Mar'. Drummond, Nava, Martins de Almeida e Emílio Moura, basicamente a turma que se reunia no Café Estrela, se postaram no prédio do Maletta para conhecer os paulistas.

Foi ali, entre as ruas da Bahia e Paraopeba (hoje Avenida Augusto de Lima) que se iniciou uma amizade que só terminaria em 1945, com a morte de Mário.

Drummond viveu em BH apenas 14 anos. Mas foram anos definitivos. Com a família, chegou à capital mineira com 18 anos. Foi aqui que se formou a intelectualidade literária dos primeiros anos da nova capital. Junto a Milton Campos, Abgar Renault, Emílio Moura, Pedro Nava e Aníbal Machado, Drummond frequentou a Livraria Alves, o Bar do Ponto e o Café Estrela.
Foi também aqui que se graduou em farmácia; que se casou com Dolores; que teve seus dois filhos, Carlos Flávio e Maria Julieta. Antes de estrear na literatura com Alguma poesia, já era conhecido no meio jornalístico da cidade.

Berço do modernismo mineiro, o 'Diário de Minas' recebeu Drummond primeiramente como colaborador. Em 1926, tornou-se redator-chefe. O poeta não estava sozinho, teve como colegas Emílio Moura e João Alphonsus. Eles podiam fazer no campo literário o que quisessem no periódico de quatro páginas, desde que seguissem a linha política do jornal, pertencente ao Partido Republicano Mineiro (PRM).

PSEUDÔNIMOS Drummond ainda atuou como colaborador do 'Minas Gerais', Estado de Minas e 'Diário da Tarde'. Escrevia sempre com um pseudônimo, geralmente nomes comuns, que poderiam pertencer a qualquer um. Foi Manoel Fernandes da Rocha no Diário de Minas; Antônio Crispim no Minas Gerais.

Foi ainda como um homem comum que viveu situações bastante curiosas, ainda mais levando-se em consideração a imagem circunspecta que manteve por boa parte da vida. Antes de se casar, frequentava o chamado Salão Vivacqua, no casarão hoje fechado na esquina das ruas Gonçalves Dias e Sergipe.

Pertencente a família capixaba que aqui chegou nos anos 1920, era palco de saraus mensais. Amigo de Achilles, o terceiro dos 15 irmãos Vivacqua (entre eles a polêmica Luz del Fuego), Drummond protagonizou com Pedro Nava uma história que deu o que falar na época. No porão da casa, onde ficava a lavanderia, a dupla ateou fogo em jornais. O objetivo era ver as Vivacqua saírem correndo de camisola.

A residência em Belo Horizonte termina em 1934, quando Drummond se mudou definitivamente para o Rio de Janeiro. Voltaria várias vezes para visitar a mãe, Julieta Augusta, que vivia no Hospital São Lucas.

Mas a passagem pela cidade ficou definitiva na poesia com certa amargura quando, na segunda metade da década de 1970, Drummond publicou 'Triste horizonte'. Saudoso da cidade de meio século antes, ele se mostrou implacável com as mudanças. “Não quero mais, não quero ver-te, meu triste horizonte e destroçado amor.”

TRECHO


“Eu conhecia a Rua da Bahia quando ela era feliz. Era feliz e tinha um ar de importância que irritava as outras ruas da cidade. Um dia, parece que a Rua da Bahia teve um desgosto qualquer e começou a decair. Hoje, a gente olha para ela com um respeito meio irônico e meio triste. Como quem olha para Ouro Preto.”
Carlos Drummond de Andrade, sob o pseudônimo de Antônio Crispim, em texto publicado em 23 de abril de 1930 no Minas Gerais, diário oficial do estado.

Drummond em BH

» 1920 – Transfere-se com toda a família de Itabira para Belo Horizonte
» 1921 – Torna-se amigo de Milton Campos, Abgar Renault, Emílio Moura, Pedro Nava e Aníbal Machado, frequentadores da Livraria Alves e do Café Estrela
» 1923 – Ingressa na Escola de Odontologia e Farmácia
» 1924 – Conhece Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, todos de passagem pela capital mineira
» 1925 – Casa-se com Dolores Dutra de Morais. Com Martins de Almeida, Emílio Moura e Gregoriano Canedo funda A Revista, publicação modernista que dura três edições. Gradua-se em farmácia
» 1926 – Depois de um curto período de volta a Itabira, onde deu aulas de geografia e português no Ginásio Sul-Americano, retorna a BH como redator do Diário de Minas. Rapidamente, torna-se redator-chefe
» 1927 – Nasce seu primeiro filho, Carlos Flávio, que só vive por meia hora
» 1928 – Publica na Revista de Antropofagia, de São Paulo, o poema ‘‘No meio do caminho’’, um escândalo literário. Nasce sua filha Maria Julieta
» 1929 – Deixa o Diário de Minas para trabalhar no Minas Gerais, órgão oficial do estado
» 1930 – Publica Alguma poesia, com 500 exemplares
» 1933 – Trabalha como redator de A Tribuna. Acompanha Gustavo Capanema quando este é nomeado interventor federal em Minas Gerais
» 1934 – Volta a ser redator dos jornais Minas Gerais, Estado de Minas e Diário da Tarde. A convite de Gustavo Capanema, ministro da educação e Saúde Pública, transfere-se para o Rio de Janeiro, onde se torna seu chefe de gabinete. Publica o livro Brejo das almas

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