Stepan Nercessian encarna o Chacrinha no teatro

Em entrevista ao Estado de Minas, o artista põe a boca no trombone, critica apresentadores atuais, ironiza a TV Globo e dispara contra Lula

por Helvécio Carlos 25/02/2015 09:01

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FOTOS: CAIO GALUCCI/DIVULGAÇÃO
Cena de Chacrinha, o musical, que encerra temporada no próximo domingo no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro e segue em março para São Paulo (foto: FOTOS: CAIO GALUCCI/DIVULGAÇÃO)
A ideia de transformar Stepan Nercessian no Velho Guerreiro partiu de Fernanda Montenegro. “Nunca imaginei fazer o Chacrinha, mas a Fernanda tem uma visão que nós mesmos não temos de nós”, diz o ator, que encerra neste domingo a temporada de 'Chacrinha, o musical', no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro.

'Chacrinha, o musical' é dirigido por Andrucha Waddington, genro de Fernandona, com produção da Aventura Entretenimento. Quando a produção estava em busca do ator que interpretasse Abelardo Barbosa (1917-1988), a diva do teatro brasileiro atalhou o processo. “Vocês não têm que procurar. Quem tem que fazer é o Stepan!”

Redescoberta

Nercessian havia trabalhado com Waddington no longa 'Os penetras', que ele classifica como ponto inicial de sua “redescoberta”. O ator se desligou da Globo há quatro anos e falhou na tentativa de se reeleger para a Câmara dos Deputados no ano passado. “Tenho muitos convites de uma nova geração de cinema e televisão. Se continuar assim, até a TV Globo vai me descobrir”, ironiza.

Quando aceitou o papel de Chacrinha, o ator de 61 anos, que soma 45 de carreira, com dezenas de novelas e filmes no currículo, pôs fim a um jejum de 10 anos do palco. Foi no camarim do Teatro João Caetano que ele recebeu o Estado de Minas para uma entrevista. “Quando pedi minha demissão da TV Globo, me disseram que as portas sempre estariam abertas, mas, quando voltei, quem disse isso já não estava mais lá. Da próxima vez, vou pedir para me darem a cópia da chave”, brinca.

O êxito de 'Chacrinha, o musical' no Rio de Janeiro, onde o espetáculo foi visto por aproximadamente 80 mil pessoas, motivou a produção a seguir para São Paulo, no mês que vem, com uma temporada de quatro meses já agendada. Ainda não está definido se haverá um calendário da peça em outras cidades do país.

“Chacrinha é um personagem riquíssimo, daqueles que qualquer artista procura”, diz o ator. Para Nercessian, “ninguém conseguiu copiar Chacrinha. Os programas podem ter elementos do Chacrinha, mas não têm a essência dele, que era formada pela verdade, pelos riscos enfrentados de frente com a direção da emissora, com o público, com a censura.” Descrevendo o Velho Guerreiro, seu intérprete no teatro diz: “Ele não se preservava, entregava-se. Ele era afetuoso. Toda aquela alegria era afeto. Chacrinha tinha uma irreverência tropicalista, que encantava as crianças com fantasias de índio, de noiva, de palhaço. Depois dele não aconteceu mais ninguém. Com todo o respeito a quem tem seus programas, se o Chacrinha nunca tivesse existido e estreasse hoje, seria um fenômeno de audiência. Absolutamente novo e genial”.

Para compor a personagem, Stepan recorreu especialmente ao texto de Pedro Bial e Rodrigo Nogueira, “compreendendo qual a história que a peça estava contando” e somente a poucos dias da estreia assistiu a alguns vídeos. “Aos poucos, vi onde faltava um gesto. Foi entrando naturalmente. Não fiz nada de fora para dentro.” O espetáculo tem dois atos. No primeiro, o ator Léo Bahia ('The book of mormon' e 'Ópera do malandro') revive os tempos de Abelardo Barbosa em Surubim (Pernambuco), onde nasceu.

No segundo ato, o espetáculo se transforma em um verdadeiro 'Cassino do Chacrinha', com direito a chacretes, bacalhau jogado para a plateia e, com sorte, participações de famosos presentes no teatro.

Stepan fez duas participações como jurado no programa do Chacrinha, com quem tinha um contato profissional e de admiração. “Ele era carismático por essência. Parecia estar sendo transmitido ao vivo o tempo todo”, descreve. E foi, na opinião do ator, “um marco” na história da comunicação no Brasil. “Ele quebrou a formalidade de quem fazia TV e da própria televisão. Sem ele, ficaríamos anos naquele modelo americano, que também não muda e é aquela m...”.

Por isso, no que depender de Stepan Nercessian, Chacrinha, assim como diz a letra da canção de Gilberto Gil, continuará balançando a pança e comandando a massa.

Ex-deputado e ator cita ‘extrema preocupação’ com o país

O papo fica sério quando Stepan Nercessian fala de política. “Vejo o que estamos passando com extrema preocupação”, afirma. “Não temos nada em torno de que estejamos todos unidos para valer, como foi na transição para a democracia, onde surgiram valores. Inclusive o próprio PT. Havia união das pessoas com o objetivo comum de salvar a nação. Isso tinha um peso, uma força muito grande. Hoje, não vejo nada parecido. O país está refém de algo perigosíssismo, que é a divisão social. Essa farsa do PT de dizer que, se o partido perdesse a eleição (presidencial de outubro passado), os pobres estariam derrotados, isso é uma grande mentira”, afirma.

O ator, que se elegeu duas vezes vereador no Rio de Janeiro, em 2004 e 2008, conquistou em 2010 um mandato de deputado federal pelo PPS. No ano passado, não conseguiu se reeleger. Recentemente, causou polêmica ao tuitar que a presidente Dilma Rousseff só tem uma saída: entregar o ex-presidente Lula.

“Do ponto de vista biográfico, do operário que chegou à Presidência da República, Lula é uma das coisas mais bonitas, mas é também o maior canalha deste país. Se existe uma quadrilha, Lula é o chefe. E os membros desse grupo estão com medo de entregar o chefe”, disparou. “Como ele tem parte com o diabo, nada acontece com ele. É capaz de conseguir voltar em 2018 como o salvador da pátria.”

Nercessian critica também o papel das redes sociais. “Elas se esgotam em si mesmas. É tendência dos ignorantes acreditar muito mais nas redes sociais”, detona. Ele aponta “uma confusão muito grande entre conhecimento e informação” nos dias atuais. “A juventude recorre ao Google, pega uma ideia e fala que aquilo é conhecimento. Não é. Conhecimento se adquire pelos caminhos tradicionais, na escola, no diálogo com o professor, por meio da leitura e do estudo”, afirma.

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