Cenógrafo Ed Andrade se consolida como importante realizador dos palcos mineiros

Com 15 anos de carreira, artista tem série de trabalhos elogiados por colegas, crítica e público

por Carolina Braga 15/04/2015 08:00

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Arquivo Pessoal
(foto: Arquivo Pessoal)
“É, o pessoal do teatro está me descobrindo”, reconhece Ed Andrade. Há uma certa timidez na constatação que não esconde a alegria em perceber que o trabalho vai se disseminando. Demorou para que isso ocorresse: são 15 anos de carreira. Noturno, do Grupo Teatro Invertido; Humor, do grupo Quatroloscinco – Teatro do Comum; Prazer, da Cia. Luna Lunera, e Fábulas errantes, do projeto Pé na Rua, do Galpão Cine Horto, são alguns dos espetáculos produzidos nos últimos dois anos que levam a assinatura dele e, assim, confirmam o interesse gerado pelo seu trabalho na cena teatral mineira.


Não que Ed esteja reinventando rodas. O arquiteto e professor do curso de artes cênicas da Universidade Federal de Minas Gerais é adepto de uma forma colaborativa de criação que tem muito a ver com a maneira como os coletivos de artes cênicas concebem suas obras hoje. É um artista pronto para dialogar, se interessa pela experimentação, tem um olhar atento para o que as artes visuais têm a oferecer e a pesquisa de materiais é rotina.


Também tem muito a ver com o que prega o autor alemão Hans-Thies Lehmann no livro Teatro pós-dramático. Diz a teoria que é próprio da criação contemporânea incorporar na encenação elementos capazes de dialogar com o intérprete e a dramaturgia dos espetáculos. Assim, cresce o uso das tecnologias audiovisuais, outras formas de arte são adicionadas à cena e o cenário, por sua vez, é visto sob um prisma mais ativo que simplesmente decorativo. Ainda bem.


“Não sou exatamente um criador absoluto de cenário, dependo da encenação para dar sentido àquele espaço. A teatralidade não está somente nas minhas mãos”, explica. Atualmente radicado no Rio de Janeiro, Ed Andrade desenvolve por lá a tese de doutorado “O espaço encena: teatralidade e performatividade na cenografia contemporânea”. O objetivo é investigar as noções de espaço em relação com o trabalho do ator e outros elementos sempre em consonância com o que as artes plásticas têm a propor.


“O espaço também tem uma performatividade e, como sou cenógrafo, posso colaborar com uma possível teatralidade desse espaço para os atores, para a iluminação e os outros agentes da encenação”, afirma. Dentro do modo Ed Andrade de criação, é impossível desvencilhar a elaboração do cenário do processo criativo da montagem. “Não consigo chegar para um diretor e falar: ‘Minha proposta é esta’. Tenho que ver ensaio, me alimentar de outras frentes de criação, estar em contato com alguma coisa”, conta.


Para Ed Andrade, esta forma de concepção tem a ver com a produção atual. “O teatro contemporâneo deixa de ter o texto como a única espinha dorsal e se pauta pela visualidade como a principal fonte de comunicação com o público. Assim, acabamos inseridos em um discurso maior”, explica.

 

Quadrienal de Praga


Em junho, Ed Andrade participará da Quadrienal de Cenografia de Praga, considerado um dos eventos mais importantes na área de cenografia. O grupo de pesquisa “Cenografia e outras práticas espaciais cênico-performáticas”, coordenado por ele e os professores Tereza Bruzzi e Cristiano Cezarino, terá dois trabalhos expostos por lá: o projeto cenográfico para Noturno, espetáculo do Grupo Teatro Invertido, e também o de O gol não valeu, montagem da Zap 18, atualmente em cartaz no CCBB-BH. “A quadrienal tem tanto caráter prático como teórico”, explica. As experiências mineiras fazem parte da mostra BRASIL: LABirintos compartilhados, que reúne trabalhos de estudantes de todo o país. “A academia para mim é fundamental. Teoria e prática têm uma relação muito íntima. Procuro estabelecer essa ponte”, diz. Tanto que, desde 2008, quando ingressou no quadro de professores da UFMG, os cenários desenvolvidos para teatro e dança são atrelados à atividade docente. “Minha prática está, de certa forma, atrelada às minhas atividades de ensino e pesquisa junto à academia”, conclui.

Início de carreira em mesa de bar

 

Como qualquer adolescente diante da escolha da profissão, Ed Andrade titubeou. A dúvida residia em seguir a paixão pelo teatro e ser ator ou se tornar arquiteto. A segunda opção pesou mais e lá foi ele para as aulas de projetos, cálculos, estruturas prediais e afins. “Nunca havia pensado na cenografia. Isso não tinha me ocorrido e foi por acaso”, conta. Para ser mais exato, em mesa de bar.

Era 1999 e o Grupo Primeiro Ato precisava de um cenógrafo para Beijo nos olhos, na alma e na carne. Amigo da galera, em uma mesa de bar nasce a sugestão: e se ele fizesse?. Foi um susto. Até então, todo o urdimento de uma sala teatral era algo estranho para o arquiteto. Prática, Sueli Machado, diretora artística da companhia, organizou uma visita técnica ao Palácio das Artes, explicou tim-tim por tim-tim.

Ed Andrade se juntou à artista plástica Inês Vieira, se trancaram no galpão do Primeiro Ato e pronto. “Aí gostei muito daquilo. Saquei que tinha uma intuição para a coisa”, lembra. Depois de Beijo nos olhos, na alma e na carne logo surgiram convites para trabalhar com outros nomes da dança mineira, entre eles Dudude Herrmann e a Mimulus Cia. de Dança, parceria fundamental para a carreira.

Desde o cenário de E esse alguém sabe quem (2001), Ed é responsável pelos cenários da companhia mineira de dança de salão. Com a Mimulus rodou o mundo, ganhou prêmios e aprendeu na prática a associar estética e técnica.

Para Ed Andrade, as criações para teatro e dança compartilham a mesma base. O cenário é um arranjo espacial que será apropriado pela encenação. As fronteiras, então, são muito tênues. Se no teatro o texto pode pedir lugares concretos, o desafio é sempre propor metáforas. “Soluções que não estão diretamente ligadas ao texto, a respostas indiretas que a que a gente responde por provocações. Na dança tem mais liberdade nesse sentido”, diz.

 

O QUE DIZEM DELE …

>> QUATROLOSCINCO TEATRO DO COMUM
“Trabalhar com o Ed em Humor foi uma experiência pautada na colaboração. Tínhamos uma ideia e ele captou com muita sensibilidade o que queríamos. Ed fez do cenário um quinto personagem, totalmente integrado à dramaturgia. Nem sempre um cenógrafo tem essa habilidade de dialogar diretamente com a obra. Para nós, que não trabalhamos com um diretor, foi essencial encontrar no Ed esta postura de cocriador.”

Marcos Coletta, ator e dramaturgo

>> CIA. LUNA LUNERA
“Ed Andrade tem a rara capacidade de se lançar em um processo de criação e integrar-se plenamente à proposta de trabalho, conseguindo captar ideias difíceis de ser verbalizadas, mas que estão ali, no ar. E o melhor é que ele se coloca de forma intensa, afetuosa e colaborativa. É delicioso trabalhar com gente empolgada com o que faz. Não por acaso, o trabalho dele vem sendo reconhecido cada vez mais.”

Marcelo Souza e Silva, ator

>> GRUPO TEATRO INVERTIDO
“Os Invertidos sempre se enamoraram dos cenários de Ed Andrade aqui em BH. Quando começamos a pensar em nomes para o Noturno, ele surgiu com força. Afinal, se a gente ia encarar um palco, nada melhor do que a competência do Ed. Ele chegou com seu jeitinho calmo e doce, escutou todos os nossos desejos e se pôs a trabalhar. Quando nos demos conta, estávamos literalmente desequilibrados. O cenário de Noturno nos ‘tira o chão’ como atores e isso foi um grande desafio, além de um prazer enorme!”

Rita Maia, atriz

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