Novo curador da Bienal de São Paulo, o alemão Jochen Volz define o tema da incerteza

Curador-geral defende uma mostra 'aberta a todos' e que amplie 'os limites de nossas definições de arte'

por Walter Sebastião 12/02/2015 08:00

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Maria Tereza Correia/EM/D.A.Press
(foto: Maria Tereza Correia/EM/D.A.Press)
A incerteza, na última década (pós-setembro de 2001), aumentou drasticamente no mundo, o que é, em parte, uma decorrência da própria percepção de que se vive num mundo globalizado. Como a arte sempre investigou e brincou com o desconhecido, talvez ela possa inspirar medidas para dimensionar a vivência global, que tem motivado mais apreensão do que curiosidade nos cidadãos.

Esta é, em linhas gerais, a ideia que Jochen Volz pretende desenvolver na 32ª Bienal de São Paulo, prevista para setembro de 2016. O novo curador-geral do evento é um alemão formado em história da arte, que hoje vive e trabalha em Londres (Inglaterra). No entanto, Volz é bem conhecido em Belo Horizonte, por ter sido diretor artístico de Inhotim, tendo morado na cidade por alguns anos.

A certeza de que a incerteza presidirá as futuras décadas (devido a crises e mudanças sociais, ecológicas, econômicas ou políticas, e até mesmo ao temor do fim do mundo), afirma o curador, convida a especular sobre o que a arte pode oferecer para pensar e até sobre como agir diante desse contexto.

Volz pretende explorar essa questão enfatizando temas como subjetividade, fantasmas, inteligência coletiva, sinergia, ecologia, medos. Recém-empossado no cargo de curador-geral, ele diz que os primeiros passos vão ser o desenvolvimento de um projeto e de um plano de trabalho. E, ainda, a formação de sua equipe que, por enquanto, conta com a sergipana Júlia Rebouças, o dinamarquês Lars Bang Larsen, e a sul-africana Gabi Ngcobo.

“Uma bienal como a de São Paulo vai muito além da definição de um tema e de uma lista de artistas ou obras”, afirma Volz. “Implica estabelecer focos de pesquisa curatorial, criar estrutura de programas públicos antes e durante a Bienal, desenvolver um programa de residência para artistas convidados, aspectos que precisam ser pensados muito antes da exposição em si”, afirma.

Volz diz achar “relevante, ainda, enfatizar a experiência da arte aberta a todos. Especialmente tendo em vista a indústria visual global de hoje e sua demanda por commodities. Ou as últimas tendências na construção de exposições que, muitas vezes, veem o trabalho de arte como a ilustração de um argumento”.

O essencial na organização de grandes exposições, segundo o curador, é o balanço entre visão e objetivos claros por um lado, e flexibilidade e abertura para o inesperado por outro. Jochen Volz evita avaliações críticas de sua experiência brasileira: “Tudo que aprendi foi com artistas, e eu tive a oportunidade de conhecer muitos artistas brasileiros desde meus primeiros contatos com arte brasileira, nos anos 1990. Devo muito a eles”, afirma. A Bienal de SP vai dar ênfase a trabalhos novos e haverá projetos executados especialmente para a mostra. Volz pretende, ainda, apresentar artistas que alargaram “os limites de nossas definições de arte”.

'Aprendi a ser sócio dos artistas'

Jochen Volz é diretor de Programação da Serpentine Galleries, um dos espaços de arte mais populares de Londres, e continua atuando como curador de Inhotim. Começou as atividades profissionais dirigindo, entre 2001 e 2004, o espaço chamado Portikus, na Alemanha, que, na ocasião, era uma pequena sala de exposição dedicada à arte contemporânea.

“No Portikus aprendi muito, mas, principalmente, aprendi como trabalhar de perto com artistas e ajudá-los a transformar uma ideia em uma obra. Aprendi a me tornar sócio dos artistas”, brinca.

Volz afirma ter tido “o privilégio de sempre trabalhar em instituições e projetos que colocam a visão do artista no centro de sua atuação. O Instituto Inhotim é o melhor exemplo. É uma instituição que confia totalmente no poder transformador da arte e investe na realização de projetos inéditos de artistas”.

O curador organizou em 2009 a “Fare Mondi/Making Worlds”, a seção internacional da 53ª Bienal Internacional de Veneza, com Daniel Birnbaum.

Em 2006, Volz foi curador convidado da 27ª Bienal de São Paulo para um projeto de exposição especial em homenagem a Marcel Broodthaers. Já contribuiu para diversas exposições internacionais, como Planos de fuga (CCBB/SP); Olafur Eliasson – Your Body of Work (Sesc/SP); The Spiral and the Square, Estocolmo; a Trienal de Aichi em Nagoya e a apresentação de Cinthia Marcelle na Bienal de Lyon. Escreve para revistas de arte de vários países e já cuidou da edição de livros sobre arte contemporânea.

Indagado sobre o que uma bienal representa para as artes, Volz diz: “Cada bienal tem um papel muito específico no contexto no qual ela opera. Este papel precisa ser reavaliado constantemente, já que o cenário institucional e artístico se transforma ao longo do tempo. A Bienal de São Paulo, por exemplo, há 15 anos representava a maior oportunidade para se ver arte de artistas não-brasileiros ao lado da produção nacional”.

Ele prossegue observando que, “hoje, mostras internacionais viajam para o Brasil com frequência e exposições de artistas estrangeiros estão sendo organizadas em muitas partes do país. A Bienal, porém, ainda continua sendo a principal plataforma que consegue introduzir questões do nosso tempo, a partir de obras de arte, para um público que não necessariamente é frequentador assíduo de museus”.

Por fim, o curador acredita que, “enquanto entendemos a arte como força transformadora, uma bienal pode ser um agente transformador na sociedade. Isso representa uma interessante possibilidade de se experimentar e criar diálogos com o público”.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE E-MAIS