De doméstica a contadora de histórias: Divina Maria de Jesus celebra carreira

Ela começou a trabalhar como doméstica aos 11 anos; aos 18, fez oficina teatral com o Galpão e decidiu ser artista. Cursou artes cênicas e hoje é contadora de histórias

por Ana Clara Brant 06/02/2015 00:13

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fotos: Alexandre Guzanshe/EM/D.A.Press
A contadora de histórias Divina Maria de Jesus, em Uberlândia (foto: fotos: Alexandre Guzanshe/EM/D.A.Press )

Uberlândia – No dicionário, divina é aquela proveniente de Deus. O vocábulo também pode ser atribuído a alguém encantador, sublime, maravilhoso. O batismo com esse nome envolve o risco de se tornar, para quem o carrega, a frustração da perspectiva de uma vida maiúscula. Mas Divina Maria de Jesus, de 48 anos, ex-doméstica que mora em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, abraçou sem receio as expectativas de uma biografia enorme.

 

Ela deu a volta por cima na origem humilde, deixou de trabalhar como doméstica, formou-se em artes cênicas e se tornou contadora de histórias. O ponto de virada na vida de Divina foi seu encontro com o Grupo Galpão, que a homenageia em seu mais recente espetáculo, o sarau De tempos somos, em cartaz na Campanha de Popularização do Teatro e da Dança.

 

Divina é a caçula de nove irmãos. Sua mãe era dona de casa e tecia. O pai, apesar de ser semianalfabeto, escrevia poesias, além de cantar e tocar viola. “Talvez venha daí o meu gosto pelas artes. E a gente sempre ouviu boa música no rádio lá de casa. Mas me encantei pelo teatro na escola, principalmente pelos fantoches”, diz.

 

Conheça mais sobre Divina e sua história em vídeo:


Noveleira, ela se lembra de, ainda menina, bater na porta dos vizinhos para poder assistir à TV, já que não tinha o aparelho em casa. “Alguns era bonzinhos, mas outros só deixavam ver em troca de alguma coisa, como lavar a louça deles. Recordo de ficar imitando a Regina Duarte em Selva de pedra. Sempre adorei novela e queria ser como ela. O quintal de casa é o verdadeiro laboratório do ator”, filosofa.

Quando se mudou com a família de Santa Rosa dos Dourados, distrito de Coromandel, onde nasceu, para Uberlândia, com 11 anos, teve que ajudar no sustento da casa e passou a trabalhar como doméstica. Mas não abandonou a escola. Em 1987, com 18 anos, fez seu primeiro curso de teatro amador e lá ficou sabendo de uma oficina de artes cênicas gratuita que seria ministrada por um grupo de Belo Horizonte que estava no início de sua carreira. Era o Galpão.

O curso de uma semana de duração teve aulas de expressão corporal, perna de pau, bastão, máscara e no final os alunos fizeram uma apresentação na rua. “O Eduardo Moreira pegava no meu pé. Eu era péssima corporalmente, mas era esforçada. Fora que todo mundo ali já tinha uma noção de teatro e por isso eu me sentia inferior. Mas não desistia”, diz.

 Para se dedicar ao curso, Divina Maria de Jesus ainda teve que lidar com outro problema: a patroa. Como a oficina começava pontualmente às 18h, ela tinha que sair mais cedo do trabalho para chegar a tempo nas aulas. “Trabalhava na casa dela das 8h às 18h e depois ia para a oficina. Quando fui falar que queria sair um pouco mais cedo para fazer um curso de teatro, ela falou que era uma grande ilusão. ‘Como assim, doméstica querer ser atriz?’ O neto dela também fazia. Ele podia, e eu não. Ela sempre quis me desanimar.”

O ator Eduardo Moreira se lembra com carinho da ex-aluna de oficina e sobretudo da sua alegria e de sua obstinação. “Divina era muito divertida. Sempre chegava atrasada, porque a patroa não a liberava e a gente tinha uma disciplina muito grande. Ela sempre pedia pelo amor de Deus para poder participar das atividades. Era uma figura”, recorda.

Em De Tempos somos, o espetáculo em que revisita sua história em forma de sarau, o Galpão dedica a Divina a canção Panis et circenses (Caetano Veloso e Gilberto Gil). “Essa música agora vai para a Divina, de Uberlândia, que, depois de ter feito uma oficina com o Galpão, abandonou seu emprego de doméstica, deu uma banana para a patroa, que, segundo ela, não entendia que ela tinha que fazer teatro, fez um curso de magistério e hoje é contadora de histórias... Divina, um abraço, essa música é pra você!”, diz o ator Paulo André. “É uma história linda, de como uma oficina de teatro mudou a vida de uma pessoa”, comenta Moreira.

Divina acabou se formando em artes cênicas na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), fez o curso de magistério e se tornou também professora da rede municipal, além de contadora de historias, ofício com o qual se diz realizada.

“Queria ser atriz sim, mas me sinto plena como contadora, porque (a atividade) une um pouco de várias artes. Literatura, música e teatro. Estou dando um curso de formação de contadora de histórias para ajudar a dar prosseguimento a essa profissão. Ainda quero montar um espetáculo que una contação de causos e poesia”, diz ela, que tem uma filha, Bárbara, que é bailarina.

Avisada pelo Estado de Minas da homenagem que o Galpão faz a ela em seu novo espetáculo, Divina se emocionou. “Quase explodi de tanta emoção. É uma honra”, afirma.



Garota derrama ‘lágrima de riso’


O Estado de Minas acompanhou uma tarde de contação de histórias de Divina Maria de Jesus na Escola Estadual Enéas de Oliveira Guimarães, no Centro de Uberlândia com alunos do 3º ano.

Com seu pequeno baú mágico, de onde, além de livros, ela tira bonecos, o sapatinho da Cinderela, óculos coloridos, perucas, sombrinhas, entre outros adereços, Divina chega e já de cara consegue prender a atenção dos pequenos.

Enquanto ela conta seu conto, as crianças ficam hipnotizadas. Cantam, batem palmas, arregalam os olhos, dão gargalhadas, assustam-se. É impressionante testemunhar que numa época em que predominam iPhones, iPods, tablets e afins, uma tradição singela como a arte de contar histórias magnetize as crianças.

Ao fim de seu trabalho, Divina convida a garotada a comentar o que ouviu. Ela sempre se surpreende com os retornos. “É o melhor público que existe, porque as crianças não mentem, são espontâneas. Tenho cartas, desenhos e guardo quase todas comigo”, diz.

Uma, em especial mexeu muito com a contadora. Escrita pela menina Lauana Rodrigues, de 12 anos. Sempre que a relê, a contadora se emociona. “Divina, você com certeza é rica. Pois dizem que quem faz felicidade é. Mas não de dinheiro, mas sim de carinho e de amor.” A cartinha prossegue: “Sua risada contagia o mundo. Parabéns pelo seu grande talento. Acabo esta carta limpando as lágrimas de riso”.

“Considero-me uma vitoriosa. Vim de uma família humilde, pobre, e fui atrás do que eu quis. Sou feliz”, resume Divina.

Galpão faz sarau hoje

Em De tempos somos, o Galpão realiza um sonho antigo de celebrar, com o público, o encontro da música e do teatro. Em cena, o grupo foge ao rótulo de espetáculo e experimenta um formato de sarau com cantoria, festa e poesia. Com arranjos e direção musical de Luiz Rocha, os atores executam ao vivo 25 canções que integraram seus espetáculos e as oficinas preparatórias, desde Corra enquanto é tempo (1988) até Tio Vânia e Eclipse (ambos de 2011). Nos intervalos entre as canções, os atores recitam textos de autores que encenaram e dedicam algumas músicas a personagens marcantes na história do grupo, como Divina. De Tempo Somos – um sarau do Grupo Galpão, com direção de Lydia Del Picchia e Simone Ordones, tem sessões hoje e amanhã, às 21h, e domingo, às 19h, no Teatro Bradesco (Rua da Bahia, 2.244, Lourdes, 31.3516-1360). A classificação indicativa
é livre. Ingressos estão à venda nos postos do Sinparc a R$ 15 ou pelo site www.sinparc.com.br, e na bilheteria do teatro a R$ 40 e R$ 20 (meia-entrada). Mais informações podem ser obtidas na página do grupo (www.grupogalpao.com.br).

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