Marco Nanini se une à nova geração do teatro em 'Beije minha lápide'

Ator veterano interpreta um fã de Oscar Wilde que, em sua tentativa de proteger o túmulo do escritor, termina sendo preso

por Carolina Braga 18/04/2015 00:13

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Humberto Araújo/ Divulgação
Preso em cela conceitual formada por cubo de vidro, Nanini desafia próprio corpo em jogo de cena (foto: Humberto Araújo/ Divulgação)
Marco Nanini se aproximou de criadores da nova geração do teatro carioca por uma simples necessidade de manter-se atual. “Precisava dessa gente”, confessou. 'Beije minha lápide', espetáculo que apresenta neste fim de semana no Teatro Sesiminas, é a prova de que tal desejo não é sintoma de vaidade. Poderia ser: o ator veterano se une a jovens intérpretes para mostrar o quão poderoso é. Demonstra, no entanto, vontade de troca.


Ainda que seja o protagonista e que toda a trama gire em torno do que Bala, seu personagem, faz e/ou fala, a relação de Nanini com os atores da Cia Independente de Teatro é horizontal, o que potencializa a montagem dirigida por Bel Garcia (Cia dos Atores). Somado a isso, há o texto ágil de Jô Bilac, incensado dramaturgo da cena carioca.

'Beije minha lápide' é uma homenagem ao escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900). Nanini é admirador da obra, gostaria de levar as ideias dele para o palco, mas sem ser óbvio. A proposta de Bilac caiu como uma luva. Contar a história de Bala, escritor admirador de Wilde. Homossexual como o autor e revoltado com a decisão dos administradores do cemitério Père Larchaise, em Paris, de colocar um vidro no túmulo do artista, em um surto Bala viola a proteção instalada para conter beijos de fãs. Com isso, é preso.

Toda a peça se passa dentro da estilosa cadeia. A cela é conceitual, um cubo de vidro criado pela cenógrafa Daniela Thomas. É nesse espaço que o público presencia a dúbia “amizade” do detento com o carcereiro (Paulo Verlings), a conflituosa e irônica relação com a advogada (Carolina Pismel) e o delicado encontro com a filha (Júlia Marini).

Mesmo para um ator como Nanini, é prova de fogo estar naquela situação, manter um jogo vivo com colegas de cena e a plateia em espaço restrito. Ele vence o desafio com o que seu corpo é capaz de oferecer, mas conta com aparato da técnica. Microfones se mostram fundamentais para auxiliar a projeção vocal.

A agilidade da peça está no ritmo do texto e no afinado bate- bola do elenco. Júlia Marini como guia do Père Larchaise garante risadas. Há aqui sutis ironias direcionadas ao aspecto turístico de um cemitério, assim como ao culto às celebridades. São camadas menos óbvias do texto, que acentuam seu humor.

Alguns dos aspectos que fazem a dramaturgia de Jô Bilac ser contemporânea são os temas que escolhe tratar e o manejo de colagens. Os escritos de Wilde estão em 'Beije minha lápide', mas, costurados ao texto teatral, soam cotidianos, atuais. Assim como foram urgentes – por vezes incompreendidos – para a sociedade do século 19, têm relevância para quem hoje presencia discussões em torno das novas constituições familiares, ao mesmo tempo em que vê notícias sobre travestis espancadas por policiais (#somostodosveronica).

O texto escorrega, no entanto, ao propor tantas situações que, no decorrer da trama, são deixadas de lado. Ansiedade desnecessária da dramaturgia que contamina a cena em um momento, por exemplo, quando há um flashback para acrescentar informação à trama com revelação importante, mas não substancial. A peça poderia seguir seu curso linear, sem prejuízos ao entendimento.

Homossexualidade, lealdade, paternidade, sanidade e loucura são alguns dos temas que habitam os devaneios de Bala. O fato de ele estar “preso” no cubo de vidro é simbólico, assim como as projeções que fazem lembrar líquido em derrame, ou fumaça se esvaindo no ar. Não é apenas um homem preso, mas também suas ideias, de certa forma represadas e que precisam desaguar. Assim foi Wilde.

'Beije minha lápide
'
Com Marco Nanini e elenco. Sábado, 18 de abril, às 20h, e domingo, 19, às 19h no Teatro Sesiminas (Rua Padre Marinho, 60, Santa Efigênia). Ingressos: R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia); R$ 50 (válido para os 20% da capacidade vendável do teatro em atendimento ao Vale-Cultura). Informações: (31) 3241-7181.

TRECHO


“Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois ao vê-los loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a ‘normalidade’ é uma ilusão imbecil e estéril” (Oscar Wilde)

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