Exposição em Ouro Preto reúne registros da vida cotidiana na cidade no século 19

Mostra em cartaz no Museu da Inconfidência desvenda a rotina dos fotógrafos da época

por Walter Sebastião 19/03/2015 08:00

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ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO/REPRODUÇÃO
(foto: ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO/REPRODUÇÃO)
No Brasil do século 19, os fotógrafos eram ambulantes que viajavam pelas cidades levando em lombos de burro e veículos puxados a cavalo todo o material necessário para sua atividade. Transportavam não só câmeras, mas também produtos químicos indispensáveis para fazer os negativos (então vidros emulsionados na hora de se fazer a foto), revelar e copiar as imagens.


Eram franceses, alemães, italianos, dinamarqueses, portugueses e, com o tempo, brasileiros que aprenderam o ofício com estrangeiros ou lendo manuais sobre o assunto. Eles viajavam pelo país, estabeleciam-se nas localidades maiores e buscavam trabalho nos arredores. Alguns publicavam anúncios, em que informavam aos moradores de uma cidade a data de sua chegada e da partida.

O primeiro anúncio de um ateliê de fotografia em Minas Gerais foi publicado em 1845 na revista Recreador mineiro, da antiga Vila Rica. “Ouro Preto, por ser a capital da província e, a partir de 1889, do estado de Minas Gerais, tinha uma elite política, intelectual, de funcionários da administração pública, que podia pagar os fotógrafos. Isso permite que eles estabeleçam ateliês na cidade”, explica o historiador Rogério Arruda, autor do livro O ofício da fotografia no século 19.

A fotografia, segundo diz Arruda, embora fosse menos dispendiosa do que a pintura, também era cara. Para garantir seu sustento, o fotógrafo precisava se dedicar também a outras atividades. José Faustino de Magalhães, por exemplo, era fotógrafo, dentista e ourives.

Os primórdios da fotografia no Brasil mostrados por meio de imagens feitas em Minas Gerais estão na exposição A fotografia em Ouro Preto no século 19, que tem curadoria de Arruda e do também historiador Rodrigo Vivas. A mostra será aberta amanhã, às 20h30, na Sala Manoel da Costa Athaíde, anexo do Museu da Inconfidência.

Estão reunidas na exposição 20 fotografias (retratos e vistas urbanas ou rurais) realizadas entre 1845 e 1900, produtos de pesquisa de Rogério Arruda e de Margarete Monteiro. “Não são fotos clássicas. Mostramos a atividade fotográfica como produtora de imagens e que imagens são essas”, avisa. A mostra é um recorte de um projeto mais amplo sobre as perambulações dos fotógrafos por Minas Gerais no século 19 chamadoItinerâncias.

Ouro Preto, segundo afirma Arruda, tem papel importante na difusão da fotografia em território mineiro. Os fotógrafos, depois de instalados na cidade, começam a viajar por Minas Gerais, criando um acervo de registros ricos em informação sobre a vida social, política, econômica, cultural e familiar.

Pelos anúncios em jornal pode-se acompanhar as perambulações de Francisco Manoel da Veiga por Ouro Preto e Diamantina, cidades que, ao lado de Juiz de Fora, têm registros fotográficos ainda no século 19. “O fotógrafo torna-se o elo entre os grandes centros e as pequenas cidades do Brasil. Viajando, leva as ideias da modernidade para o interior de Minas Gerais”, acrescenta o historiador.

O interesse que a fotografia despertou fez com que houvesse uma intensa movimentação de fotógrafos por Minas Gerais, observa o historiador. “As imagens existentes são uma pequena parte do que foi realizado, pois muita coisa se perdeu”, acrescenta, lembrando que a guarda correta do material é recente. “Precisamos trabalhar para que os museus tenham condições de receber essas coleções e cuidar delas de forma adequada.”

Arruda, cujo livro venceu o prêmio Marc Ferrez em 2012, afirma que “ainda há muito a conhecer sobre a fotografia no século 19 em Minas Gerais”, mesmo que a situação da pesquisa e dos estudos sobre os primórdios da fotografia no Brasil tenha avançado nas últimas duas décadas.

“Temos curadores, historiadores, bibliotecários e instituições que sabem trabalhar com material fotográfico. O que falta é mais incentivo à catalogação, à pesquisa, além de criar melhor infraestrutura nas instituições para receber o material, assim como incrementar sua divulgação”, defende. Tudo isso é necessário, na opinião do curador, para “dar à fotografia antiga a importância que ela tem. Se não valorizarmos, não há como preservar”. Ele observa que “as imagens trazem a memória das cidades, da família, do Brasil. Nossa identidade e sentido de pertencimento vêm muito desses vínculos”.

Comparando o uso contemporâneo com o antigo da fotografia, Arruda se incomoda com o que percebe como uma banalização da foto e seu uso muito centrado no indivíduo. Ele identifica, junto com essa tendência, o ocaso do álbum de família. “Apesar disso, considero positiva a democratização do acesso à fotografia”, argumenta, lembrando que, no século 19, até pelo fato de o Brasil ter sito até 1880 uma sociedade escravocrata, a fotografia foi praticada por poucos.

A fotografia  em Ouro Preto no século 19

Curadoria de Rogério Arruda e Rodrigo Vivas. Abertura nesta sexta-feira, às 20h30. Sala Manoel da Costa Athaide, Anexo I do Museu da Inconfidência (Rua Vereador Antônio Pereira, 33, Centro Histórico de Ouro Preto). Informações: (31) 3551-1121 ou 5233. De terça a domingo, das 10h às 18h. Até 3/5. Entrada franca.

DOM PEDRO

A primeira fotografia reconhecida remonta ao ano de 1826 e é atribuída ao francês Joseph Nicéphore Niépce. Não se atribui o invento a apenas um autor, mas a um processo de acúmulo de avanços por parte de muitas pessoas, trabalhando, juntas ou em paralelo, ao longo de muitos anos. Entre elas, o franco-brasileiro Antoine Hercule Romuald Florence (1804-1833). O primeiro registro da prática da fotografia no Brasil é de 1840 e alude à chegada ao Rio de Janeiro de Louis Compte, capelão de um navio, que faz demonstrações da daguerreotipia, processo que registrava imagens sobre placas de cobre ou outros metais. Mostrou a novidade inclusive para dom Pedro II, então um garoto de 15 anos, que se tornou fã do assunto e fotógrafo.

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