Maestro argentino Carlos Buono fala da 'loucura' de Piazzolla e comenta política de seu país

Buono apresenta neste domingo em Belo Horizonte o espetáculo 'Uma noite em Buenos Aires'

por Silvana Arantes 15/03/2015 10:00

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Christianne Poladian/Divulgação
(foto: Christianne Poladian/Divulgação )
Levado pelo tango, o maestro argentino Carlos Buono já foi a lugares tão distantes e inusitados como o Turcomenistão (a 15,1 mil quilômetros de Buenos Aires). Em alguns deles, voltou diversas vezes. É o caso de Belo Horizonte, onde ele apresenta hoje o show 'Uma noite em Buenos Aire's. Buono contabiliza “umas 15 visitas” à cidade. Na bagagem de lembranças da capital mineira, guarda a do músico de seu grupo que se apaixonou por uma mineira e decidiu ficar por aqui e a de um público respeitoso, acolhedor, “fantástico”.


Quando um jornal de seu país se referiu ao maestro como “embaixador argentino sem salário”, Buono sentiu uma pontada de amargura. Incomodava-o o fato de não ter tido do governo argentino apoio para a tarefa de divulgar o tango mundo afora. Hoje, Buono sente alívio por estar descolado de iniciativas oficiais. “Nunca, nunca tive uma ajuda. Agora levo isso com satisfação. Se devo algo, é ao meu país, não a nenhum poder político.”


Nascido em 1942, ele diz: “Sou de Junín. Evita nasceu muito perto e viveu ali”. A ex-primeira-dama argentina que ele cita é notória por ter tido uma legião de seguidores e outra de detratores – ambas inflamadas.”Fazia muito, muito tempo que eu não via essa divisão na população. Não é uma questão de filiação partidária. Na Argentina, voltamos a ter o mau hábito de discutir política à mesa.“Nunca vi um clima de rivalidade tão grande. As pessoas divididas umas contra as outras”, afirma o maestro.
Buono se refere à crise enfrentada pelo governo Cristina Kirchner, talvez a maior nos 12 anos de kirchnerismo no poder – há suspeitas de envolvimento da Casa Rosada na morte do procurador Alberto Nisman, que estava prestes a denunciar a presidente por acobertar suposta ligação do Irã com o atentatado terrorista à sede de uma associação judaica que matou 85 pessoas em 1994, em Buenos Aires.


Como a crise que sacode esse início de segundo mandato da presidente Dilma Rousseff também ganhou a atenção internacional, a exemplo do que ocorre com Cristina, Buono diz que não há encontro seu com jornalistas estrangeiros em que não surja a pergunta: “Mas o que é que está acontecendo na América do Sul?”.


Segundo o maestro, a imprensa internacional “sabe que há uma situação de violência e degradação. Nessas situações, o tecido social se rompe. Há uma rivalidade na Argentina – os de um lado e os de outro. Isso é muito doloroso para nós.”
Como prefere não arriscar um prognóstico para o cenário político, Buono faz a conversa girar de volta para o tema do tango e, em especial, sua admiração por Astor Piazzolla (1921-1992). É Piazzolla, na opinião do maestro, quem introduz a modernidade no tango. As experiências bem mais recentes de fusão do tango com elementos da música eletrônica, como fazem Bajofondo e Gotan Project, por exemplo, não passam de maneirismos, na avaliação do maestro.


“Pensar que o tango é moderno agora porque se toca eletrônico é um erro. O tango começou sua etapa moderna, com outro tipo de escrita, com Piazzolla. Isso é inquestionável”, afirma.


Fã confesso da “fase da loucura de Astor”, Buono convenceu o músico holandês André Rieu a incluir no repertório que realizaram juntos Libertango, quando Rieu queria algo mais ao estilo clássico europeu. O holandês e Buono se conheceram numa das vezes em que o primeiro se apresentou em Buenos Aires. Depois de ouvir o argentino tocar bandoneon, Rieu o convidou para uma turnê. Foram 98 apresentações em seis meses nos cinco continentes. “Uma loucura”, diz Buono. “Mas estou feliz. Me faz bem.”


O show que será apresentado na noite de hoje em Belo Horizonte reúne 10 músicos no palco. Com essa formação, Buono tem a “chance de executar os temas mais famosos de Piazzolla”. E qual é o tango de Piazzolla preferido pelo maestro? “Mais do que um tango, fico com uma obra: Tristezas de un doble A.” A escolha presta tributo ao período mais ousado de Piazzolla. “Porque o artista tem que ter essa dose de inconsciência que o faz romper a barreira e voar.”



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