Sebastião Salgado reencontra público mineiro em Belo Horizonte

Fotógrafo inaugura, na segunda-feira, temporada 2015 do Projeto Sempre um Papo. Em entrevista ao EM, artista critica abordagem do Brasil à crise hídrica e condena assassinato dos rios

por Ailton Magioli 07/03/2015 08:00

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Washington Alves/Vale/Light press/Divulgação
"É caro (o projeto de recuperação da bacia do Rio Doce), mas, se considerarmos a compra de aviões de combate pelo Brasil da Suécia, não será nada. Com o preço de 10 aviões desses você opera uma bacia do tamanho de Portugal" - Sebastião Salgado, fotógrafo (foto: Washington Alves/Vale/Light press/Divulgação)

É de Vitória, capital capixaba, onde fez faculdade de economia e conheceu sua mulher e parceira de trabalho, Lélia Wanick Salgado, que Sebastião Salgado, de 71 anos, fala à reportagem do Estado de Minas, por telefone. “Quando morava em Aimorés, no Vale do Rio Doce, chegava aqui em quatro horas, enquanto a viagem para Belo Horizonte durava cerca de 24 horas”, recorda o consagrado fotógrafo, explicando como desenvolveu apego à cidade que marcou sua vida.

É lá também que ele acaba de assinar um termo de cooperação com uma empresa e um protocolo de intenções com o governo do Espírito Santo, por meio de seu Instituto Terra, para garantir o fornecimento de água a milhões de pessoas. O fornecimento está comprometido na Grande Vitória, a exemplo de outras capitais do país. “Vão ter de buscar (água) no Rio Doce, e nós temos de começar a trabalhar já”, diz Salgado, que inaugura na próxima segunda-feira à noite, juntamente com Lélia Wanick Salgado, a temporada 2015 do Projeto Sempre um Papo, em Belo Horizonte.

Conversa vai, conversa vem, o Oscar ao qual o documentário sobre Salgado, O sal da terra, dirigido pelo alemão Wim Wenders e por seu filho Juliano Ribeiro Salgado, concorreu (mas perdeu para Citizenfour, sobre Edward Snoden), entra na pauta: “Acompanhei como espectador. Sabia que não podia ganhar”, diz o fotógrafo, lembrando que este é um prêmio americano, para produções americanas, que, às vezes, abre espaço para filmes estrangeiros que, aliás, detêm uma categoria na disputa.

“Mas só o fato de participar, de ter sido nomeado entre os cinco melhores documentários do planeta já nos orgulha. Esse é o grande prêmio do filme”, diz ele, salientando, ainda, o fato de dois dias antes da festa americana O sal da terra ter sido distinguido com o César, o correspondente francês do Oscar. O documentário, que estreia no próximo dia 26, narra a trajetória e a forma de Sebastião se aproximar dos temas que fotografa, como em seu mais recente trabalho, Gênesis.

NASCENTES


No decorrer da entrevista, os temas também vão e vêm, em especial a atual crise hídrica que assusta o Brasil. “A crise veio se estabelecendo, mas hoje está inteiramente estabelecida. É preciso recuperar as nascentes, senão daqui a 15 anos não terá mais jeito. O processo de destruição foi longo, e a recuperação será também”, constata o artista, envolvido na captação de recursos para o projeto-piloto de recuperação da bacia do Rio Doce.

“Só no Doce, calcula-se algo em torno de 400 mil nascentes a serem recuperadas em período de 30 anos”, estima o fotógrafo. R$ 5 bilhões é o preço do projeto de reflorestamento no entorno dos olhos d’água. “É caro, mas, se considerarmos a compra de aviões de combate pelo Brasil da Suécia, não será nada”, compara, lembrando que o preço de cada uma dessas máquinas é de R$ 500 milhões. “Com o preço de 10 aviões desses você opera uma bacia do tamanho de Portugal.”

Enquanto governos e mídia insistem em medir o índice dos atuais reservatórios, Sebastião Salgado lembra que ninguém vai ao cerne da questão. “Estamos matando os rios, as fontes. Os reservatórios têm de ser preenchidos com água dos rios, córregos e nascentes que nós destruímos. O sistema ecológico está todo destruído. A mata atlântica, repleta de nascentes, também foi destruída”, lamenta. O Instituto Terra, criado por ele e Lélia Salgado em Aimorés, está envolvido com a questão há pelo menos quatro anos.

Na opinião de Salgado, a recuperação dos olhos d’água tem de virar lei, com os proprietários rurais convocados a participar de uma campanha. “Tem de ser prioridade da mídia, de governos e dos indivíduos”, diz. A crise hídrica deverá ser o foco do papo de Sebastião com o público mineiro, embora assuntos como O sal da terra e Gênesis também devam ser tratados.

“Estamos começando a ser um grande país”

Empolgado com o Brasil, que classifica como um país fantástico, Sebastião Salgado, que vive na França (Paris) desde 1969, comemora a entrada recente de cerca de 40 milhões de brasileiros na denominada classe média. “Estamos nos transformando em um verdadeiro país. As denúncias de corrupção são um exemplo disso”, diz o fotógrafo, salientando que, anteriormente, a classe que corrompia era a mesma que dominava a mídia. “Hoje, mostra-se tudo. Estamos começando a ser um grande país, colocando corruptos na cadeia.”

No próximo dia 1º de maio, ele inaugura na Expo Universal de Milão 2015, na Itália, a mostra Perfume de sonho – Uma viagem ao mundo do café, que, cinco dias depois, estará também na Bienal de Veneza. “Comecei o trabalho em 2002, no cerrado mineiro, nas matas de Minas e nas montanhas capixabas”, conta. Em seguida, ele registrou o mesmo tema na China, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Etiópia, Guatemala, Índia, Indonésia e Tanzânia.

“O café tem tudo a ver com a minha infância. Meu pai, que é de Rio Casca, teve uma produtora de café. Trata-se do primeiro produto do mundo pelo número de pessoas que trabalham com ele. São cerca de 24 milhões de pessoas trabalhando com café”, afirma, lembrando que, financeiramente, o petróleo é o primeiro produto produzido no mundo.

“Resolvi fotografar a história das pessoas que fazem o café. Às vezes, as pessoas tocam no produto e não imaginam que ele é recolhido a mão, via grãozinhos. É um projeto muito humano. A colheita do café é a parte do processo inteiramente humana. Há fazendas que chegam a empregar 800 pessoas nessa fase.”

Depois de Gênesis, Salgado está às voltas com dois novos trabalhos: um com a Fundação Nacional do Índio (Funai), sobre o movimento indígena brasileiro, e outro em torno da mesma temática, mas concentrado nos povos ianomâmis (Amazonas e Roraima) e Auá (Maranhão e Pará).

Artista diz que foi só um ‘coadjuvante’ em filme

“Fui o coadjuvante. Apenas participei do filme, que não é meu, é deles”, diz Sebastião Salgado sobre O sal da terra, documentário a seu respeito, dirigido por Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado. Sobre a declaração de Juliano Salgado, seu filho, ao Estado de Minas, de que o documentário possibilitou a reaproximação dos dois, ele diz: “Viajei a vida inteira. Então, fiquei longe de filho, mulher e família. Mas, ao mesmo tempo, também estive próximo de todos. Juliano, por exemplo, viajou comigo em muitas reportagens, quando tivemos oportunidade de conviver muito”, diz.

Já a mulher, Lélia, cuja presença é constante e intensa na vida dele, é também uma fotógrafa, para Sebastião. “Falam muito em Sebastião Salgado, mas o meu trabalho é de equipe. O fotógrafo é a ponta do iceberg, mas tudo o que fiz nós fizemos juntos”, diz, sobre Lélia, que é curadora, cenógrafa, editora e ilustradora. Ela desenhou muitos dos livros que ele publicou, além de ter, de acordo com ele, participado sempre da definição do conceito de seus trabalhos.

O sal da terra foi apresentado no Festival de Cannes, em maio passado, e já estreou na Europa (Alemanha, França, Bélgica e Holanda, entre outros países). Ele será lançado neste semestre no Brasil e nos Estados Unidos e, a partir de julho, chega à Ásia.

SEBASTIÃO SALGADO E LÉLIA WANICK – PROJETO SEMPRE UM PAPO


Segunda-feira, 19h30, no Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro). Entrada franca. Informações: (31) 3270-8100

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