Livro rejeita clichês que cercam obra de Guignard

Volume da coleção 'Circuito ateliê' mostra pintor como um intelectual comprometido com a renovação artística

28/03/2015 14:49

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Luiz Alfredo / Arquivo O Cruzeiro / EM / D.A Press
Alberto da Veiga Guignard pintando Ouro Preto, sua "cidade amor-inspiração" (foto: Luiz Alfredo / Arquivo O Cruzeiro / EM / D.A Press)

Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) é uma figura humana fascinante. A quantidade de relatos de amigos, contemporâneos, críticos, escritores e alunos sobre ele talvez indique que se trata do mais surpreendente mistério das artes visuais no Brasil. Exatamente por isso, sempre que surgem textos sobre o pintor ou suas obras reabre-se um arco extenso de questões que iluminam esse criador singular. É como se entre a arte e a vida de Guignard houvesse lapsos, lacunas que incitam o desejo de saber mais sobre o homem que ele foi e as imagens que nos deixou.

O recém-lançado volume da coleção 'Circuito ateliê (C/Arte)' dedicado a Guignard não foge à regra. Com boa seleção de depoimentos e escritos do próprio pintor, além de textos de críticos que o conheceram ou escreveram sobre seu trabalho, o pequeno volume oferece sintética, mas preciosa, biografia artística acrescida de cronologia e do perfil humano desse fluminense de Nova Friburgo, mestre de talentosa geração de artistas plásticos.

Está tudo lá: a formação na Europa, o contato com a arte moderna, a volta ao Brasil, a participação marcante – inclusive como curador de exposições – no debate sobre a renovação estética no país, a dedicação ao ensino, perambulações entre Rio de Janeiro e Minas Gerais. Nesse percurso nos deparamos com a criação seduzida pelo expressionismo e o surrealismo, que, tropicalizada, abraça a arte popular.

Com sensibilidade e elegância, as organizadoras do livro, as historiadoras Jacqueline Prado e Marília Andrés Ribeiro, repõem a face de Guignard que às vezes é encoberta pela ênfase no anedótico, tão comum em biografias do artista. Aqui encontramos o Guignard intelectual: homem comprometido com a estética moderna, que não teme polemizar em defesa da renovação artística no contexto brasileiro. Lemos depoimentos do próprio pintor com argumentos incisivos contra o tradicionalismo nas artes, no ensino e na sociedade brasileira. Acrescente-se a delicadeza das historiadoras ao abordar, sem indiscrições, o drama humano do artista: a solidão, a vida familiar e social complicada, a pobreza e o alcoolismo.

Esse livro presta serviço inestimável como introdução qualificada à vida e à obra de Guignard. Algumas informações até estão em outros volumes, mas geralmente dispersas ou em publicações de grandes formatos, muitos deles esgotados – importantes, embora (literalmente) pesados, o que dificulta a leitura. É um mérito esse volume “de bolso”.

As autoras acertam ao romper com problemáticas visões piegas e redutoras, tão comuns em textos sobre o artista. É recorrente, por exemplo, apresentar esse homem de humor fino, às vezes sarcástico, inteligente e chique, como se fosse uma criatura infantil do mundo da fantasia, quase um irresponsável. Tais questões se tornam ainda mais problemáticas quando transferidas para a obra de Guignard. Complexa, sofisticada e elaborada no que se refere a aspectos estéticos e à visão de arte que carrega, ela é tomada como apologia ao “primitivo”, ao “ingênuo” e ao “intuitivo”. Dessa forma, temas maiores sobre o legado de Guignard, muitas vezes, ficam sem merecer análise mais detida, à altura do que ele realizou.

Deve-se ressaltar que há textos, artigos e monografias de qualidade sobre Guignard escritos por Ivone Luzia Vieira, Rodrigo Naves e Lélia Coelho Frota, entre outros, mas alguns deles, infelizmente, estão praticamente fora do alcance do leitor.

A coleção 'Circuito ateliê', ao jogar luz sobre as reflexões de Guignard, sinaliza uma carência: não há um volume que reúna criteriosamente um conjunto de documentos essenciais sobre a trajetória do artista, abarcando também suas atividades didáticas e sua vida. Esse material até existe, mas permanece disperso.

Guignard é um dos raros autores cuja obra articula o complexo arco de questões experimentadas por autores modernos e ligadas a matrizes da arte brasileira – do barroco à produção contemporânea. Aliás, chega a surpreender o quanto é forte a presença de Guignard no cenário cultural do país. Cinquenta e dois anos depois de sua morte, ele continua a influenciar artistas e pensadores.

Palavra de artista


Alberto da Veiga Guignard
pintor


O moderno


“Nasceu em Nova Friburgo, em 25 de fevereiro de 1896, feio como todo recém-nascido. Estudou em Munich, na Real Academia de Belas-Artes, onde aprendeu desenho e amou. De acadêmico passou a moderno, após ter visto uma exposição de arte moderna alemã: o modernismo o fascinou. Em 1930, veio para o Brasil, onde teve um choque com o ambiente artístico, bem atrasado em relação à Europa. Abriu seu ateliê no Jardim Botânico, entre a vegetação e milhares de mosquitos. Veio para Belo Horizonte, a chamado do então prefeito Juscelino Kubitschek, e daqui se enamorou desde o primeiro dia da paisagem. Fundou a Escolinha de Guignard, que tem vivido por milagre e amor de alunos e mestre, e aqui ensinou arte a diversas gerações de jovens. Adora ser cercado pela juventude, principalmente moças bonitas, e Ouro Preto é a sua cidade amor-inspiração.”

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