Ignácio de Loyola Brandão conversa com os leitores na Academia Mineira de Letras

Nesta quarta-feira à noite, escritor vem a BH para lançar o livro 'Os olhos cegos dos cavalos loucos'

por Jefferson da Fonseca Coutinho 11/03/2015 08:00

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Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Hoje é dia de ver, ler e ouvir um encantador de memórias. Ignácio de Loyola Brandão é o convidado de logo mais, às 19h, na Academia Mineira de Letras. No reencontro com BH, o jornalista e escritor lança 'Os olhos cegos dos cavalos loucos' – que ficou pronto no ano passado, depois de 60 anos de cuidados. O livro narra o pedido de perdão de um garoto por suas traquinagens ao falecido avô, construtor de um brinquedo. “Aquele carrossel foi o projeto de uma vida. E enquanto funcionou foi um paraíso. E eu fui o culpado de desaparecer com as únicas lembranças que meu avô tinha daquele tempo encantado”, desabafa Ignácio. Aos 78 anos, o biógrafo e romancista publicou mais de 40 livros. De lucidez perturbadora, o autor de Zero, Dentes ao sol e Veia bailarina vai conversar com os leitores sobre as inspirações da vida. Nesta entrevista por e-mail, o paulista andante de muitas paisagens revelou a fórmula para

domar tormentas.

Memórias reais ou memórias inventadas? Quais são as mais desafiadoras e por quê?
Para todo autor, as “memórias” inventadas são as mais fáceis, porque são pura ficção. Você trabalha sem a camisa de força da realidade. 'Cem anos de solidão' é memória inventada, assim como o meu 'Não verás país nenhum' tambem o é (pareço o Jânio escrevendo). Aliás, esse romance, que já vendeu 1 milhão de exemplares entre seu lançamento em 1982 e hoje, é memória do futuro. Fala da crise da água (o Brasil não tem mais água, árvores, o Amazonas é deserto, o sol mata, os congestionamentos são gigantescos, a violência domina), do aquecimento da terra, etc. Vou falar também dele na Academia, em BH. Memórias inventadas são os livros de José J. Veiga, o genial goiano, que nasceu há exatamente 100 anos e ninguém ainda comemorou. 'A hora dos ruminantes' e 'Sombra de reis barbudos' são clássicos. A memória real trabalha com fatos que aconteceram, fizeram parte de nossa vida, doeram ou nos deixaram felizes. No caso de 'Os olhos cegos dos cavalos loucos' tive que pensar que ainda há muitos parentes meus que viveram a experiência, meus primos, irmãos, netos de vovô José. Alem disso, a memória tambem é crítica e a gente a manipula. Durante anos, perguntei, perguntei, e fui a Matão, cidade vizinha a Araraquara (aqui nasci), onde o meu avô morou e construiu o carrossel. E consegui dados efetivos na história da cidade.

É possível sublimar as nossas sombras por meio da escrita?
As culpas, os remorsos, as sombras que trazemos da infância são as piores, penso eu. Porque sabíamos que estávamos fazendo alguma arte, mas aquilo não era malfeito, como os adultos ou a igreja nos diziam. Os adultos é que infernizam o mundo infantil criando culpas, responsabilidades, compromissos, etc. Aliás, acabo de ler em um conto de José J. Veiga. O pensamento de um garoto que é maravilhoso. Ele não quer “crescer depressa para ser como os adultos, completamente incapazes de ir sozinhos daqui ali”. Para mim, a escrita tem sido, ao longo do tempo, a única forma de exorcizar meus conflitos, erros, loucuras, malfeitos. A escrita é pura catarse. Aliás, a leitura também. Em algum momento da vida sentimos a necessidade de ser como Raskolnikov, de 'Crime e castigo'. Ou o personagem vivido por Montgomery Clift no filme 'Um lugar ao sol', adaptação do romance 'Uma tragédia americana', de Theodore Dreiser. Quem escreve não precisa de terapia

Como foi lidar com os 'Os olhos cegos dos cavalos loucos' por 60 anos?
Tormento puro. Porque, mesmo sabendo instintivamente que meu avô tinha me perdoado, mesmo sem o dizer, o fato de ele não ter dito me sufocava. Mas era o jeito dele, a maneira de ser. Os adultos eram severos, fechados, sem diálogos com filhos e netos. Imagine se meu avô ouvisse as conversas que tenho hoje com meus netos? Ficaria louco. Tudo era severo, rígido. Por anos e anos, à medida que fui aprendendo o ofício, fui tentando escrever a história do carrossel que me encantava. Imagine o talento de um homem que, com ferramentas toscas, manuais, sem maquinário adequado, olha para uma foto ou desenho e decide construir um carrossel no início do século passado, numa vila do interior do Brasil. Sonho, alucinação. Aquele carrossel foi o projeto de uma vida. E enquanto funcionou foi um paraíso. E eu fui o culpado de desaparecer com as únicas lembranças que meu avô tinha daquele tempo encantado. Ele quase morreu de desgosto, ou melancolia, ou depressão (a palavra não existia ainda). E eu era o culpado. Por anos, tentei colocar a memória no papel, mas me recusava assumir a culpa, era inocente, foi tudo uma brincadeira de criança. As primeiras versões, arranquei a fórceps e elas eram ruins, toscas, como os primeiros cavalos que meu avô esculpiu na madeira que ele mesmo buscava no bosque. Por anos e anos, pensei e anotei, anotei e pensei. Formatava na cabeça. Uma noite, ao lado de Marina Colasanti, em Guarapuava, interior do Paraná, ao terminarmos uma gostosa sessão de conversa, o público pediu que cada um contasse uma história. Marina é aquela maravilha. Ela falava e eu pensava: o que contar, o que contar? Chegou a minha vez, comecei e a história dos cavalos loucos desfiou inteira como um carretel. Quando vi gente com lágrimas nos olhos, decidi: está pronta.

Qual é a obra que mais o perturbou antes de ser publicada?
'Os olhos cegos…' me perturbou muito. Mas 'Zero', o relato da ditadura, da violência dos anos 1960 e 1970, que levou nove anos para ser escrito e hoje corre mundo, também foi dificílimo, complicado. Digo ainda que 'Dentes ao sol', um de meus livros favoritos, história real de um amigo de juventude, que enlouqueceu por não ter coragem de enfrentar o sonho, me machuca até hoje quando o releio. Dos poucos livros meus que releio. Quis escrever um novo 'Encontro marcado', retrato de uma geração, me desviei, fiz a história de um homem que sonhou e fugiu.

 

O AUTOR NA ACADEMIA
Com Ignácio de Loyola Brandão. Lançamento de 'Os olhos cegos os cavalos louco'. Nesta quarta-feira, às 19h. Academia Mineira de Letras, Rua da Bahia, 1.466, Centro, (31) 3222-5764.

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