Franthiesco Ballerini traça o panorama do jornalismo cultural em livro

Publicação procura mapear as tendências e balizar os desafios propostos à prática jornalística voltada às artes e ao entretenimento

por Carolina Braga 04/03/2015 08:00

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ERIC GAILLARD/ REUTERS
A atriz Nicolle Kidman posa para fotógrafos credenciados pelo Festival de Cannes para divulgar o filme em que interpreta Grace Kelly (foto: ERIC GAILLARD/ REUTERS)
É mesmo uma zona complexa e heterogêna, como definiu Jorge Rivera. É considerada também como a área dentro do jornalismo que tem como função separar o joio do trigo e revelar de uma forma clara e acessível que em toda grande obra – de literatura, de poesia, de música, de pintura, de escultura – há um pensamento profundo sobre a condição humana. Assim afirmou o filósofo Edgar Morin.

O jornalismo cultural foi definido na teoria de diversas formas. Na prática, no entanto, “a função de ser analítico com os fatos sociais” nem sempre é levada a cabo. Ainda mais num contexto em que aspectos mercadológicos e industriais com frequência anulam os artísticos.

Traçar o panorama histórico desta especialização, assim como descrever as discrepâncias e consonâncias da teoria e da prática, são objetivos implícitos no livro Jornalismo cultural no século XXI: literatura, artes visuais, teatro, cinema, música, de Franthiesco Ballerini. Embora seja uma obra mais descritiva do que propriamente reflexiva em relação aos desafios da área, o volume preenche uma lacuna importante para quem se inicia nesse campo.

“Como muitos dos livros da área foram feitos no século 20, não pegaram a questão da internet e como isso afetou todas as áreas. Eram obras muito específicas e senti a necessidade de abrir esse leque”, afirma o autor. Ballerini traça o panorama sem pudor de apresentar as próprias experiências no exercício da profissão ou mesmo parecer superficial. O autor foi crítico de cinema do Jornal da Tarde por sete anos e colaborador de O Estado de S. Paulo, produzindo reportagens especiais e entrevistas em Hollywood.

Jornalismo cultural no século XXI é dividido em 10 capítulos. Os dois primeiros são dedicados a contextualizar a especialização no cenário do jornalismo, com breve histórico no Brasil e no mundo. Dadas as bases históricas, o autor associa reflexões teóricas a entrevistas com profissionais do eixo Rio/São Paulo sobre o dia a dia das redações. É assim que revela os choques que ainda existem entre o que se diz nos livros e o que é possível ler em jornais, revistas, internet e, principalmente, ver na televisão ou ouvir no rádio.

TRANSFORMAÇÕES Ao problematizar questões como reflexão versus simplificação; cortes de pessoal nas redações e formação insuficiente dos profissionais; a busca do furo pelo furo, além de uma engrenagem que muitas vezes inclui o jornalismo cultural como ferramenta de divulgação da indústria de bens culturais, o autor coloca o dedo – mesmo que de leve – em algumas feridas. Quando elenca os desafios que o jornalismo cultural tem pela frente, demonstra que vão muito além da inclusão de novas plataformas ou de como lidar com elas.

Para Ballerini, lidar com a pressão da agenda cultural de lançamento de obras e produtos no mercado, por exemplo, é um desses desafios. “A agenda escraviza”, sintetiza. Jornalismo cultural do século XXI não traz receitas. O jornalista constata em todas as áreas – há capítulos dedicados à literatura, às artes visuais, ao teatro, ao cinema e à música – a presença de um cerco formado pelas assessorias de imprensa que tentam, a todo custo, espaços na mídia tradicional. Fala também sobre a perda de relevância da crítica, além de abordar o culto às celebridades.

Ballerini defende que o jornalismo cultural vive um momento de transição. É preciso se reinventar num cenário em que os interesses da indústria se impõem, enquanto experiências de nichos apontam caminhos. “O jornalismo cultural praticado hoje sofre de uma crise – ligada à acelerada transformação do mercado cultural e à modernização dos jornais brasileiros – não tendo ainda encontrado seu espaço”, afirma.

Era digital amplia ações

 

A internet abriu um campo enorme para renovar as práticas ligadas ao jornalismo cultural mas, segundo Franthiesco Ballerini, até agora os passos dados nessa direção ainda são tímidos. “Hoje, mesmo com tantos recursos, áreas como música e cinema se aproveitam pouco disso”, constata.

No capítulo dedicado às novas plataformas, o autor comenta as transformações geradas a partir da década de 1990 com a popularização do telefone celular e o crescimento da internet. Talvez por ser uma área ainda carente em bibliografia, nesta importante parte do livro o autor se permite refletir tais mudanças a partir de uma perspectiva muito pessoal. Cai na armadilha do lugar-comum: “Embora as novas plataformas tendam a se agigantar neste século – talvez transformando os veículos tradicionais em nichos cada vez menores –, todas elas serão decisivas para o que ocupará prateleiras, salas de cinema e teatros de todo o país”.

Todos os exemplos citados no livro dizem sobre modelos consolidados on-line, como é o caso do portal de cinema IMDB. Experiências alternativas de revistas digitais da área e mesmo blogs não ganham espaço na reflexão. No pósfácio, batizado Mediações entre arte e conumo, o autor conclui que é preciso enfrentar um pessimismo latente em quem faz e pensa o jornalismo cultural no Brasil. Sentimento, segundo ele, influenciado pelo ponto de inflexão experimentado pela mídia tradicional e também a formação de um leitor que “cada vez mais repele cultura e abraça entretenimento”.

A única forma de se combater isso, de acordo com Jornalismo cultural no século XXI é a formação de profissionais que “consigam por meio de um texto claro, coeso e estilisticamente atraente atrair leitores não para para a óbvia historinha de super-herói do quinto filme da franquia hollywoodiana, mas para aquele curta-metragem estudantil do interior do Pará, que, de forma simples, abordou uma grande questão cultural e social do momento”. Ou seja, quando “o jornalista cultural se posicionar na sociedade como um mediador imprescindível entre arte e consumo”.



Jornalismo cultural no século XXI: literatura, artes visuais, teatro, cinema, música

• De Franthiesco Ballerini
• Grupo Editorial Summus
• 230 páginas
• R$ 69,20

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