BH se conscientiza sobre preservação da memória das artes cênicas

Galpão já criou unidade de pesquisa e Teatro Marília vai abrigar centro documental

por Carolina Braga 17/12/2014 08:00

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Tatiana Rocha/divulgação
(foto: Tatiana Rocha/divulgação )
"Quem está mais vivo, Shakespeare ou Vianinha?”, pergunta a produtora Soraya Handam. A própria agenda cultural de BH responde: Hamlet, em montagem fiel do grupo britânico Shakespeare’s Globe Theatre, ficou em cartaz recentemente na cidade, enquanto obras do autor brasileiro há muito não são encenadas por aqui. Além de apontar a fragilidade de nossa cultura, isso demonstra o quanto a memória da dramaturgia e do teatro brasileiros está jogada às traças.

A jovem Belo Horizonte, que acaba de completar 117 anos, nunca deu valor ao registro da história de suas artes cênicas. Agora, felizmente, observa-se uma espécie de despertar. O lançamento do documentário 'Primeiro sinal – a história do teatro de Belo Horizonte – dos primórdios a 1980', com direção de Chico Pelúcio e Rodolfo Magalhães, chamou a atenção para uma série de ações voltadas para a memória dos palcos. Isso inclui o tombamento das artes cênicas de Belo Horizonte como patrimônio imaterial e a realização de uma exposição no Museu Histórico Abílio Barreto.

Embora nem todos os projetos sejam coordenados, eles têm um propósito: preservar memórias. Com esse espírito, ainda no início de 2015, será apresentado o embrião do Centro de Informação, Documentação e Pesquisa do Teatro e da Biblioteca das Artes Cênicas de Belo Horizonte. Ele vai funcionar no mezanino do Teatro Marília, que já abrigou a Galeria Guignard e o Bar Stage Door. A Fundação Municipal de Cultura (FMC) nomeou Cássio Pinheiro, Fabíola Ribeiro Farias e Walmir José para a comissão encarregada de elaborar o primeiro plano de ação do centro.

“A ideia é fazer o levantamento do acervo desses 100 anos de produção de teatro e dança na capital”, diz o diretor Cássio Pinheiro, responsável pelo setor de artes cênicas da FMC. Estão previstas a montagem de uma biblioteca, a organização de acervo documental e exposições periódicas. Nos últimos meses, Pinheiro foi procurado por famílias de artistas. Elas querem dar destino a acervos que guardam em casa.

“Roberta Luchini, filha do Ronaldo Boschi, nos procurou. Ele guardava matérias de jornais de todos os colegas de sua geração”, conta. O acervo de bonecos e adereços de Neusinha Rocha também foi oferecido pelos familiares. “Justamente porque nosso teatro é muito recente, nunca tivemos preocupação com a memória. Até pouco tempo, os pioneiros estavam vivos. Entretanto, aqueles que tinham a história na boca já não estão mais aqui, então, surge a necessidade de registrar as coisas”, explica Vinicius Souza, um dos idealizadores do projeto Janela de dramaturgia e corroteirista do documentário Primeiro sinal – a história do teatro de Belo Horizonte – dos primórdios a 1980.

SINTONIA Se a capital mineira desperta para a importância de registrar a memória de seu teatro, é preciso atenção para que tais ações realmente sejam eficazes. “Quando a fundação fala em criar o centro, fico pensando se há a possibilidade de, em vez de sair do zero, estabelecer parceria com o Galpão Cine Horto. Dizer pra gente: ‘vamos transferir o acervo de vocês para o Marília’, e garantir o bom funcionamento, inclusive oferecendo o que não conseguimos ter hoje. Nunca conversamos sobre isso. Seria de bom senso essa conversa”, defende Chico Pelúcio, ator do Galpão e diretor-geral do Cine Horto.

Para Cássio Pinheiro, mesmo que o Centro de Informação seja embrionário, ele nasce com a ideia de interligar bibliotecas e projetos em rede. A proposta inclui as coleções do Teatro Universitário da Universidade Federal de Minas Gerais e do Palácio das Artes. A Fundação Municipal de Cultura se empenhará no apoio tecnológico à iniciativa.

No espaço mantido há 15 anos pelo Galpão num antigo cinema da Região Leste, desde dezembro de 2005 funciona o Centro de Pesquisa e Memória do Teatro (CPMT). Talvez essa seja uma das ações mais organizadas do setor em BH. Ele surgiu para sistematizar e disponibilizar ao público a memória da companhia. Era hábito da atriz Wanda Fernandes, já falecida, fazer o diário das apresentações. Tudo era anotado em cadernos: do número de espectadores a curiosidades que marcaram cada sessão.

Como a demanda de atores, estudantes e pesquisadores é grande, o CPMT cresceu a ponto de os documentos do Galpão ocuparem uma estante em meio a outras iniciativas. Atualmente, o grupo mantém um selo editorial, que publica a revista Subtexto; o portal Primeiro sinal, especializado em artes cênicas; e uma videoteca com registros de várias companhias.

“Essa possibilidade nos obrigou a criar, desde o início do processo das peças, uma metodologia para documentá-las”, explica Chico Pelúcio. Há planos de fazer, do centro, entidade independente do Galpão Cine Horto. Isso melhoraria as chances de obter apoio financeiro.

O documentário 'Primeiro sinal – a história do teatro de Belo Horizonte – dos primórdios a 1980' nasceu no CPMT. Para alimentar o portal na internet, Vinicius Souza começou a gravar depoimentos com personagens. O material estava tão rico que decidiu-se ampliá-lo e transformá-lo em filme. Chico Pelúcio e Rodolfo Magalhães dividiram a direção. A versão final do documentário tem cerca de uma hora. Mais extenso, todo o material bruto será disponibilizado.

Uma das tarefas mais árduas foi conseguir imagens ilustrativas do que os estrevistados contavam. “Procurei no acervo do Palácio das Artes uma foto do João Ceschiatti e não tinha. Mas lá há uma sala com o nome dele”, conta Marcos Coletta, colaborador do roteiro do filme.

O nó do financiamento

A grande dificuldade de projetos voltados para a memória é disputar patrocínio. Que o diga a produtora Soraya Handam. Quando lançou a coleção Teatro brasileiro, em 1997, não havia publicações regulares de dramaturgia no país. Foram distribuídos 18 mil exemplares dos seis volumes, com textos de 24 autores. A iniciativa foi interrompida em 2005 por dificuldade de financiamento.

“Não é um projeto comercial, é um programa estrutural”, explica Soraya, que analisa o surgimento das leis de incentivo sob dois pontos de vista. O mecanismo promoveu organização do setor. Ao mesmo tempo, o poder público, antes responsável pelo fomento, terceiriza essa função. “Ao colocar a responsabilidade da política cultural da nação na mão do mercado, você cria um instrumento perverso. Em última instância, quem define a produção cultural é o departamento de marketing das empresas”, observa.

Soraya Handam explica que programas estruturais fundamentais ficaram perdidos em meio à feroz competição por patrocínios. Ela tem vontade de retomar a coleção, mas em outras condições.

TERCEIRO SINAL

A mostra Terceiro sinal, em cartaz no Museu Histórico Abílio Barreto (Avenida Prudente de Morais, 202, Cidade Jardim), reúne cartazes, figurinos e reportagens sobre espetáculos produzidos em BH. O espaço funciona de terça-feira a domingo, das 10h às 17h. Às quartas e quintas-feiras, o horário é estendido até as 21h.

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