Artistas abrem mão das leis de incentivo e inventam outras maneiras de produzir

Em nome da 'urgência' em realizar suas obras, artistas desistem do moroso processo de captar patrocínio com benefício fiscal

por Mariana Peixoto 26/04/2015 00:13

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Paola Rodrigues/Divulgação
Integrantes da banda Lupe de Lupe. Nome conhecido na cena underground da capital mineira, privilegia shows sob demanda, via redes sociais, que se pagam com a bilheteria (foto: Paola Rodrigues/Divulgação )

É possível fazer arte com pouco (ou quase nenhum) dinheiro? Quatro artistas/realizadores ouvidos pelo Estado de Minas mostram, a partir de suas próprias experiências, que não é apenas possível, como também viável.

Sem utilizar verba das leis de incentivo (renúncia fiscal), Leonardo Fernandes encerrou, há duas semanas, uma das sensações recentes do teatro mineiro. Na última sessão de Cachorro enterrado vivo, teve gente que voltou para casa sem conseguir ingresso no Teatro João Ceschiatti, no Palácio das Artes.

Também da área das artes cênicas, Priscilla Cler realizou o musical A erudita com boa vontade e uma parcela mínima de dinheiro obtida via financiamento coletivo.

Uma das bandas mais bem faladas do underground da cidade, Lupe de Lupe, com dois álbuns e dois EPs, marca seus shows a partir das demandas que surgem nas redes sociais. Banca suas produções com o que ganha nas bilheterias do show.

Leonardo Amaral, sócio da El Reno Fitas, já realizou quatro longas-metragens coletivos utilizando mecanismos diversos: pode ser ajuda da família, dos amigos e o chamado crowdfunding. Editais públicos de pequeno valor foram usados, até agora, para a finalização de um só dos filmes.

Todos eles avaliam que esse modelo, na base da boa vontade de colegas e de muita colaboração, não é ideal. Mas é a única maneira viável para eles, já que o fazer artístico não pode esperar.

Matheus Soriedem/Divulgação
A atriz Priscilla Cler, em cena de A erudita, em que interpreta uma cantora lírica. Hoje vivendo em João Pessoa, ela prepara nova versão da obra, com elenco paraibano (foto: Matheus Soriedem/Divulgação)

Além de desempenhar os três personagens do texto de Cachorro enterrado vivo, o ator Leonardo Fernandes panfletou na rua, em porta de teatro, pregando cartaz, para divulgar a peça. Se lhe perguntarem sobre sua primeira experiência como produtor, ele responde, sem pensar duas vezes: faria tudo de novo.

Fernandes contabiliza um gasto de R$ 17 mil para a montagem, com texto de Daniela Pereira de Carvalho e direção de Marcelo Fonseca do Vale, seu parceiro em outras encenações. “Consegui a metade por meio de pequenos apoios. Investi o resto pensando que teria que divulgar muito. Agora falta muito pouco para pagar o espetáculo inteiro.”

Pela urgência em montar o texto, ele não pensou em se inscrever em nenhum mecanismo para captação de verba pública. No aprendizado de fazer tudo por conta própria, deparou-se com alguns percalços. “Faltando um mês para a estreia, a gente viu que não ia ter como fazer o cenário que havíamos imaginado. Já estávamos ensaiando havia três meses, não tinha como parar.”

O jeito foi contar com a boa vontade alheia. No caso, a do tio Ronaldo de Deus, que se transformou em cenotécnico. Concebida por Cícero Miranda, a cenografia mistura telas, lona, terra e vários objetos. “Se eu tivesse hoje R$ 1 milhão, ficaria com o mesmo cenário”, conta Fernandes. Seu plano mais imediato é terminar de pagar a montagem, para investir de novo numa nova temporada.

Lia Soares/Divulgação
O ator Leonardo Fernandes em cena do monólogo Cachorro enterrado vivo. Além de interpretar os três personagens da encenação, ele produziu e divulgou a peça, que cumpriu temporada no Teatro João Ceschiatti (foto: Lia Soares/Divulgação)
VOCAÇÃO
A atriz Priscilla Cler nunca teve a menor vocação para a produção. Tinha na cabeça um espetáculo sobre uma cantora lírica nada ortodoxa, já que não conseguia interpretar sem se mexer. A personagem buscava, desta maneira, quebrar os rígidos padrões de interpretação do canto.

A erudita, espetáculo encenado em BH em 2014, era um projeto pessoal de Priscilla que, além de ser atriz, tem formação em canto lírico e flauta. “Nem pensei em me inscrever em lei, pelo fato de os projetos demorarem para ser aprovados. Já tinha a equipe comigo para trabalhar no sistema de colaboração. Não tinha grana nenhuma. Todo mundo era amigo e não esperava dinheiro em troca.”

Em BH, a peça fez 27 apresentações. Trabalhando com uma equipe de uma dúzia de profissionais, Priscilla levantou, via financiamento coletivo, R$ 3 mil para pagar a produção do cenário e o figurino. O restante ela tirou do próprio bolso. A bilheteria que conseguiu com as apresentações na Campanha de Popularização deu para pagar o elenco (havia outros dois atores em cena) e o diretor, Antonio Hildebrando.

Residindo há um mês em João Pessoa, ela se prepara para estrear a montagem na capital paraibana, em 13 de maio, com elenco local. “Se viver de teatro em BH é difícil, na Paraíba é muito mais. São menos editais, menos recursos. Mas, por outro lado, vejo os artistas daqui trabalhando ‘na tora’. Fazem teatro com dinheiro ou não”, afirma.

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