Mineira Sônia Gomes é a única artista representante do país na Bienal de Veneza

Artista afirma que seu trabalho é como o Brasil, 'tem um lado popular e outro erudito'

por Walter Sebastião 11/03/2015 07:30

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RAMON LISBOA/ EM/ D. A. PRESS
(foto: RAMON LISBOA/ EM/ D. A. PRESS)
Leva o nome de 'All the world’s futures' (Todos os futuros do mundo), com curadoria do nigeriano Okwui Enwezor, a mostra principal da 56ª Bienal de Veneza, que será realizada entre 5/5 e 22/11. A única brasileira a participar da exposição é uma senhora elegante, ousada, dona de obra singular: Sônia Gomes.


A artista nasceu em Caetanópolis (MG), vive e trabalha em Belo Horizonte desde 1980, é criadora respeitada, mas com presença rarefeita no circuito de galerias tanto local quanto nacional. Sônia sintetiza sua própria história numa frase: “Chutei o balde, abandonei tudo para me dedicar exclusivamente à arte”. Para ela, a arte é uma atividade egoísta, avessa a conviver com outras atividades.”Como arte cobra dedicação, complica tudo, às vezes até o casamento”, observa.

Unindo tecidos diferentes (já houve época em que se valeu de roupas usadas) com nós, torções, costuras, Sônia Gomes cria objetos, esculturas e instalações. Lança mão de texturas, cores e formas, para criar peças que têm poder de evocar referências amplas. Tanto podem se referir a culturas regionais quanto universais. Podem chamar à discussão sobre a história da arte ou dar vazão a considerações sobre o papel do inconsciente nas elaborações humanas.

É uma arte que pode ser fruida por seus aspectos lúdicos, delicados e estéticos e também como meditação dramática, brutal, sobre força e fragilidade. São abstrações, mas aceitam olhares que buscam figurações. “Meu trabalho é como o Brasil: tem um lado popular e outro erudito. Transitamos muito bem entre esses dois aspectos”, observa.

FOTOS XARA/DIVULGAÇÃO - Marcos Vieira / EM / D.A Press
(foto: FOTOS XARA/DIVULGAÇÃO - Marcos Vieira / EM / D.A Press)
A origem do trabalho de Sônia, como explica, está no hábito adolescente de usar panos para criar roupas, adornos, bolsas. “Sempre fui performática.” Com sorriso irônico, a artista indica que seus trajes chamavam a atenção pelo contraste com as roupas habituais. “Algumas pessoas foram se interessando pelo que eu fazia. Comecei a vender adornos, bolsas”, recorda. “Mas chegou um momento em que fui radicalizando. As peças viraram outra coisa, e ninguém queria comprar o que eu fazia. Talvez por ver nas peças a questão afro, que eu nunca sufoquei. Mas eu já estava interessa em agradar a mim e não aos outros”, afirma.

E foi assim que adornos que as lojas consideravam mal-acabados ganharam outro sentido quando ela ouviu da galerista Flávia Albuquerque que o que ela fazia era arte, e não artesanato. A artista plástica Mônica Sartori, com quem Sônia fez curso livre, endossou o comentário, diante de uma peça de retalhos que havia sido recusada em feira de patchwork.

“Fui, aos poucos, descobrindo que o que eu fazia não eram bolsas e adornos, mas esculturas”, conta. Essa consciência ganhou força quando Sônia fez a disciplina arte contemporânea na Escola Guignard, da UEMG, e teve a “felicidade” de ser orientada por José Maria Caldas Gouveia. Ela considera “decisivas” as aulas de criatividade que teve com a professora e artista plástica Sara Ávila.

“Ela colocava o material diante de nós e pedia que o explorássemos ao máximo. Mostrava que o material é o disponível, que cada um tinha seu modo de criar e que a criatividade vem de dentro. Meu trabalho é assim, vem de dentro”, afirma. Ao concluir as aulas com Sara Ávila, a artista viu todos os colegas se decidirem por vestibular em artes. Alérgica a diversos materiais, pergunta, então, à professora se poderia prescindir do curso de artes visuais. “Ela primeiro me perguntou: você tem curso superior?. Respondi que sim, sou formada em direito. Então, disse Sara, não precisa se preocupar com curso de arte, você é artista”. O galerista Márcio Penna também deu um importante apoio ao abrir espaço para o que ela fazia e recomendar que Sônia não banalizasse sua arte.


A paixão de Sônia Gomes pelos tecidos é antiga. O material esteve nas brincadeiras com retalhos, na infância, no hábito de “vestir os objetos”. Foi experimentado com intensidade, na adolescência, nas roupas que ela fazia para usar e em seu encanto por brechós e trajes usados. “Roupa nova para mim tinha de ter aspecto de envelhecida. Gostava e ainda gosto de tecidos que já vêm com uma história, um tempo.” A artista não esconde o prazer que tem ao visitar lojas de tecidos: “Adoro ver aquele caos formado pelos tecidos soltos nas bancas e ir descobrindo cada um deles”. Em trabalhos recentes, tem somado panos a outros materiais.

CONVITE PARA A BIENAL  O convite para participal da Bienal de Veneza veio após o curador-geral do evento, Okwui Enwezor, enviar e-mail pedindo que Sônia falasse de trabalho apresentado na mostra Made by...Feita por brasileiros, em 2014, na capital paulista. Em seguida, silêncio. “Como não mandaram dizer nada, cheguei a pensar que o sonho de ir a Veneza era algo muito distante para mim”, conta a artista. No final de 2014 veio a confirmação do convite e o pedido para que apresente trabalhos inéditos.

“Quando confirmaram o convite, pensei: eu na Bienal de Veneza?. Parecia um sonho. Mas, depois, me lembrei também de que trabalho muito, há muito tempo. Vou todo dia ao ateliê. Então, em algum momento teria retorno pelo que faço. Fazer arte, para mim, é necessidade financeira. Vivo do que faço. Sinto que é a minha arte que segura minha vida emocional. Se não fosse o trabalho de arte, não teria motivo para estar viva.”

Como já tinha uma viagem marcada para a África do Sul, só a partir de janeiro ela pode se dedicar integralmente à realização das obras que vai mostrar. A primeira ideia, a partir das fotos que recebeu do local onde vai serão colocadas as obras, foi cobrir as colunas do prédio com tecidos. O curador sugeriu algumas peças de chão. Está pronto um conjunto de trabalhos, com peças apoiadas na parede, penduradas no teto e de chão, que são, para a artista, criaturas, colunas, trouxas.

A presença de artistas mineiros na mostra principal da Bienal de Veneza, a convite de curadores internacionais, tem sido recorrente há três edições. Estiveram na exposição Paulo Nazareth e Rivane Neueschenwander. Além da mostra principal, a Bienal de Veneza, abre espaço para representação dos países. A delegação oficial do Brasil é formada por Antônio Manuel, Berna Reale e André Komatsu, artistas escolhidos pelos curadores Luiz Camilo Osório e Cauê Alves.

 

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