Grafiteira Criola usa muros de BH como suporte para reflexões

Mineira se apoia na arte como suporte para suas reflexões sobre a afirmação da identidade negra

por Jefferson da Fonseca Coutinho 08/02/2015 09:00

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.

A parede de 48 metros quadrados é tela para a jovem artista mineira de traço já conhecido em São Paulo e no Rio de Janeiro. Criola é a negra da moda que vem “vestindo” de opinião o concreto de Belo Horizonte.

O fundo alaranjado na Rua Manaus, em Santa Efigênia, é suporte para mais uma obra em processo da bela do cabelo cor-de-rosa. Aos 25 anos, Tainá Lima, a Criola, dá voz aos muros das regiões Leste e Centro-Sul. Desde 2012, ela é discurso silencioso em ato político de força transformadora.

Para a artista, ex-modelo, o grafite é uma arma poderosa. Inspiração? Além do óbvio, a autoestima e o empoderamento da mulher negra.A identidade politizada de Criola está nas imagens pintadas por ela, espalhadas pela cidade. Atrás dos muros da artista Minas afora está a mulher de voz bonita, sorriso contagiante e expressão segura. Em Copacabana, no Rio, ou no Bairro São Geraldo, em BH, Criola faz da liberdade paisagem na aridez do espaço público.


Crítica, às vesperas do carnaval, a grafiteira lamenta a “apropriação cultural” indevida, tão comum durante os dias de folia. “Não gosto de ver um monte de caras vestidos de nega maluca. Usar peruca black power não é homenagem. É a ridicularização de uma estética”, afirma.


Defensora da liberdade, Criola diz que qualquer um pode usar o que quiser. “Desde que tenha conhecimento do que aquilo representa de fato, com aprofundamento no contexto.” A artista é “filha de sambistas” – do carioca Luiz Carlos do Pandeiro e da foliona Maria Inês, mais conhecida como Chica da Silva. Ela conta que se sente incomodada com o desrespeito pela cultura afro associada à bebedeira e à curtição irresponsável da folia. “A beleza e a alegria do carnaval perdem a força quando o sagrado é desconsiderado por quem quer que seja”, lamenta.


Alexandre Guzanshe / EM / D.A Press
''O incômodo me move. Sempre fiquei incomodada por ser aprovada para este ou para aquele trabalho por ser 'a negra mais clara' '' - Tainá Lima, conhecida como Criola (foto: Alexandre Guzanshe / EM / D.A Press)
  O carnaval é assunto da hora, não só pelos dias que se aproximam, mas também pela alegria de Criola, do movimento hip- hop com o crescimento dos blocos de rua da cidade, “numa retomada sensacional do espaço público”. Na avaliação da artista, movimentos como o Praia da Estação são a melhor resposta de resistência à falta de noção do poder público. “É fantástico. O prefeito disse: ‘Não vai ocupar’. E o povo foi para a praça num movimento lindo e alegre.”


Criola se mostra feliz com a força de sua geração, atenta às ruas e contra as incoerências das autoridades locais. “A grande maioria dos jovens belo-horizontinos está pronta para resistir. Eles estão fazendo da cidade o que querem que ela seja: espaço de voz e liberdade. A rua não é lugar apenas de passagem”, defende.


De olhar que esquadrinha o horizonte, a artista cita exemplo próximo da falta de noção. “Veja o ponto de ônibus ali em frente. O telhadinho não protege do sol nem da chuva. É um arremedo estético que não atende às necessidades reais do usuário”, critica.


A grafiteira é graduada em design de moda pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Antes da conclusão do curso no ano passado, Criola trabalhou como modelo dos 13 aos 20 anos. Veio daí, das passarelas da beleza, outro incômodo presente nos painéis de sua autoria. “O incômodo me move. Sempre fiquei incomodada por ser aprovada para este ou para aquele trabalho por ser a ‘negra mais clara’.”


“Sinto-me às vezes num zoológico. A questão do exótico… ouço muito: ´’Você é exótica’. ‘Black power fica muito bem em você, né!?’ ‘Ah, você é artista, né!?’ Como assim? Porque não posso ser uma juíza e ter o cabelo black power?”. Sentimento cotidiano presente nas telas coloridas ou em preto e branco da cidade que levam a assinatura de Criola. Para a artista, o grafite é imersão. “É muito intenso. Não pinto por pintar. É só quando tenho algo que não dou conta dentro de mim”, diz.
Criola levou às ruas o olhar amadurecido também nas salas da Escola de Belas-Artes. “Nosso corpo é uma tela. A roupa é a pintura. A cidade é o meu suporte. O grafite é o vestuário que quero ver nas paredes”, diz. Criola quer que sua obra toque “todas as mulheres negras do caminho”.


“Gostaria que todas elas encontrassem o empoderamento da identidade. Isso está além do texto e do traço. Basta ser você mesma”, afirma. Com projetos e parcerias em BH, Rio e São Paulo, Criola espera um futuro próximo mais leve, sem perder a mão e o brado de suas muralhas.

 

SAIBA MAIS

Grafite

 

Nos anos 1970, em Nova York, nos EUA, alguns jovens começaram a marcar a cidade. Com o tempo, os traços evoluíram com técnicas e desenhos mais elaborados. Para muitos, trata-se de dar voz às ruas. No Brasil, o grafite surgiu em São Paulo, no final da década de 1970. O estilo brasileiro é reconhecido entre os melhores do mundo. O grafite está ligado diretamente a vários movimentos, em especial ao hip-hop.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE E-MAIS