Performance está ao alcance do cidadão comum em exposição de Marina Abramovic

Cultuada pelas vanguardas, artista apresenta mostra em São Paulo

por Helvécio Carlos 15/03/2015 10:00

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Denise Andrade/divulgação
A artista plástica sérvia 'Marina Abramovic passeia no Sesc Pompeia, encantada com as ideias de Lina Bardu (foto: Denise Andrade/divulgação)
Você pode saber pouco sobre ela, cujo nome até parece familiar. Pode-se curtir – ou não – o trabalho que fez desta mulher uma das criadoras mais respeitadas no mundo – suas performances representam um marco da arte contemporânea. Mas prepare-se: é impossível ficar indiferente a Terra comunal – Marina Abramovic + MAI, mostra em cartaz até 10 de maio no Sesc Pompeia, em São Paulo. Bem-vindo ao laboratório de Marina.


Estão lá vídeos, a coleção Objetos transitórios para uso humano, performances em parceria com artistas brasileiros e a cereja do bolo: o Método Abramovic. “Nos próximos meses, estarei em um grande laboratório com muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo”, anuncia Marina, de 68 anos. Os olhos dela brilham diante do Sesc Pompeia. “Lugar fantástico desenvolvido por Lina Bo Bardi”, comenta, referindo-se à arquiteta italiana, autora desse projeto e do famoso prédio do Museu de Arte de São Paulo (Masp). “Isso aqui funciona muito bem. Não só por ser espaço cultural, mas por atrair pessoas. Elas vêm ler um livro ou um jornal, fazer a sua refeição. Quero alcançar essas pessoas. O mercado está tomando conta da arte. Sou contra isso”, garante.


Já são 45 anos de carreira. Ao apresentar suas inovadoras performances no início da década de 1970, ela se sentia “a primeira mulher andando na Lua”. Muita coisa mudou – e para melhor. Hoje aclamada, Marina não esconde as dificuldades que enfrentou.


“Por 30 anos, ninguém considerava performance uma forma de arte. Atualmente, ela ganhou status, está dentro do museu e fiz parte disso. As pessoas deixaram de me perguntar se é arte ou não”, conta.
Viver tanto tempo à margem, mas sem perder a autoconfiança, representou um desafio. “Meus pais, nas reuniões do Partido Comunista, perguntavam o que estava acontecendo comigo”, relembra.

NOVA YORK Há cinco anos, Marina virou celebridade. A culpa foi da performance The artist is present, apresentada por ela no Museu de Arte de Nova York, o MoMa. Sentada numa cadeira, a artista sérvia encarava fixamente o interlocutor, que poderia ficar o tempo que quisesse do outro lado da mesa. “Quando propus o projeto, o curador não acreditou que daria certo. Se ninguém se sentasse, eu ficaria lá”, conta.


Longas filas se formaram no MoMa. Todos queriam ver Marina. Até os seguranças do museu toparam o desafio no dia de folga. Por 736 horas, ela encarou 1.675 pessoas. “Isso nunca ocorreu com outro artista. Estava ali o verdadeiro poder da arte da performance. Foi ali que chegou o momento de celebridade, mas não me sinto assim. Estou aberta às pessoas, a ter contato com elas”, explica.


Encerrada a temporada nova-iorquina, Marina tomou a decisão de criar um instituto para compartilhar suas experiências com o mundo. “Durante três meses, não falei com ninguém, não vi nada que não estivesse ocorrendo naquele espaço. Quando deixei o museu, já era uma celebridade. Não era minha culpa, foi circunstancial”, diz.


Impressionada, a cantora Lady Gaga a procurou e as duas se encontraram. “Fui muito criticada por isso, mas ela foi sincera em querer falar comigo”, garante Marina. A artista plástica trabalhou o Método Abramovic com a diva pop. “Ela, sim, é uma celebridade, tem 56 milhões de seguidores no Facebook. O público de Lady Gaga foi bom para mim, pois aquelas pessoas passaram a seguir o Instituto Marina Abramovic”, conclui.

Cadê o meu celular?

O que é Método Abramovic? Nas palavras de sua autora, uma forma de nos ajudar a recuperar a vida que desperdiçamos. “A tecnologia está tomando o nosso tempo. Usamos muito os computadores, os celulares, enviamos muitas mensagens de texto. Quero dar um pouco de tempo a você”, resumiu Marina Abramovic.


Se é assim, então vamos enfrentar o tal método. Antes de entrar no espaço reservado para a técnica, o maior desafio é deixar o celular trancado no armário. Relógios e outros acessórios não são permitidos. A ordem é desconectar. O grupo de jornalistas é encaminhado à antessala com três telas de TV. A sensação é a mesma de entrar na fila de um dos brinquedos da Disney e ouvir uma história enquanto a vez não chega.


O público segue os exercícios propostos por Marina no telão, antes de encarar o que está por vir. Os primeiros movimentos são fáceis, nada constrangedores. Socos no peito, alongamento dos braços, dedo no nariz para abrir as narinas. Haja esforço para não gargalhar com o último movimento, que resulta na coreografia desengonçada dos colegas. Você se lembra daquele Renato Russo meio apoplético nos shows da Legião Urbana.


Vixe... O que os colegas vão escrever sobre a minha performance no aquecimento do método? Ok, melhor seguir em frente.
Divididos em quatro grupos, recebemos abafadores de ouvidos para, finalmente, encarar as quatro estações. Na primeira, ficamos de pé em frente ao tronco com cristais. “E agora?”, pergunto, com o pensamento no armário e no celular abandonado. Foco, rapaz!


Até que uma das moças de macacão cinza, fazendo sinais, pede para fecharmos os olhos. Sem a referência da sala, o corpo parece cair. Não é uma sensação boa nem ruim. Será que Marina copiou isso da yoga? Mais tarde, na entrevista coletiva, ela explica: a diferença entre meditação, yoga e o Método Abramovic é o contexto. “Não estou aqui como professora de yoga, mas como artista”, responde.


Voltando à sala: estamos sentados diante do colega (ou da parede) com os olhos fechados. Só senti uma única exigência do meu corpo: postura correta. O corpo pesa, perde o equilíbrio. Mas curti, até por que sou bem desleixado com a postura. Tudo é tranquilo e sem estresse, a atenção se volta para o eixo corporal. Ponto para o método.
Deitado, pouca coisa mudou. Pode ser a minha pouca prática em técnicas de meditação. Com elas, quem sabe o aproveitamento do método é melhor?


Aliás, cadê o meu celular?
Legal, mesmo, é caminhar em câmara lenta por 15 minutos – quase uma coreografia de dança contemporânea. Ponto para Marina Abramovic. Ela consegue encurtar o caminho entre o público e a obra de arte.

 

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