Livro reúne casos memóraveis de Teuda Bara, uma das fundadoras do Grupo Galpão

'Comunista demais para ser chacrete' começou como um projeto de conclusão de curso e se converteu na ideia de um livro, escrito por João Luis Santos

por Carolina Braga 16/02/2015 09:37

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Paulo Filgueiras/EM/D.A.Press
A atriz Teuda Bara, que recusou convite de Chacrinha para se tornar chacrete nos anos 1970 e é uma das fundadoras do Grupo Galpão, em 1982 (foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A.Press)

Foi numa noite regada a muito uísque e cachaça, saboreados com linguiça e torresmo, debaixo de um pé de manga na Avenida do Contorno, que Abelardo Barbosa, o Chacrinha, conheceu a dona da risada mais marcante da cena teatral de Belo Horizonte. “Ele ficava batendo a mão nas minhas coxas e falava: vamos para o Rio comigo, vamos lá para você ser chacrete”, lembra Teuda Bara, entre uma gargalhada e outra.

Era a década de 1970 e, depois de uma palestra dele na sede do DCE da UFMG, a então estudante de sociologia da Fafich estava no grupo incumbido de ciceronear o maior bufão que a comunicação brasileira conheceu. “Eu falava: ‘Não posso ser chacrete, sou gorda’. E ele: ‘Minha filha, faço programa para as classes C e D. Eles gostam de mulher peituda e coxuda’”, conta.

Teuda preferiu ficar em Minas. “Tinha acabado de entrar na universidade, descobrindo o que era aquela bagunça. Como você sai para ser chacrete?”. A verdade é que, em plena ditadura, a moça que em 1966 ouviu Caetano Veloso cantar ‘caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento’ e, literalmente, jogou seu RG pela janela, tinha ideias igualitárias demais para aceitar a proposta de quem gostava de distribuir bacalhau para a plateia.

E se Teuda Bara era comunista demais para ser chacrete, foi esse o título escolhido pelo jornalista e escritor João Luis Santos para o livro que reúne casos memoráveis da atriz, fundadora do Grupo Galpão.

Aos 74 anos, Teuda perdeu as contas de quanto tempo tem de carreira. João, não. Segundo ele, no ano que vem ela completa quatro décadas de um ofício que surgiu em sua vida por acaso. Primeiro, foram experiências com o teatro jornal (pequenas encenações a partir do noticiário), ainda na universidade, até que ela estreou profissionalmente sob a direção de Eid Ribeiro em Viva Olegário, em 1976.

Foi a partir de então que Teuda Magalhães Fernandes tornou-se Teuda Bara, uma referência - e homenagem - à estrela de Hollywood Theda Bara, de Cleópatra (1917).

“Todo mundo tem uma história da Teuda para contar. Por isso optei por não fazer uma biografia linear, mas escolher alguns casos. É um best of”, diz João Santos sobre o livro. Teuda Bara: comunista demais para ser chacrete começou como um projeto de conclusão do curso de jornalismo e se converteu na ideia do livro. Está no ar pela Variável 5 (www.variavel5.com.br) a campanha de financiamento coletivo para que a obra seja publicada neste ano.

‘Teve aquela vez...’


Teuda tem humor peculiar ao narrar sua vida. Quando solta um “teve aquela vez...”, lá vem história, em geral contada de forma caótica e invariavelmente espalhafatosa. É assim que ela começa a se lembrar do fim do noivado de oito anos, graças a uma noitada, nos primeiros tempos da boemia no Edifício Maletta.

“Estava saindo do Instituto de Educação com o uniforme ‘Educar-se para educar’, e meu irmão me chamou para ver um show dele. Fui e adorei aquela coisa escura. Quando veio o gim tônica com o gelo iluminado pela luz negra, fiquei alucinada. No dia seguinte, fui, toda alegre, contar para o noivo, e ele ficou possesso.”

Para apaziguar a tristeza pelo término do noivado, o pai de Teuda a convidou para uma sessão do então badalado Circo Garcia. “Quando sentei para ver, pensei: ‘Que noivado, que nada’. Fiquei louca com tudo. Tinha elefante, macaco, cachorrinho, os artistas eram maravilhosos. Aí, claro que fiquei amiga do circo inteiro”, recorda. Não só amiga, mas também namorada de um certo trapezista alemão chamado Johann Grimm.

“No primeiro mês de namoro, já tinha ido a todas as boates de Belo Horizonte com ele”, conta. Quando o circo deixou Belo Horizonte, o rapaz ficou na cidade. Tornou-se bombeiro e o relacionamento não foi para a frente. “Foi a maior besteira que eu fiz. Devia ter ido com o circo”, lamenta-se a atriz. Teuda nunca se casou. Mas como diz ser uma mulher de grandes paixões, logo já estava encantada pelas novidades que o diretor Zé Celso Martinez Corrêa aprontava com o Teatro Oficina. “Fiquei muito alucinada quando vi. Tinha certeza de que não queria fazer nada mais na vida que não fosse aquilo.”

Entrou para o Oficina, mas, logo que se descobriu grávida do segundo filho, voltou para Belo Horizonte.

No início da década de 1980, participou de oficina com integrantes do Teatro Livre de Munique. Naquela turma, conheceu Antônio Edson, Eduardo Moreira e Wanda Fernandes, com quem fundou o Grupo Galpão, em 1982. Teuda é a “mãezona” da companhia e a protagonista dos grandes casos de bastidores. Ela já parou trem na Europa e até fez militantes do Sendero Luminoso aguardarem uma ida dela ao banheiro na turnê pelo Peru.

Quando tinha 64 anos, a atriz recebeu o sedutor convite de atuar em uma montagem do Cirque du Soleil em Las Vegas, sob a direção de Robert Le Page. Mesmo sem falar uma palavra em inglês, ela foi e ficou por lá durante quatro anos. Resumindo, foi vítima da bolha imobiliária pré-crise financeira global, enfrentou falência da companhia aérea com a qual tinha o bilhete de volta e protagonizou escândalo no aeroporto para conseguir chegar ao Brasil.

Acharam que ela era doida. “Eu pirei. Juntei tudo o que eu sabia de inglês e falei: You think I’m crazy, I’m not. Eu fico crazy assim! Peguei a minha saia e levantei”, relata, usando a tradicional gargalhada como ponto final. Quando Teuda para e pensa no que já aprendeu da vida, lembra-se do amigo Paulo José, o maior exemplo de superação que tem por perto. “Aprendo todo dia. Não pode desanimar. Tem que ir. Vai arrastando, mas vai.”

Parceria inédita


Num currículo com mais de 20 peças teatrais, novelas, curtas e longas-metragens, entre eles O palhaço, com direção de Selton Mello, Teuda Bara vai acrescentar uma experiência inédita. Se tudo caminhar como o planejado, estreará neste ano a primeira peça ao lado do filho, Admar Fernandes. Será a adaptação do conto A doida, de Carlos Drummond de Andrade, com direção de Inês Peixoto. É um projeto paralelo à agenda do Grupo Galpão. A ideia dessa montagem surgiu na época em que Teuda morava em Los Angeles, a serviço do Cirque du Soleil, para a montagem de K.A, sob a direção de Robert Le Page.

Admar estava com ela e comentou o arrebatamento que sentiu ao ler conto do itabirano. Há pelo menos cinco anos eles esperam o melhor momento para transformar o conto em uma peça.“Estava fazendo novela (Meu pedacinho de chão) com a Inês e por isso nós não entramos na última montagem (do Galpão). Aí, pensei: é a oportunidade”, diz. Por enquanto, Inês, Admar e João Santos, que foi convidado para adaptar o texto, têm-se reunido para os primeiros estudos do conto. A história é sobre uma mulher frequentemente apedrejada por meninos travessos. “O fato é que é uma isolada, segregada”, pontua. Uma personagem que parece muito distante da Teuda Bara que todos já conhecem.

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