Marcelo Gabriel estreia manifesto sensorial as instituições em 'Cena mecânica'

Sozinho no palco, ator interpreta a montagem na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa

por 05/12/2014 11:00

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 Daniel Mansur/Divulgação
(foto: Daniel Mansur/Divulgação)
A ficha técnica de Cena mecânica enumera as funções de Marcelo Gabriel no espetáculo, além de único ator no palco: direção geral, concepção, texto, dramaturgia, coreografia, trilha sonora, iluminação, vídeo, figurino e maquiagem. Ele precisa ser muitos para ser um só, afirmar sua individualidade. O novo espetáculo do fundador da Companhia de Dança Burra dá sequência a um projeto radical: fazer pensar com as emoções e recuperar o potencial crítico da arte.


Os espetáculos de Marcelo Gabriel não são fáceis. Ele exige tanto do público como de si mesmo. Sem medo de pensar seu tempo, suas obras para o palco articulam muitos estratos de expressão, do teatro à dança, da música ao vídeo, da performance à instalação. Sempre há uma ideia por trás, uma vontade política de interferir no mundo por meio do próprio corpo. Por vezes, há um choque com o espectador. É da fricção que periga nascer a luz.

Em Cena mecânica o ator tem como plataforma de seu discurso crítico a sacralização das instituições, como o Estado, as leis e o mercado. Tudo se interliga: “São elementos endossados pela indústria da fé, da cultura e da informação”. Nada fica de fora do desejo de profanação, o que repercute a trajetória do artista.

“Em meu primeiro espetáculo solo, Dança burra, de 1987, destruí uma escultura de minha autoria, perfurando-a com o meu corpo. Assim inaugurei minha pesquisa em quedas. Hoje, mantendo-me na vertical, volto a interpretação.” Em Cena mecânica ele incorpora simultaneamente cinco personagens que dialogam entre si.

Como em seus outros espetáculos, em Cena mecânica o ator mescla teatro físico, intervenções em vídeo, música eletrônica e artes visuais. A intenção é mobilizar os sentidos, provocando uma “hiperestesia sensorial”. Mais que reafirmar uma técnica expressiva pessoal, o ator pretende ir ainda mais longe: quer pôr o público em contato com uma dimensão onírica, que aponte para a libertação das cadeias que o aprisionam. O sonho não é fuga, mas caminho.

Sozinho Marcelo se sente bem sozinho no palco. “É a maneira de preservar minha integridade artística. Necessito dessa imersão solitária para ativar percepções profundas, que constituem a base da criação.” A opção tem também função dramatúrgica, já que permite ao artista inventar personagens. Solitário, Marcelo parece convocar o diálogo com outras dimensões de sua formação. Um aprofundamento do trabalho de ator, que explora assim dimensões afetivas, físicas e psíquicas.

Para o público parece haver na obra de Marcelo Gabriel uma dicotomia entre o trabalho do ator e do bailarino, talvez pelo fato de ter iniciado sua trajetória com a criação da Companhia de Dança Burra. Além disso, em seus espetáculos há sempre uma atenção à coreografia e aos movimentos em cena. Mas o artista não quer saber de classificações esquizofrênicas. “A potência do ato criativo se manifesta na transcendência do conceito. Em sua totalidade, abarca todas as formas de expressão de maneira interligada e complementar.”

Quem se dispõe a assistir aos espetáculos de Marcelo Gabriel precisa comungar de sua visão de arte. “Ela não se enquadra em nenhum sistema de valores preconcebidos, nenhuma forma institucional de edital patrocinado por burocratas de plantão, nenhuma mentalidade estreita e provinciana de conduta, nenhuma medida populista rasa”, ataca. Tente dizer isso com o corpo e você vai entender onde Marcelo Gabriel quer chegar.

Cena Mecânica
Com Marcelo Gabriel. Amanhã, às 21h, no Teatro da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, Praça da Liberdade, 21, Funcionários. Ingressos: R$ 14 (inteira) e R$ 7 (meia). Duração: 50 minutos. Informações: (31) 3269-1226.

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