Sebastião Salgado faz chamado à ação para salvar o planeta

O fotógrafo documentarista viajou para mais de cem países, documentando alguns dos maiores horrores do mundo moderno

por AFP - Agence France-Presse 17/12/2014 10:29

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Divulgação
(foto: Divulgação)
O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado deu a volta ao mundo para documentar os extremos da globalização, da migração e territórios não mapeados, mas se mostra mais incomodado pela pilhagem irresponsável que a humanidade faz do planeta, uma visão que ele considera mortalmente estreita.

Em visita a Hong Kong para promover 'Gênesis', uma exposição de fotos, resultado de uma expedição de oito anos ao redor do mundo, o fotógrafo de 70 anos afirmou que o ímpeto humano em subjugar a natureza está levando a Terra à beira da extinção.

"Se não nos voltarmos para o nosso planeta, não permaneceremos aqui por muito tempo", disse Salgado em entrevista à AFP. "Não somos mais parte do nosso planeta, nós viramos alienígenas", prosseguiu.

O fotógrafo documentarista viajou para mais de cem países, incluindo Ruanda, Guatemala e Bangladesh documentando alguns dos maiores horrores do mundo moderno: a fome, a guerra, a pobreza e o deslocamento.

Seus retratos dramáticos de paisagens remotas, dizimadas e vulneráveis ou de comunidades exploradas - como trabalhadores de cemitérios de navios em Bangladesh a garimpeiros no Brasil - inspiraram gerações de fotógrafos.

Criado no interior de Minas Gerais, Salgado se formou em Economia antes de se voltar para a fotografia. Começou a fotografar na casa dos 20 anos com uma câmera emprestada pela esposa e, embora só mais tarde tenha se dedicado a esta profissão, ele sabia desde o princípio ter encontrado sua vocação. "Desde a primeira vez em que eu olhei através de um visor, a partir daquele momento, minha vida mudou", contou Salgado.

Humanos predadores

Ele virou profissional no começo dos anos 1970 e desde então ganhou uma avalanche de prêmios de prestígio e suas fotos passaram a compor os acervos de galerias importantes, como a Barbican Gallery, em Londres, e o International Center of Photography, em Nova York.

No final dos anos 1990, ele foi forçado a fazer um intervalo, após cobrir o genocídio em Ruanda, onde documentou inúmeras mortes, uma experiência que teve um alto preço psicológico.

Salgado lembra do mau cheiro assolador dos cadáveres em decomposição enquanto observava pilhas de corpos sendo depositadas no chão por retroescavadeiras, uma visão que se fixou em sua memória. "Eu comecei a morrer, meu corpo começou a adoecer", afirmou. Para se recuperar, ele decidiu voltar à fazenda no Brasil, onde passou sua infância.

"Eu cresci numa área montanhosa. Eu lembro que meu pai caminhava comigo pelas plantações, andávamos até a parte mais alta da fazenda e sentávamos ali por horas vendo aquelas incríveis nuvens, as luzes passando por elas. Era grandioso", relatou.

Mas, para seu pavor, os lagos tinham secado e grande parte da floresta tropical tinha sido derrubada pelo desmatamento. Quando seu corpo e mente começaram a se curar, ele decidiu, ao lado da esposa, Lélia, replantar a floresta que existiu ali um dia.

"Hoje, nós plantamos mais de 2,5 milhões de árvores, a floresta tropical voltou. Salvamos as onças, temos mais de 170 espécies diferentes de aves", contou. Marido e mulher gerenciam a Amazonas Images, que controla a pesquisa, a produção e a publicação das fotos de Sebastião Salgado.

As espetaculares fotos de natureza de Salgado - pinguins deslizando por geleiras, um babuíno solitário cruzando dunas de areia, água gotejando da cauda de uma baleia - são acompanhadas pelas duras críticas aos seres humanos, aos quais ele descreve como "profundos predadores".

"Começamos a destruir tudo, começamos a domesticar o gado e a colocá-lo numa prisão, nós o criamos às dezenas de milhares e milhões (de cabeças) para que possamos comê-lo", exemplificou. Sua assombrosa coleção de imagens é amplamente considerada um chamado à ação para que os seres humanos preservem o que ainda têm.

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