Exposição em Contagem ressalta o lado inventor de Leonardo da Vinci

Mostra exibe reproduções de peças de robótica, hidráulica e arquitetura, entre outras áreas, projetadas por ele. Faltam, no entanto, réplicas dos desenhos

por Walter Sebastião 10/03/2015 07:30

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MARCOS VIEIRA/EM/ D. A. PRESS
Os projetos relacionados à aerodinâmica e os objetos de voo estão entre as peças que mais atraem os visitantes da exposição. As peças foram produzidas por artesãos, a partir dos desenhos feitos pelo artista italiano (foto: MARCOS VIEIRA/EM/ D. A. PRESS )
Leonardo da Vinci (Vinci, Itália, 1452 – Amboise, França,1519) é universalmente conhecido como pintor. Mas tem pouco mais de 20 pinturas, entre elas, a mais famosa do mundo, a Mona Lisa. Número que contrasta com a infinidade de desenhos, escritos, projetos de máquinas, estudos de anatomia, matemática, hidráulica, voo etc. Essa prática, que ele cultivou durante toda a vida, deixou um legado de milhares de páginas e deu ao artista a fama de sábio com conhecimento em diversas áreas científicas. A produção é tão extensa que levou o poeta Paul Valery (1871-1945) a considerar o trabalho de Leonardo como filosofia não verbal. Ou seja: pensador cuja linguagem é o desenho.


O material produzido por Da Vinci, no entanto, foi durante séculos considerado hermético. Como papel era um artigo raro em sua época, sobre uma mesma folha ele anotava de tudo – receitas, estudos, despesas. Após a morte do artista, seus papéis foram reunidos e organizados, basicamente, em dois grandes códices (manuscritos em forma de de livro) no final do século 16 pelo escultor Pompeu Leoni (1533-1608).

Leoni recortou os desenhos das páginas originais e reorganizou as imagens e escritos por temas (ainda hoje há quem tente recompor as folhas originais). Foi o primeiro “estudo” da obra do artista, que revelou o pensamento de Da Vinci e interrompeu (mas não encerrou) a longa história de dispersão de seus papéis.

Somente entre 1894 e 1904 é feita uma primeira edição (então com 280 cópias), na Itália, dos papéis deixados por Leonardo da Vinci. Nos primórdios da vida moderna (com surgimento de carros, aviões, equipamentos militares etc), puxada pelo desenvolvimento industrial, foi possível identificar em Da Vinci uma antecipação do que estava acontecendo. As primeiras exposições de sua obra que enfatizam o cientista são ainda mais recentes - 1934, 1938 e 1953 (esta, inaugurando um museu da ciência), realizadas em Milão. Em 2007, a Biblioteca Leonardiana, da cidade de Vinci, disponibilizou, na internet (www.lionardodigitale.com) 1.300 documentos.

Deve-se a esses desenhos uma mudança de percepção sobre Leonardo da Vinci, que passa a ser visto não mais apenas como artista, mas também como cientista. E há até quem comece a vê-lo como um cientista mais importante do que artista.

A dúvida ronda com força a cabeça do visitante da mostra Da Vinci - A exibição, que está sendo apresentada até 15 de abril no Itaú Power Shopping. São 66 peças, construídas entre 1950 e 2004, por artesãos italianos. Mais da metade delas em tamanho natural. Estão na mostra criações que atraem todo tipo de espectador: máquinas para voar, escafandro, submarino, tanque, metralhadoras, veículos.

Do ponto de vista estritamente visual, o material não é espetacular. Mas, quando observado em detalhe e com apoio dos textos, é impactante. É a melhor mostra dos inventos do artista que já esteve em Belo Horizonte. Organizados em salas temáticas (robótica e física, voo, guerra, anatomia, música, ótica, hidráulica, arquitetura e urbanismo), os trabalhos revelam a extensão de conhecimentos que carregam ou projetam. Não são insigths, mas projetos com detalhamento sobre sua realização. E surge, assim, o retrato de um autor quase racionalista, que parecia achar “mais estimável ser filósofo do que cristão”, como escreveu certo contemporâneo dele.

A exposição ocupa um bonito espaço especialmente construído para abrigá-la, rompendo com o conhecido desleixo dos shoppings em relação a exposições de arte. Pode-se fazer uma objeção aos suportes inadequados para as peças, que confundem a observação do desenho,  que é um elemento importante por revelar o engenho e a inteligência de Leonardo na luta para superar a falta de tecnologia para realizar o que ele projetou. Mas o que faz falta, mesmo, são réplicas, mesmo que em pequenos formatos, dos desenhos com os projetos das peças, até para tirar a sensação de que se trata de uma história inacreditável.

MARCOS VIEIRA/EM/ D. A. PRESS
Público observa peças construídas a partir de desenhos de Leonardo da Vinci e reproduções de suas pinturas. Textos contextualizam a produção (foto: MARCOS VIEIRA/EM/ D. A. PRESS)
Genialidade do artista encanta público


Está na mostra Leonardo da Vinci – A exibição a peça mais polêmica entre os inventos do artista: uma bicicleta. O desenho do veículo, com características muito diferentes das do traço de Leonardo, foi achado em 1966, por monges italianos, ao descolarem desenhos do álbum organizado por Pompeu Leoni.


Trata-se de um desenho cuja autoria é muito contestada – mais recentemente, foi atribuída a um monge –, mas que entrou para o rol de lendas em torno do artista. Esse é um exemplo do encanto e das controvérsias que, ainda hoje, Da Vinci desperta.


O objeto está estampado num belo suvenir da exposição: uma caneca com uma ilustração de Leonardo da Vinci passeando de bicicleta, pela Pampulha, passando diante da igrejinha de São Francisco, criada por Oscar Niemeyer.
Na semana passada, Vinícius Torres, de 27 anos, estudante de publicidade e propaganda, aproveitou um passeio pelo shopping para ver a exposição. “O que mais me impressionou foi a quantidade de invenções, a amplitude de áreas de conhecimento e de técnicas”, diz, citando que várias peças exigem conhecimentos de mecânica, carpintaria, engenharia, desenho. Ficaram na memória do estudante os estudos para máquinas para voar que, na opinião dele, são também lúdicos. “Foi um homem que deixou marcas na história da humanidade.”


Magali de Castro e Alberto Alves, aposentados, foram ao shopping especialmente para ver a exposição. Ela conheceu o castelo, na França, onde Leonardo morreu; ele viu, rapidamente, exposição de inventos em Roma. “Achei fantástico descobrir um Leonardo que não conhecia: o inventor. É impressionante como ele pensou em tudo, do corpo humano ao avião. Não é todo dia que vemos o trabalho de alguém tão completo”, surpreende-se. “Leonardo é artista e cientista”, observa Alberto. “Deus, periodicamente, faz descer à Terra gênios para promover o desenvolvimento humano”, afirma, reverenciando o italiano.

Hiperativo O mestrando em história Marcelo Alves e a namorada, a arquiteta e design Joyce Takenaka, também foram ao shopping especialmente para ver a exposição. Ficaram encantados com os projetos do artista construídos. “Leonardo impressiona. Ele devia ser hiperativo”, brinca Joyce, surpresa com a quantidade de realizações e diversidade de campos de atuação. “É muito curioso o quanto ele é o contrário da especialização, tão valorizada hoje”, observa Marcelo. Para o casal, a mostra revela um homem curioso, inteligente e estudioso.


O casal Teresa e Pedro Braga, ela professora, ele, engenheiro, também foi ao shopping para ver a exposição. “Conhecemos só o Leonardo pintor e não temos noção de que ele criou, inventou, aperfeiçoou vários aparelhos”, destaca Teresa. “É um homem com mente aberta para vários assuntos, parece várias pessoas”, acrescenta Pedro. Eles observam que, quando se leva em conta que essa obra foi feita por um homem sem educação formal, o resultado torna-se ainda mais surpreendente. “Se a palavra gênio cabe a alguém, é a Leornado da Vinci”, afirma Teresa, com a concordância de Pedro.


Da Vinci – A Exibição
No ItaúPower Shopping (Av. General David Sarnoff, 5.160, Cidade Industrial, Contagem). Acesso pelo estacionamento no 3º piso e pela área de alimentação. R$ 20 e R$ 10 (meia), de segunda a quinta-feira; $ 30 e R$ 15 (meia), de sexta a domingo. De segunda a quinta-feira, das 17h às 22h; sextas e sábados, das 10h às 22h; domingos e feriados, das 10h às 20h. Classificação livre. Até 15/4.

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