Segunda edição do Mostra Internacional de Teatro de São Paulo propões reflexão ao público

Evento ensaia uma resposta à crise de identidade que ameaça reduzir a relevância dos eventos dedicados à produção teatral

por Carolina Braga 17/03/2015 08:52

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LIGIA JARDIM/DIVULGAÇÃO
Encenação de Senhorita Julia une vídeo e atuação no palco (foto: LIGIA JARDIM/DIVULGAÇÃO)
Um festival de teatro não pode ser apenas uma coletânea de espetáculos. Essa é a avaliação dos organizadores da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo) – o diretor Antonio Araújo (Teatro da Vertigem) e o produtor Guilherme Marques.


Mas qual é o papel de um festival de teatro nos dias de hoje? A resposta a essa indagação é o que a segunda edição da MITsp, encerrada no domingo, tentou oferecer. A combinação entre exposição de obras e a reflexão conjunta a respeito delas (entre realizadores, estudiosos do teatro e o público) é o caminho apontadopela mostra.

“Um festival, assim como um congresso, pode funcionar como acelerador de partículas. Ele nos faz pensar mais rapidamente, expandir nossos limites. Oferece um resumo de certas práticas do momento, fazendo-as dialogar. É isso que expande o limite do nosso conhecido”, afirma a teórica francesa Josette Fèrral, professora da Sourbone Paris 3, autora de 'Além dos limites: teoria e prática do teatro'.

Para o professor e escritor espanhol José A. Sánchez, assim como Fèrral convidado da MITsp, esse modelo “tem a função de criar um espaço de ressonância, o que faz com que tenhamos uma atitude diante do que vemos. Teatro aqui não é somente entretenimento, mas arte e pensamento”.

Em 10 dias de programação, o festival paulistano exibiu montagens da Alemanha, Colômbia, Holanda, Israel, Itália, Rússia, Suíça e Ucrânia, além do Brasil. Mas as sessões eram apenas o ponto de partida. Ações voltadas para a reflexão crítica e os chamados encontros formativos (para trocas de experiências entre os artistas e estudantes) completam o cardápio oferecido pela MITsp.

O ponto negativo é de certa forma inevitável: não há espaço para todo mundo que deseja participar dessa dinâmica e isso tende a piorar. A MITsp – que faz lembrar a potência que o Fit-BH teve um dia em reunir montagens que renovam nossos olhares para o teatro – tem vocação para se transformar em ponto de encontro de quem deseja ser provocado por modos diferentes de realização em artes cênicas. O desafio é realizar isso sem transformá-la em algo hermético e voltado somente para a classe.

Antônio Araújo diz que “o mais importante é abrir espaço para o teatro em si, em conexão e relação com o texto, a sociedade e, assim, criar essa zona de reflexão”.

Para esta segunda edição foram escolhidas obras que tensionaram os limites do próprio teatro, propondo interseções com as artes plásticas e, principalmente, com o cinema. 'Senhorita Júlia', com direção da dupla Katie Mitchell e Leo Warner para a Cia alemã Shaubuhne am Lehniner Platz, deixa provocações tanto para a plateia aficcionada pela sétima arte quando pelo teatro. Ao associar vídeo e cena na montagem do texto clássico de Strindberg, o grupo impressiona pela capacidade de manejar com precisão e intensidade as duas linguagens.

É um espetáculo introspectivo,  já que convida a acompanhar a história sobre o caso da filha do patrão com o servo pelo olhar da empregada. O tempo de interpretação e a intensidade dos atores estão em perfeita harmonia com aspectos técnicos, como fotografia, sonoplastia e trilha sonora.

Também foram apresentadas narrativas que confrontam o público com os conflitos políticos do mundo atual e o modo como a sociedade lida com eles. O bailarino Arkadi Zaides espelhou no palco sua visão sobre a realidade de seu país, Israel. Há 15 anos ele mora em Tel Aviv. 'Arquivo' foi o único representante da dança na MITsp. Nele, Arkadi reproduz cenas gravadas por voluntários palestinos em uma zona de conflito.

À medida que mostra as imagens arquivadas para a plateia, Zaides traduz a tensão da cena documentada no corpo. É um espetáculo muito simples, que tem na estreita relação entre arte e realidade um dos inúmeros pontos para reflexão.

A companhia russa Laboratório Dmitry Krymov, do teatro da Escola de Arte Dramática de Moscou, também tem política como cerne em 'Opus7'. Dividido em dois atos, o espetáculo mistura artes plásticas, cinema e música para revisitar o legado da perseguição aos judeus e a opressão do regime de Stálin. É daquelas montagens capazes de ficar guardadas na memória para sempre.

Em meio às propostas de expansão de linguagens, o trabalho do grupo colombiano La Maldita Vanidad parece até tímido. A companhia esteve no FIT 2012 com dois espetáculos hipernaturalistas na Casa Bernardi, um apresentado dentro da cozinha e o outro na sala. 'Matando el tiempo', atração da MITsp, reproduz um jantar de família. A ênfase naturalista continua, mas, dentro do conjunto – e mesmo do recorte – feito pelo festival, o resultado acabou como mais um melodrama temperado com histeria latina. Os diferenciais do La Maldita Vanidad não apareceram.

A repórter viajou a convite da MITsp

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