Página de chargista mineiro vira lugar de compartilhamento contra ataque à Charlie Hebdo

Mais de 800 profissionais de todo o mundo se manifestaram após ataque ao semanário francês

por Luiz Ribeiro 15/01/2015 09:55
Brazil Cartoon/Divulgação
"A revolução de ideias através do traço é a maior arma contra qualquer tipo de intolerância" Márcio Leite, criador do site Brazil Cartoon (foto: Brazil Cartoon/Divulgação )
O ataque sangrento contra o jornal francês Charlie Hebdo, na semana passada, despertou a reação de chargistas de diversas partes do mundo, que tiveram quatro colegas entre os 12 mortos no atentado terrorista. As manifestações por meio do traço dos desenhistas de diversas partes do mundo foram divulgadas na internet. Um dos palcos para as manifestações foi a página Brazil Cartoon, criada pelo chargista Márcio Leite, de Montes Claros, no Norte de Minas. No site, artistas de diferentes países publicam seus trabalhos e, agora, diante da morte do diretor de redação Stéphane Charbonnier, o Charb; Jean Cabut, o Cabu; Georges Wolinski e Bernard Verlhac, o Tignous, Márcio e a equipe decidiram prestar uma homenagem permanente. Uma galeria fixa de charges sobre violência contra o cartoon e os artistas, chamada de galeria antiterrorismo, foi montada para publicação e já conta com trabalhos enviados por mais de 30 profissionais de diversos países, incluindo nações de maioria muçulmana. O site como espaço de compartilhamento já é usado hoje por cerca de 800 chargistas.

VEJA ALGUMAS DAS CHARGES JÁ PUBLICADAS NO WWW.BRAZILCARTOON.COM


Na página podem ser conferidos cartoons de artistas da Indonésia, Turquia, Romênia, Vietnã, México, Colômbia, Guatemala, Austrália, Portugal e Costa Rica, além do Brasil. Em texto publicado no site, o criador do Brazil Cartoon lembra que “a violência contra os profissionais do humor gráfico sempre existiu no Brasil, na Argentina e em outros países e agora na França”. Ele ressalta que “a revolução de ideias através do traço é a maior arma contra qualquer tipo de intolerância”.


Márcio Leite conta que a partir do grupo que criou na internet passou a compartilhar informações e ter acesso a sites dedicados a charges de diferentes países, incluindo nações do Oriente Médio, onde a maioria da população segue o islamismo. O jornal francês foi atacado por ter publicado charges do profeta Maomé, consideradas ofensivas ao Islã. “Mas os cartunistas que seguem o islamismo não adotam nenhuma hostilidade pela questão religiosa. Pelo contrário, eles condenam esse tipo de violência”, afirma Leite.


O criador conheceu de perto como é o comportamento dos adeptos do Islã quando esteve por duas vezes no Irã para participar de eventos ligados ao cartoon. Na última viagem ao país oriental, foi jurado de uma exposição de fotografias e desenhos, realizada em um museu da religião islâmica. “A temática foi sobre as guerras, porém, mostrando a violência e o quanto as guerras são prejudiciais às nações”, relata.

VIOLÊNCIA O criador do Brazil Cartoon salienta que os cartunistas dos países adeptos do islamismo condenaram o ataque em Paris, inclusive publicando desenhos contra o ato violento. As manifestações contrárias ao atentado podem ser conferidas no site Iran Cartoon, que tem como criador o iraniano Massoud Shojai Tababai, parceiro de Márcio Leite e que já esteve em Montes Claros.


Leite ressalta que, por intermédio da rede de cartoons na internet, tem percebido que o ataque em Paris não deverá estimular a adversidade. “Evidente que todos estão consternados, mas esse tipo de violência deve ser entendido como iniciativa de um grupo de pessoas, não de todos os seguidores de determinada religião”, diz o cartunista.


Ele ressalta que os cartunistas expressam momentos do mundo e também as mazelas sociais. “O cartoon é livre e universal. Uma charge sobre a violência ou a fome, por exemplo, pode ser vista no Brasil e na China com o mesmo grau de entendimento”, observa. “Quem cria o cartoon está colaborando para um mundo melhor. Mas, sempre houve uma reação contra a ideias dos cartunistas. Podemos lembrar a época da ditadura do Brasil. Naquela ocasião, grandes nomes como Henfil, Jaguar e Ziraldo enfrentaram muitas dificuldades, sem liberdade de expressão. A violência contra os cartunistas, às vezes, muda de lugar, mas continua a mesma”, diz.

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