Ícone de BH nos anos 1950, Hilda Furacão morre em Buenos Aires aos 83 anos

História de Hilda Valentim serviu de inspiração para a personagem na literatura e teledramaturgia

por Ivan Drummond 30/12/2014 09:14

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Ivan Drummond/EM/D.A Press
Hilda e Paulo Valentim nos tempos em que o craque fluminense fazia sucesso nos estád (foto: Ivan Drummond/EM/D.A Press)
Hilda Maia Valentim, de 83 anos, morreu ontem de causas naturais. A mulher, que foi uma das fontes de inspiração do mito Hilda Furacão – personagem do romance do mineiro Roberto Drummond, que deu origem à minissérie de sucesso exibida pela TV Globo –, faria aniversário hoje. Sozinha, sem um parente por perto, ela faleceu no asilo Hogar Guillermo Rawson, depois de agonizar por 10 dias.


“Primeiro, ela se recusava a comer. Todos aqui já imaginavam que Hilda estava no fim. Era como se desejasse morrer”, contou a assistente social capixaba Marisa Barcellos, que trabalha na instituição e zelava por aquela senhora frágil e doente desde o início do ano passado.

O velório foi realizado lá mesmo no asilo, onde estão os únicos amigos da mulher que se tornou famosa na zona boêmia de BH nos anos 1950. Foi lá que ela conheceu o marido, o craque Paulo Valentim, ídolo do Clube Atlético Mineiro, do Botafogo e do Boca Juniors.

Estado de Minas
(foto: Estado de Minas)
Em julho, o Estado de Minas surpreendeu o Brasil ao localizar Hilda em Buenos Aires. Depois da vida de luxo e glamour na capital argentina na primeira metade da década de 1960, Hilda foi testemunha da derrocada do marido – ainda no Brasil, na década de 1950, ele já se envolvia em bebedeiras e confusões.

 

Em Buenos Aires, Valentim experimentou o auge e a decadência. Depois da morte do craque, a viúva enfrentou muitas dificuldades na Argentina. Morava com a companheira do filho, Ulisses, já falecido, até sofrer uma queda. No início do ano passado, foi internada – e abandonada – num hospital público portenho.

Coube à assistente social Marisa Barcellos, funcionária do asilo Hogar Guillermo Rawson, recolher os documentos da paciente. Ela se surpreendeu ao descobrir o passado de Hilda: personagem de reportagens em jornais e revistas, chegou a ser tratada como primeira-dama do Boca Juniors.

 

No asilo, a viúva do craque acordava cedo, era colocada numa cadeira de rodas e passava o dia diante de uma televisão – a sua amiga nos últimos dias de vida. No quarto simples ficava o tesouro, como ela chamava o livro de capa preta contendo recortes e fotos dos bons tempos. Ali, Hilda e Paulo Valentim surgem jovens, paparicados em festas e eventos ligados ao mundo do futebol.

O casal morava num apartamento “com paredes de veludo”, contou ela ao EM, alugado pelo Boca Juniors, que também presenteou o craque com um luxuoso Impala. A bebida pôs fim ao futebol de Paulo: do Boca ele foi para o São Paulo e depois para o mexicano Atlante. Fracassou. De volta à Argentina, deixou o gramado e foi treinar divisões de base do time famoso, mas perdeu o emprego. Morreu em 1984, vítima de complicações causadas pela bebida.

 

Da zona ao glamour

 

Hilda e Paulo se conheceram na Belo Horizonte dos anos 1950. A moça chamava a atenção na zona boêmia da cidade. O craque do Atlético, companheiro de Kafunga, Mão de Onça, Murilo e Haroldo, encantou-se pela morena. Parecia não ter ciúmes, sabia que a moça atendia outros homens. Quando jogava no Botafogo, treinado por João Saldanha, Paulo vinha de ônibus para BH só para encontrar a bela prostituta. Várias vezes, dirigentes do time carioca tiveram de viajar à capital mineira para levá-lo de volta. Os dois se casaram em Barra do Piraí (RJ), terra natal de Paulo. João Saldanha era um dos padrinhos.

O escritor Roberto Drummond (1933-2002) era outro craque. Como poucos, sabia mesclar realidade e ficção em seus romances. O best-seller 'Hilda Furacão', lançado há 23 anos, provou isso. A personagem principal, garota linda, elegante e rebelde que trocou a vida de luxo da Zona Sul de BH pela zona boêmia, inspirou-se em várias moças da tradicional BH dos anos 1940/1950. A ex-prostituta Hilda Valentim era uma delas – e emprestou seu próprio nome ao mito.

Outros personagens do livro também vieram do mundo real, como o milionário Antônio Luciano Pereira Filho, dono do Hotel Financial, interpretado por Stênio Garcia na TV. Mas Hilda Valentim nunca foi rica nem frequentou o Minas Tênis Clube, point da alta sociedade belo-horizontina nos anos 1950.

 

RAMON LISBOA/EM/D.A PRESS
Hilda Maia Valentim lê a série de reportagens do Estado de Minas sobre o seu caso de amor com o craque Paulo Valentim (foto: RAMON LISBOA/EM/D.A PRESS)
Sensação


Em julho, o furo de reportagem do Estado de Minas sobre a vida de Hilda Valentim em Buenos Aires chamou a atenção do Brasil. Jornais e sites de todo o país contaram a história da mulher do craque Paulo Valentim. Glória Perez, que transformou o romance em minissérie da TV Globo, manifestou-se diversas vezes nas redes sociais. “Roberto Drummond ia adorar isso”, comentou ela. Só em 29 de julho, dois dias depois da publicação da primeira reportagem da série, registraram-se 5 mil compartilhamentos da matéria nas redes sociais.

 

Reveja a entrevista de Hilda Furacão concedida com exclusividade ao Estado de Minas:

 

 

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