Belohorizontinos tem nova chance de ver a obra de Pedro Moraleida

Exposição no Ateliê Mamacadela reúne desenhos e pinturas do jovem artista mineiro morto em 1999, cujo trabalho circula com a mostra Imagine Brazil, organizada pela Noruega

por Walter Sebastião 23/02/2015 10:46

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Luiz Bernardes/Divulgação
'A santíssima trindade', obra de PedroMoraleida (1977-1999), integra a série Mickey Mouse. Religião e sexualidade são os temas mais constantes na produção do artista, cuja estética dialoga com o expressionismo (foto: Luiz Bernardes/Divulgação)
Lirismo, obscenidade e rebelião, movidos por fartas doses de filosofia, artes visuais e literatura. Tudo está misturado, com ímpeto juvenil, na obra do pintor e desenhista Pedro Moraleida (1977-1999), uma das mais fascinantes personalidades artísticas de Belo Horizonte. A vida breve, encerrada com suicídio, após se jogar do apartamento, trouxe a público a produção caudalosa que impressiona pela articulação de potência visual e fúria existencial.


Aos poucos, a obra de Pedro Moraleida vai ganhando considerações importantes. A mais recente delas é o destaque na mostra 'Imagine Brazil', organizada pelo Astrup Fearnley Museet, da Noruega, em 2013, que chega a São Paulo a partir do próximo dia 12 de março, depois de passar por vários países. A mostra segue depois para Rio de Janeiro, Montreal e Buenos Aires.

Em Belo Horizonte, pinturas e desenhos de Pedro Moraleida ganham nova mostra a partir do próximo sábado (28/2). E em endereço especial: a galeria Mamacadela. O local começou a funcionar há cerca de uma década como ateliê de Gustavo Maia e Ronaldo Garcia, instalado em casa da família, no Bairro Santa Tereza. Mais tarde, passou a abrigar também exposições de jovens artistas e festas.

O momento agora, como explica Maia, é de aposta na função de galeria do local, com funcionamento diário e programação regular. “Belo Horizonte, por ter muitos artistas, precisa de mais galerias”, afirma Maia. A nova ênfase da Mamacadela já completa quase um ano. “A cidade tem muitos trabalhos bons, até nós nos surpreendemos com o que vamos descobrindo”, diz.

A exposição de Pedro Moraleida tem curadoria de Adriano Gomide, artista plástico e professor da Escola Guignard da Uemg. O curador enfatiza que a mostra é um convite para o contato direto com os trabalhos do artista. “Não há como ver pintura por meio de reproduções em livro”, afirma. A impossibilidade, diz ele, está no fato de que reproduções não capturam matérias criadas com tintas e cores, que são fundamento da linguagem.

“Além disso, é sempre bom lembrar que artes plásticas são também uma experiência de contemplação presencial. Nada substitui a fruição que vem do estar na presença das obras.”
Na obra de Moraleida, como ressalta Gomide, é de se observar a singularidade de desenhos feitos com letras e linhas. E a força das pinturas sobre papel, que deriva do uso intenso das cores primárias, sem misturas ou passagens entre elas. Definidas pelo curador como irrupção brutal de grandes blocos de cores nas superfícies. Essa visualidade, pontua o curador, é adequada ao tema onipresente na obra de Pedro Moraleida: a mescla de religião e sexualidade, tratadas de modo igualmente brutal.

A estética de Moraleida dialoga com o expressionismo, como pontua o curador. “A exposição vai ser uma oportunidade de rever os trabalhos de Pedro Moraleida. E rever trabalhos de artistas é como encontrar velhos amigos”, diz Gomide. Ele cultiva o hábito de rever trabalhos de arte durante viagens e até em casa. “Revejo, inclusive, os meus trabalhos.” Por isso, observa que oportunidades para este exercício ainda são raras em Belo Horizonte.

“Para falar da importância de se reverem trabalhos de arte, gosto de usar uma frase que não é minha, mas que traduz meu sentimento: ‘Se hoje estamos vendo mais longe, é porque estamos sobre os ombros de outras pessoas”’, argumenta Gomide. A mudança no paradigma que enfatiza mostras apenas de produção atual ou recente de um autor, para o curador, depende do amadurecimento dos agentes que formam o sistema de arte (instituições, galerias, pesquisadores e “até os próprios artistas”). Ele considera, ainda, que trata-se de trabalho para museus. “Por que vamos a museus? Não é para ver coisas novas, mas para rever o que conhecemos em novas montagens e com novas articulações”, conclui.

Pedro Moraleida, desenhos e pinturas
Sábado (dia 28), a partir das 14h, Ateliê Mamacadela, Rua Pouso Alegre, 2.048, Santa Tereza. Segunda a sexta-feira das 14h às 20h; e, aos sábados, das 17h às 20h.


O artista

Pedro Moraleida nasceu em Belo Horizonte, cidade onde viveu e trabalhou. Filho de mãe socióloga e pai jornalista, foi criado num ambiente em que artes, política e cultura conviviam. Leitor voraz, desde cedo, se interessa por literatura, filosofia, física, psicanálise, assim como por música (rock, jazz, o erudito contemporâneo). Adolescente, dedica-se a criar histórias em quadrinhos, algumas completas. Uma delas tem como personagem O Moraleida, mistura de humano e passarinho. Ingressou na Escola de Belas Artes da UFMG em 1996. Participou, a partir de então, de diversas mostras coletivas. Após a morte do artista, foram realizadas exposições, em diversos locais, apresentando o que ele realizou. A obra de Moraleida foi catalogada e é preservada sob a coordenação de seus pais.

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