Shakespeare's Globe Theatre faz duas apresentações de Hamlet em Belo Horizonte

Montagem inglesa faz parte de turnê que vai passar por todos os países do mundo

por Carolina Braga 30/11/2014 14:00

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Helena Miscioscia/Divulgação
(foto: Helena Miscioscia/Divulgação)
Intérprete de Hamlet, o ator inglês de origem paquistanesa Naeem Hayatm não faz cerimônias. O maior desafio? “Encontrar um tempo para dormir”, responde em tom de brincadeira. Claro que o esgotamento não se refere diretamente ao fato de viver no palco o maior personagem do teatro em todos os tempos. É que Hayatm e todos os integrantes da Shakespeare’s Globe Theatre estão mesmo metidos em uma empreitada ousada – e cansativa –, a turnê Globe to Globe. Nenhum país ficará de fora. Serão visitadas 205 nações até 23 de abril de 2016.

Belo Horizonte será a terceira cidade brasileira a ver a montagem. Nos dias 3 e 4 de dezembro, 12 atores encenam os tormentos do príncipe da Dinamarca no Sesc Palladium. O Brasil é o 61º país a assistir à montagem da companhia inglesa, que daqui seguirá para a Venezuela e finalizará por lá o périplo entre os países das Américas e Caribe. No ano que vem, a volta ao mundo recomeça por Portugal antes de partir para a África.

'Hamlet' foi mesmo “o” personagem deste ano nos palcos de Belo Horizonte. Depois da marcante montagem do grupo alemão Berliner Ensemble, para o clássico de William Shakespeare, durante o FIT-BH, em maio, agora é a hora de conferir a versão que promete ser ainda mais fiel aos preceitos do Bardo. Isso porque a Shakespeare’s Globe Theatre é a companhia oficial do centro cultural londrino dedicado à preservação da obra do dramarturgo. Se as comparações serão inevitáveis, um aviso: são montagens com portes completamente distintos.

Ambas as companhias são conhecidas pelo rigor das interpretações. O Berliner fez uma aposta clara na ostentação de cenários e figurinos. O Globe escolhe o caminho da simplicidade, até por uma questão de logística. “É uma verdadeira celebração de Shakespeare e 'Hamlet' da maneira mais acessível e sem imponência”, apresenta Ladi Emeruwa, o ator nigeriano que reveza com Naeem Hayatm a interpretação do personagem central.

A produtora argentina Malú Ansaldo trabalha desde 2012 no Globe Theatre. Começou nos bastidores das Olimpíadas Culturais realizadas em Londres e logo emendou os preparativos para a turnê mundial. Como conta, todos os elementos de cena viajam com o elenco, em uma montanha de baús. “A montagem foi desenhada para ser assim. Não que não seja de alta qualidade, mas a ideia era lembrar as companhias que viajavam na época de Shakespeare”, conta.

A direção deste 'Hamlet' é assinada pela dupla Dominic Dromgoole e Bill Buckhurst. O texto é o original, mas o Globe tem uma forma de fazer a obra ligada à tradição shakespeariana. A não ser Naeem Hayatm e Ladi Emeruwa, que se revezam no papel-título, os demais atores do elenco interpretam vários personagens em rodízio permanente. Chegam a fazer até três papéis diferentes. “A cada sessão, são combinações distintas”, informa Malú. O que não deixa de ser um belo exercício. São duas horas e 40 minutos de espetáculo e mais 20 minutos de intervalo e, ainda assim, é considerada uma versão reduzida da peça.

Universal


Malú conta que a escolha da montagem que circularia o mundo foi tema de grades discussões no Globe. “Pensamos muito em qual poderia ser a obra mais representativa”, lembra a produtora. A conclusão foi a de que, além de mais conhecida no mundo inteiro, os temas tratados por 'Hamlet' são mais universais. “Trata das qualidades do ser humano, por isso pensamos ser a obra mais atual”, completa. Isso sem falar na densidade dramática que oferece a seus intérpretes.

“Hamlet, para mim, é um homem incrivelmente brilhante, engraçado e afiado. É um jovem com paixão pelo conhecimento”, define Ladi Emeruwa. Para Naeem Hayatm, uma das características que fazem esta montagem especial é o caminho escolhido pelo Globe para se aproximar da plateia. “Fala diretamente com o público e, para mim, se a plateia entrar no jogo, será algo memorável. Há uma conexão divertida e honesta entre os atores no palco e o público”, comenta Naeem.

Como ele ressalta, muitas vezes Hamlet é abordado como um dos personagens mais conflituosos e instáveis. Um equívoco: “Na verdade, acho que no coração dele estão preocupações, problemas e desejos que todos nós temos”. É um jogo cênico que tem tudo. Em essência, pode ser considerado um drama familiar misturando amor, poder, política e amizade. “Teremos isso hoje e sempre, porque são problemas muito humanos”, completa Hayatm.

Sob a inspiração do Bardo


A montagem de 'Hamlet' do Shakespeare’s Globe Theatre em Belo Horizonte faz parte da Mostra Gandarela Cultural 2014, promovida pelo Instituto Gandarela, em cuja sede, em Rio Acima, na região metropolitana, está prevista a construção do Globe Theatre no Brasil. A vinda da produção internacional é uma parceria com o projeto Teatro em Movimento. Entre 1º e 7 de dezembro, serão apresentados espetáculos, shows, exposições, mesas de conversa, além de sessões de cinema, encontros literários e oficinas. As atrações estão espalhadas por Belo Horizonte, Sabará e Rio Acima.

A programação, com curadoria dos atores Fernanda Vianna e Rodolfo Vaz, traz montagens brasileiras para textos de Shakespeare – 'Ricardo III' (RJ), de Gustavo Gasparani e Sérgio Módena, 'Romeu e Julieta em cordel' (RJ), de Aramis Trindade, e 'Como a gente gosta' (MG), do Grupo Maria Cutia – e adaptações. 'Se essa rua fosse minha, um solo de Macaxeira' (MG), de Denise Lopes Leal, por exemplo, se inspira na personagem Lady Macbeth. O único espetáculo da programação que não tem ligação com o universo de Shakespeare é o musical 'Sinfonia para um homem só' (MG), de Geovane Sassá.

“Temos teatro de rua e um 'Romeu e Julieta em cordel'. 'Ricardo III' será apresentado em versão impensável para monólogo, com Gustavo Gasparini representando 21 papéis do texto original. Ou seja, a palavra é acionada em formas diversas. Até mesmo em 'Hamlet'. É uma montagem muito simples, que também tem a ver com o verbo, a palavra”, sintetiza Mauro Maya, idealizador e diretor do Instituto Gandarela. Com exceção da montagem do Globe Theatre, todas as outras atrações da mostra têm entrada franca.

Da praia ao palácio

A turnê Globe to Globe começou em 23 de abril de 2014, dia do aniversário de 450 anos de Shakespeare. A ideia de viajar por todos os países do mundo é uma forma de homenagear o dramaturgo, autor de Macbeth, Rei Lear e Othelo. Até 23 de abril de 2016, a companhia se apresentará em praças de pequenos vilarejos a teatros nacionais, de praias a palácios, viajando de barco, trem, automóvel, navio, ônibus e avião. Shakespeare teria experimentado algo similar em 1618, quando seguiu em turnê pelo Norte da Europa, em busca de novo público para seu Hamlet.

HAMLET, DA SHAKESPEARE’S GLOBE THEATRE
Dias 3 e 4 de dezembro, quarta e quinta-feira, às 20h. Grande Teatro Sesc Palladium, Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro, (31) 3270-8100. Plateia 1, R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia); plateias 2 e 3, R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia).

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