Bailarino Rui Moreira, ex-grupo Corpo, fala sobre a carreira na dança

Na infância, acreditava ser o único de sua família sem aptidão para a dança. O bailarino conta como se deixou levar e entendeu que "o acaso não é uma coisa gratuita"

por Carolina Braga 21/03/2015 00:13

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JAIR AMARAL/EM/D.A.PRESS
(foto: JAIR AMARAL/EM/D.A.PRESS)
Reprovado em seu primeiro teste de dança, ainda na adolescência, o bailarino Rui Moreira deixou a cidade de
São Paulo, onde nasceu, e veio tentar a sorte em Belo Horizonte. O reencontro casual com o pai, que deixou de ver aos 9 anos de idade, o acidente com o pé que abortou seu projeto de ingressar numa companhia internacional, a carreira no Grupo Corpo e a criação de sua Seraquê? são memórias que ele desfia numa conversa com o Estado de Minas.

Em casa de crioulo quem não dança é estranho. Por incrível que pareça, foi a inadequação a um ambiente musical e de molejo no corpo que fez com que o bailarino Rui Moreira começasse quase sem querer a trajetória na dança. Hoje, aos 51 anos, a cabeça criativa da Cia SeráQuê? ri dessa história.

Rui Moreira tinha entre 15 e 16 anos, era office-boy de uma empresa de reposição de máquinas de banco. Nas idas e vindas do ofício, se deparou com a placa: balé gratuito. “Pensei: ‘opa! É agora que resolvo o meu problema’”, lembra.

Era final da década de 1970. Na vitrola da casa na rua Brigadeiro Galvão, na Barra Funda, em São Paulo, Milton Nascimento se revezava com Jorge Ben, Miltinho, James Brown. “Era uma dança que contaminava a minha família. Só que eu era o cara duro. Era difícil”, conta.

Diante da placa, o jovem Rui não pensou duas vezes. O teste, dividido em duas partes, tinha uma aula de clássico, ao som de Debussy, e depois, George Benson. “Olhei aquilo, as pessoas e não consegui sair do lugar”, recorda. Mesmo assim, na manhã seguinte lá estava ele, para saber o resultado. “Tomei bomba, óbvio.”

A professora foi gentil. Surpreendida com a curiosidade do rapaz, ofereceu uma bolsa para o curso de teatro. “A dança entra na minha casa, mas a arte começa a se manifestar na minha cabeça como possibilidade e delícia nessa escola”, ressalta.

Dali, Rui Moreira foi aluno de Klaus Vianna na Escola Municipal de Bailados, passou pela Cia Cisne Negro Cia de Dança, teve contato com criadores como Luís Arrieta, Sônia Motta, Vitor Navarro e muitos outros.

ESTÉTICA  “Era o universo em que construí minha estética e minha visão sobre dança”, diz. Como foi tudo muito rápido, aos 19 anos embarcava ele para encarar mais um teste por indicação de uma amiga. Destino: Belo Horizonte. “Ela me falou Grupo Corpo e eu entendi Grupo Corvo e lá vim eu com Corvo na cabeça”, diverte-se.
Nas redondezas da Igreja de São José pegou o ônibus em direção à avenida Bandeirantes. “Eu era um moleque. Falei vou ali fazer um teste e depois comuniquei que estava me mudando para Belo Horizonte. Só depois fui entender que o acaso não é uma coisa gratuita”, afirma. Hoje se sente mineiro.

Nos primeiros meses por aqui, Rui Moreira teve certeza de que os motivos que o trouxeram iam além da capacidade de entendimento. Filho único de pais separados, foi criado pelo pai até os nove anos de idade. Depois disso, nunca mais se viram. “Aí vou comprar uma geladeira usada na Lagoinha. Ela não funciona. Minha mãe, que veio de São Paulo para me ajudar, vai lá para conversar sobre a geladeira, quem ela encontra? Meu pai, na loja da geladeira”, conta.

O reencontro foi forte. Ramiro Moreira dos Santos vivia em situação social delicada. Ele e Rui não se aproximaram. Quando voltou da primeira viagem longa com o Corpo, soube que o pai havia falecido no porão em que morava na Lagoinha. “É em situações como essas que falo ‘uau!’. Deixa eu entender melhor o que Deus está escrevendo.”

FAMÍLIA
Em Belo Horizonte, Rui Moreira constituiu carreira e família. É pai de Vitória, Bianca e Rui, do casamento com a bailarina e produtora Bete Arenque. É avô da pequena Sofia, de dois anos e meio, filha de Bianca.

Com o jeitão tranquilo de olhar para o mundo, o bailarino acredita que o processo coreográfico, qualquer que seja ele, é um espaço coletivo de criação. Quem se atém à fala calma não imagina o quanto é inquieto. Dedicação exclusiva a somente um projeto foi raridade na trajetória dele.

Em 1992, paralelamente à carreira no Grupo Corpo, funda em parceria com Gil Amâncio e Guda a Cia SeráQuê.? “O Gil me trás uma visão de que eu tinha me esquecido. Lá da Barra Funda, que é da negritude”. Performance com três burrinhos do Parque Municipal em cortejo pela Afonso Pena marcou o início do grupo, que o faz mergulhar na pesquisa sobre ancestralidade.

À medida que foi assumindo mais coisas, ampliando o escopo de criação artística, Rui Moreira se percebeu mais presente em tudo o que fazia. “Todos nós somos inquietos, mas cada um se doma por aquilo que escolheu fazer. O artista tem uma inquietação que é necessária. É um dos ingredientes para ele se manter assim, viver”. Com a SeráQuê?, criou pelo menos onze montagens. A mais recente é Definitivo é o fim, na qual divide a cena com a filha Bianca. A próxima estreia está marcada para maio. Será co Ês, o encerramento da trilogia de Ês Quiz e Q’ eu isse.

Paralelamente, assinou coreografias para grupos como Cisne Negro e Ballet da Cidade de São Paulo. “Para cada desafio que me aparece surge uma nova solução. Vou me pluralizando de tal maneira que está sendo muito lindo”. E tem sido assim desde que foi procurar o resultado do primeiro teste que fez mesmo sem se mover. “Insisto, não desisto.”

 

A escola do Corpo

 

Foram 14 anos de trajetória no Grupo Corpo e desse período a certeza: é uma empresa de arte pioneira e que consegue ser bem-sucedida. “Então para mim é uma das maiores escolas.” Rui Moreira teve dois períodos distintos como bailarino do grupo do coreógrafo Rodrigo Pederneiras.

A primeira passagem foi entre 1983 e 1986. Saiu para viver uma experiência no teatro sob o comando do diretor José Possi Neto e depois para se aprimorar em dança na Europa. “Fui para a Alemanha estudar. Pensava-se que um bom lugar para conhecer dança é na Europa. Não se saberia dançar se você não fosse para lá”, conta.

Conheceu o trabalho de William Forsythe em Frankfurt e foi convidado para uma audição na companhia de Yuri Killian, na Holanda. “Aí eu torço o pé cinco dias antes. E falo: o que é isso? Vim aqui com uma ideia de me reciclar e entender aquilo que vejo a distância. Minha cabeça deu uma volta”, lembra. Rui voltou ao Brasil. Era o início da década de 1990. Quando chegou, foi surpreendido pelo confisco da poupança.

Mesmo sem dinheiro e com o pé machucado, trabalhou por um breve período no Primeiro Ato e logo voltou para o Grupo Corpo. Na companhia, participou de montagens como 21, Sete ou oito peças para um Ballet, Bach, Parabelo e Benguelê. Em 2000, aos 38 anos, desliga-se da companhia e concentra a criação nos projetos culturais e sociais mantidos pela Associação SeráQuê.?

 

 

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