Livro revela a trajetória de Juca Martins

Fotógrafo registrou cenas emblemáticas do Brasil nos anos 1970 e 1980. Independência é a marca da carreira desse mago das lentes

por Ângela Faria 01/03/2015 00:13

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Fotos: Juca Martins/divulgação
(foto: Fotos: Juca Martins/divulgação)
A história contemporânea brasileira é tema do livro que o fotógrafo Juca Martins acaba de lançar pela Editora Martins Fontes. As imagens registradas pelo autor, que trabalhou na famosa agência F4 e para vários jornais e revistas do país, têm o mérito de não deixar o ser humano submergir em meio à notícia. Estão lá a campanha das Diretas Já!, as greves no ABC paulista que contestaram a ditadura militar, o fantástico formigueiro humano de Serra Pelada – meca de ouro e sonhos que fez a glória e a desgraça de tantos trabalhadores. Cenas “corriqueiras”, mas não menos importantes, também mereceram a atenção do repórter. É o caso daquelas simpáticas velhinhas que viraram símbolo do carnaval carioca. Cá estão elas de sacolinha de supermercado no braço, em plena folia.

Juca Martins gosta de gente. Não importa se o palco é a praça paulistana, tomada pela multidão para exigir diretas para presidente, ou Lula e FHC, ainda aliados em prol da redemocratização, ou a garotada jogando bola na favela paulistana de Heliópolis. Não há como o leitor não se enternecer com aquela família favelada que põe a mesa em pleno beco, no meio dos barracos, com a jarrinha de flor ao centro. Gente é pra brilhar, como bem cantou Caetano Veloso.

A cronologia visual de Juca nos conduz ao Brasil das décadas de 1970 e 1980. De um lado, a ditadura; de outro, o povo exigindo seus direitos. Nossos hermanos também entraram no foco: há imagens feitas em Cuba e em El Salvador, além de refugiados palestinos no Líbano. O escritor Fernando Morais, companheiro de Juca na revista Visão há quatro décadas, diz que o parceiro de coberturas tem o raro dom de ver o que nós, mortais comuns, não enxergamos apesar de estar ali, bem debaixo de nosso nariz.

O autor dos best-sellers Olga e Chatô – O rei do Brasil compara o parceiro àquele alfaiate experiente capaz de afirmar, de olhos fechados, usando apenas o tato, se a peça de casimira dá um bom terno. “Só de pegar nas mãos um tijolo, um pedreiro tem condições de prever se a casa vaificar de pé ou não”, lembra Fernando, ao traçar outro paralelo com os dons de Juca.

RIGOR


Em texto que situa a obra de Martins na história da fotografia brasileira, o pesquisador e crítico Rubens Fernandes Júnior lembra que ele, em meio à efervescência da cena histórica do país, soube controlar seus anseios políticos e produzir algo diferenciado em termos expressivos e com rigor formal. Juca é um sujeito realmente independente. A opção de vida do fotógrafo mostrou-se fundamental para essa trajetória singular: corajosamente, ele sempre ganhou a vida como freelancer, sem se submeter a imposições desse ou daquele veículo de comunicação.

“A liberdade de ir e vir, de transitar pelas diferentes redações do país, de dialogar direto com os editores, de propor pautas nem sempre discutidas no dia a dia abriu-lhe enorme possibilidade de trabalho independente e libertário, missão quase impossível no país naquele início da década de 1970”, lembra Rubens Fernandes Júnior. Para ele, Juca é um profissional característico de seu tempo: consciente, politizado, fruto do momento histórico específico em que se buscava lutar contra as injustiças do país.

“Foi o período em que se travou uma batalha pelo reconhecimento profissional, em que se tentou uma aproximação com a identidade latino-americana, em que se propôs uma nova experiência através da mediação fotográfica”, afirma Fernandes.

Em resumo, Juca Martins navegou na contracorrente ao se distanciar do mainstream e se aproximar das lutas contra a ditadura. “A imprensa censurada foi, sem dúvida, uma experiência traumática, mas que não impediu a criação de relevantes fluxos informacionais”, registra o crítico.

O livro destaca a experiência singular da agência fotográfica F4, da qual Juca foi um dos fundadores. A produção pertencia ao autor, com honorários pagos a cada utilização da imagem. “Começamos a pensar a fotografia como um tempo diferente dos prazos de redação da grande imprensa. Também criamos uma tabela de preços e discutimos a propriedade intelectual do trabalho do fotógrafo. Não havia competição entre os profissionais da agência e todos compartilhavam informações, pautas e técnicas”, afirma Juca Martins no livro. A experiência durou até a década de 1990.

Em 1979, ele recebeu o Prêmio Nikon Photo Contest International com a fotografia Brucutu – repressão à greve dos bancários. Também ganhou o Prêmio Esso de Fotojornalismo com o ensaio sobre menores abandonados da Clínica Congonhas, publicado na Folha de S. Paulo e na revista alemã Stern. “O que pulsa é a vida. O que me encanta na fotografia é poder participar verdadeiramente da história, conviver com as pessoas. Não é a adrenalina da guerra, por exemplo, mas sim participar da história do nosso tempo”, resume Juca.

Cria do laboratório


Manoel Joaquim Martins Lourenço, o Juca Martins, é português de Barcelos. Nascido em 1949, mudou-se com a família para o Brasil aos 8 anos. Filho de um pedreiro e uma dona de casa, fez um curso de técnica de impressão gráfica. Aos 18, passou a frequentar o laboratório de fotografia de uma das unidades da Editora Abril. O jovem gráfico trabalhou com o fotógrafo João Bittar e logo trocou o laboratório pelas câmeras. Publicou trabalhos na Folha de S. Paulo, Última Hora, Jornal da Tarde, Realidade, Quatro Rodas e Veja.

Em 1973 e 1974, tornou-se colaborador da revista Visão. Em 1975, assumiu a editoria de arte do jornal alternativo Movimento. Posteriormente, ingressou na agência independente F4. Foi o primeiro repórter brasileiro a documentar a impressionante multidão de homens que buscava o ouro em Serra Pelada; denunciou, por meio de suas fotos, a violenta perseguição a travestis na Boca do Lixo paulistana; registrou fatos históricos marcantes no Brasil e em El Salvador e Cuba. Atualmente, ele comanda o projeto Olhar Imagem.

JUCA MARTINS
Org.: Henrique Siqueira
Fotos: Juca Martins
Textos: Fernando Morais e Rubens Fernandes Júnior
. Martins Fontes, 264 páginas, R$ 68,50

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