'O caso Pedrinho': livro relembra história de menino sequestrado e criado por outra mãe

Repórter dos Diários Associados compila bastidores e segredos do reencontro que emocionou o país

por Eduardo Tristão Girão 27/02/2015 17:31

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CB/D.A Press
Atualmente, Pedrinho convive com as duas famílias e mantém contato com Vilma, a mãe adotiva que o sequestro ainda na maternidade; jovem leu o relato de repórter e aprovou livro (foto: CB/D.A Press)
Em 2002, o repórter do Correio Braziliense Renato Alves recebeu telefonema de um policial que até hoje ele não sabe quem é. Do outro lado da linha, o tão desejado furo jornalístico: haviam encontrado Pedro Rosalino Braule Pinto, o Pedrinho, menino que fora raptado numa maternidade em Brasília, em 1986, e que até então vivia com outra família em Goiânia, sem que seus pais biológicos tivessem ideia de onde ele estava.

Alves realizou cobertura completa (que não se resumiu ao reencontro, beirando a ficção) e narra a história em 'O caso Pedrinho', lançado como e-book em outubro passado e cuja versão física chega às lojas no mês que vem. “Fui para Goiânia com a roupa do corpo, achando que era só para cobrir o reencontro dele com os pais”, lembra o repórter. Os desdobramentos da história foram tão surpreendentes que ele precisou permanecer na capital goiana por nada menos que um mês. E outras duas equipes do jornal se juntaram à cobertura. Na sequência, exame de DNA revelou que na mesma casa onde Pedrinho foi criado vivia como filha legítima do casal Aparecida Fernanda Ribeiro da Silva, também sequestrada, porém havia 23 anos.

No meio dessa trama está Vilma Martins, mãe de criação dos dois, que terminou presa – seu objetivo era manter o marido próximo e melhorar de vida. A longa cobertura do caso incluiu convívio com as famílias, vítimas, testemunhas, advogados, policiais e delegados. Além de contar sobre o reencontro de Pedrinho com os pais biológicos (a primeira carta escrita para eles, o primeiro almoço etc.), o autor também revela detalhes sobre o desfecho da mesma história para a irmã de criação de Pedrinho, Aparecida Fernanda. Só não conseguiu entrevistar Vilma, hoje em regime de liberdade condicional, que se negou a falar com ele. Entretanto, correu por fora para poder informar ao leitor sobre tudo o que aconteceu com ela, conversando com familiares e vizinhos e consultando processos.

MINISSÉRIE

“A história do Pedrinho tinha tudo para dar errado e deu incrivelmente certo. Eu não seria o Pedro que ele é hoje. Consegue lidar bem com as duas famílias, é centrado, tem filho, trabalho e conseguiu tudo isso muito rápido. Além disso, mantém contato com a Vilma, sabendo de tudo o que aconteceu, e tem relação ótima com os pais biológicos. Tem discernimento total da história. É muito bem resolvido”, observa Alves. Orgulhoso, ele diz que Pedrinho leu o livro e comentou que o repórter foi fiel à história. “Essa era minha proposta: uma reportagem, não um romance”, completa.

Uma vez que a história se tornou conhecida em todo o país, Alves acredita que são as preciosas as informações de bastidores (o que tem de sobra), o grande atrativo do livro. Inclusive, os detalhes se mostram tão interessantes que despertaram a atenção de René Sampaio, diretor do filme 'Faroeste caboclo'. Alves afirma que Sampaio “havia pensado num longa-metragem sobre o tema, mas, depois de ler o livro, achou melhor uma minissérie. São muitos personagens, muitas idas e vindas”.

O repórter diz, ainda, ter tomado gosto pela experiência: planeja mais um livro-reportagem, desta vez sobre uma comunidade no interior de Goiás onde há a maior incidência mundial de xeroderma pigmentoso, doença que causa tumores devido ao contato com a luz solar ou elétrica.

'O caso Pedrinho
'
. Renato Alves
. Geração Editorial (304 pág.)
. Preço sugerido: R$ 39,90

TRECHOS DO LIVRO

. Recomposta, Lia também fala com Pedrinho, pelo telefone. Ao ouvir a voz do rapaz, esquece os anos de sofrimento. Chora. Do que estava preparado, consegue soltar apenas a primeira frase: – Meu filho. O restante é desabafo da mulher que durante todos esses anos apegou-se à imagem de Nossa Senhora Aparecida, às novenas com os vizinhos e a uma centena de cartas em que narrou em detalhes o dia a dia da família que o menino nunca conheceu. Que viveu a angústia de receber por cinco vezes a notícia de que seu filho fora encontrado e depois a frustração de não ser ele. – Você está longe, mas sempre esteve perto de mim durante todo esse tempo. Eu não quero exigir nada de você. Será da forma como você quiser – promete Lia, chorando. – Não chore, não chore – pede o menino, antes de desligar o telefone.

. As milhares de páginas do inquérito descrevem buscas no Rio de Janeiro, no Paraná, em Rondônia, e até nos Estados Unidos, mas nenhuma das pistas seguidas levaria a Goiânia, onde Vilma Martins Costa criava Osvaldo Martins Borges Júnior, nome dado à criança roubada em Brasília. Apesar disso, o processo tem curiosidades. A começar pelo desarquivamento dele, em 1997. Uma história pitoresca levou o inquérito de volta à Delegacia de Homicídios do Distrito Federal. Um sujeito de Brazlândia, cidade-satélite distante mais de 40 quilômetros do Plano Piloto de Brasília, se matou com a intenção de simular um assassinato para acusar a ex-mulher. Engenhoso, prendeu com um barbante o revólver no rabo de um cachorro, de modo que depois do tiro o cão levasse para a arma para longe. Só não contava que seu corpo caísse sobre o revólver, prendendo o bicho até a chegada da polícia. O caso dele foi rapidamente esclarecido, mas a carta que o atrapalhado suicida deixou provocou a reabertura do caso Pedrinho.

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