Atriz e diretora Cida Falabella encena solo em sua própria casa

Montagem é baseada na experiência que viveu com o fim de seu casamento e nos relatos postados no blog 'A louca sou eu'

por Ailton Magioli 26/02/2015 08:00

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Leandro Couri/EM/D.A. PRESS
Cida Falabella inicia o espetáculo 'Domingo' com rituais de cura feitos no quintal de sua casa (foto: Leandro Couri/EM/D.A. PRESS)
“Eu estou aqui. Minha carne viva ofereço a vocês. Ofereço minhas rugas e meus pés grosseiros. Meus cabelos brancos. Meus braços flácidos. Meus olhos fundos. E minha cicatriz. Ofereço-me. Ofereço-me. Ofereço-me”, diz a atriz Cida Falabella, de 55 anos, no quintal da casa, onde começa a encenação de 'Domingo'. Nessa parte da encenação ela faz gestos rituais, como a quebra de vidros e o enterro de objetos. E desenterra o próprio vestido de noiva, diante do qual revela a tormenta afetiva vivida por ela em algumas ocasiões.

“Domingo é o dia mais difícil para mim, que sou uma pessoa melancólica”, diz a atriz-diretora da Cia. Zap 18, sobre a escolha do nome do espetáculo, que estreia no próximo domingo. Originalmente surgida no blog A louca sou eu, acessado no endereço falabellacida.blogspot.com.br, a cena-experiência, como também é chamado o solo de Cida, teve um primeiro ensaio aberto no 24º Encontro Sesi de Artes Cênicas de Araxá, no Triângulo Mineiro, do ano passado, trazendo a público, a partir de relatos biográficos, a mulher, a mãe, a amante, a dona de casa, a artista, a professora, a companheira e a louca com as quais a atriz-diretora convive.

“No geral, não é uma personagem. É a persona, você e a sua individualidade ampliada dentro de um viés artístico”, diz Cida. “O espetáculo não conta uma história linear. Ele trata das fases da vida de uma mulher madura e da relação dela com a sua casa. Se há uma personagem, é a casa”, aponta. Em Belo Horizonte, a curta-temporada de Domingo irá até o dia 22/3, com apresentações, sempre aos domingos à tarde, restritas a 15 pessoas por sessão.

No espetáculo, ela busca estabelecer um diálogo entre dois universos: os rituais de cura, recriados a partir da pesquisa e vivência de práticas corporais pessoais e biográficas, realizados do lado de fora da casa, na recepção do público, e a conversa, do lado de dentro, permeada por temas femininos e textos literários registrados pela atriz em seu blog. Atravessando os temas, vem à tona a luta de uma mulher pela vida e sua tentativa de (des) enlouquecer. “Como diz Adélia Prado, a mulher é desdobrável demais.” Cida lembra que o ano de 2014 para ela teve início em junho, quando criou o blog e passou a se manifestar publicamente, com postagens feitas sempre aos domingos.

Ela conta que a ideia de dedicar o espetáculo ao primeiro dia da semana vem da época da separação do marido, há sete anos. “Agora, eu salvei todos os meus domingos”, afirma, convicta do poder da arte diante da vida. “Além de a arte nos dar a possibilidade de transformação, o teatro é o eterno recomeçar.” Segundo ela, para se fazer teatro é necessário viver o tempo presente. “E o meu solo leva isso a alto grau. Eleva a efemeridade à potência máxima”, acredita Cida, que, em cena, conta com a participação especial do gato vira-lata Riva, com o qual vive na casa de seis cômodos, construída em terreno de 360 metros quadrados no Bairro Serrano, na Regional Noroeste da capital.

Pequenos pés de goiaba, limão (dois tipos), abacate, mexerica e laranja pipocam pelo quintal, onde duas jovens árvores chamam a atenção pela beleza da copa. Além de cantar Domingo, de Roque Ferreira, que Maria Bethania gravou no álbum duplo Amor festa devoção – Ao vivo, de 2010, durante a encenação ela ainda divide com a plateia a audição de You know I’m no good, de Amy Winehouse.

Do quintal, onde começa, para o interior da casa, Cida Falabella leva o público a se acomodar na sala, enquanto circula entre esta, a cozinha e o lavabo. Sobre a ideia de levar o público a conhecer a intimidade de seu lar, ela diz: “Achei coerente fazer aqui, diante de tudo que a casa significa para mim”. Os espectadores são convidados a dividir com ela inclusive o café, que coa durante a encenação. “É bastante instigante. Trata-se de um espaço muito íntimo, mas que vai tomar outro significado”, afirma.

Com ampla experiência em teatro – ela está comemorando 40 anos de carreira –, Cida começou a dirigir nos anos 1990, voltando a atuar em 2011, depois de alguns anos de ausência. “A arte tem de ser inquieta”, afirma. “O teatro pode ser feito em qualquer lugar, inclusive no teatro. Para isso, basta um ator e o espectador”, diz.

‘A gente não trabalha com noção de personagem’

Mais que um espetáculo a ser assistido, Domingo é uma experiência a ser compartilhada com o público, que fica como testemunha do ato. A afirmação é de Denise Pedron, de 42 anos, que assina a direção da peça de Cida Falabella. De acordo com ela, que é pesquisadora da performance, a influência do gênero na montagem é visível, porque ela parte de questões e do jeito de olhar a vida da própria atriz-protagonista.

“A gente não trabalha com noção de personagem. É a Cida quem está ali. Claro que por meio de personas”, afirma, salientando o fato de muitas vezes o texto revelar aspectos como os exageros que a gente não expõe no dia a dia. “Mas, no geral, é a vida que está ali. É a experiência que a Cida teve, quem ela é, a história dela.”

A relação de Denise com a peformance surge da leitura do livro A performance como linguagem, de Renato Cohen. “Fiquei fascinada pelo livro”, recorda a pesquisadora, que, desde então, enveredou pelo tema até chegar à defesa da tese de doutorado “A performatividade na cultura contemporânea”, vinculada à literatura, que tem a ver com a sua formação em letras, na UFMG. Na opinião da diretora, a Cia. Zap 18, liderada por Cida Falabella, tem tudo a ver com a performance, diante do interesse grande do elenco por teatro e realidade. “Eles não fazem muita distinção de uma coisa e outra”, destaca a pesquisadora.

DOMINGO
De 1º a 22 de março, na Casa Amarela, Rua Expedicionário Jordelino Alves, 510, Bairro Serrano. Apresentações semanais, sempre aos domingos, a partir das 16h30. As reservas serão feitas de segunda a quinta-feira pelo e-mail domingocida2014@gmail.com. Capacidade: 15 pessoas por apresentação. Classificação indicativa: 16 anos. Duranção: uma hora e 15 minutos. Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada).

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