Chega a BH 'Belle', espetáculo da companhia de Deborah Colker

Montagem é inspirada em 'Belle de jour', clássico de Joseph Kessel

por Ana Clara Brant 21/11/2014 07:30

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Flávio Colker/Divulgação
(foto: Flávio Colker/Divulgação)
Nunca um espetáculo de Deborah Colker foi tão erótico e sensual. Por incrível que pareça, em pleno terceiro milênio, o sexo ainda é tabu em nossa sociedade. “Ainda não conseguimos olhar com naturalidade nossa persona erótica, sem vulgaridade ou sem preconceito”, afirma a coreógrafa, para quem o erotismo é uma condição humana. “Ele é nossa carne, nossa inteligência sexual e nossa expressão instintiva e sensual. O erotismo é metáfora e representação de nossos sentidos, nossas percepções e de nosso inconsciente”, analisa, explicando que a dança começa no corpo e traduz a respiração, a dinâmica e a inteligência desse corpo. “E o erotismo faz parte dela”, completa a carioca, que vem a Belo Horizonte no fim de semana com sua companhia para apresentar o espetáculo Belle.


A produção, que estreou em junho no Rio de Janeiro, e encerra a temporada justamente na capital mineira, no Palácio das Artes, é livremente inspirada em 'Belle de jour', livro do escritor franco-argentino Joseph Kessel, lançado em 1928, que serviu de base também para o clássico do cinema 'A bela da tarde', de Luís Buñuel, estrelado pela atriz francesa Catherine Deneuve.

A leitura do romance seduziu Deborah em 2011, pouco depois da estreia de seu espetáculo 'Tatyana'. Para ela, a obra de Kessel é um mergulho profundo na alma de uma mulher que tem tudo: um lar, um marido, um amor, uma vida social, mas há um buraco em sua vida. “Falta algo desconhecido, profundo, um vazio que precisa ser preenchido. E ela atende ao chamado implacável do instinto, experimenta um diálogo entre instinto e razão, entre carne e amor, entre sexo e alma. Ela sabe que precisa atravessar um caminho desconhecido e penetrar em outro mundo”, explica. A coreógrafa e diretora da companhia diz que o que mais a encantou foi a história de amor, de busca, e também sobre a impossibilidade da coexistência desses dois mundos, tão essenciais a qualquer indivíduo. “É um livro que lança um olhar humano e emocionante sobre o que há de mais primitivo na condição humana”, frisa.

Duplo materializado
Deborah Colker decidiu dividir Séverine e Belle. Na montagem, elas são interpretadas por bailarinas diferentes, como se fossem personagens distintas. A primeira é uma mulher que teve educação burguesa e, possivelmente, católica. Sendo assim, foi regida pela moral e pelos bons costumes e seus desejos transgressores a conduzem a um sentimento de culpa. “Séverine é sistemática, metódica, contida, fria, embora seja uma mulher que ama e tem uma necessidade imperativa e a coragem de seguir seus instintos. Já Belle é seu duplo, sua intensidade, seu lado animal e erótico, que também ama. No meu espetáculo, Séverine é vivida por uma bailarina e Belle por outra, pois é tão expressiva e intensa a presença das duas, que, para mim, foi necessário materializar esse duplo no corpo de duas bailarinas. Fazer com que cada parte dessa dualidade se investisse de um corpo próprio, que tivesse seus próprios movimentos. Essa é uma escolha totalmente minha. No livro, as duas são a mesma mulher, assim como no filme de Buñuel”, declara.

O primeiro ato de 'Belle' parte da insatisfação da protagonista em seu casamento e se encerra com a chegada dela ao bordel. O segundo se passa todo no bordel, com bailarinas trocando as sapatilhas por sapatos de salto alto.

Um dos pontos que mais chamam a atenção na produção é a trilha sonora, que traz desde Miles Davis a Velvet Underground, passando pela música eletrônica feita pelo compositor Berna Ceppas. Deborah diz que a letra do rock que foi utilizada fala de uma mulher que, não por acaso, chama-se Severin, como a personagem de Kessel. “É uma música muito sofisticada. E as composições do Berna também evocam esse contraste entre delicadeza e violência, ruído e silêncio”, analisa.

A cenografia é assinada por Gringo Cardia, com a iluminação de Jorginho de Carvalho. Já o figurino é de Samuel Cirnansck e a maquiagem de Celso Kamura. Os cenários contemplam escadas e cortinas, entre outros objetos.

Viagem sem volta

No processo de criação de 'Belle', Deborah Colker enfatizou o tema abordado e, sobretudo, definiu a quebra de paradigmas. A coreógrafa conversou com os bailarinos sobre a importância de ler sobre o assunto, ver filmes, refletir sobre outros mundos e quebrar o clichê do erotismo banal e da pornografia estereotipada. “Cada um de nós pode reconstruir seu universo instintivo. E, para isso, era importante a experiência com as pontas e os saltos altos – um fetiche –, com trajes e adereços diferentes dos mundos de Belle e Séverine e, principalmente, poder encontrar a beleza intrínseca a cada um desses dois mundos”, acredita. Deborah defende a ideia de que estar nu não significa simplesmente tirar a roupa, é algo muito mais profundo. “Sabemos que existem pessoas da noite, strippers, prostitutas, que são supermoralistas”, ressalta.

O erotismo está presente na coreografia de 'Belle', no embate entre razão e instinto, carne e amor, sexo e alma, delicadeza e intensidade, real e maginário, racional e visceral. “Para mim, não importa se essa mulher foi a um bordel, se aquilo é uma casa de prostituição, o que importa é a viagem para dentro do mundo escondido dela”, complementa.

'Belle' percorreu várias cidades do Brasil e do exterior e provocou reações das mais diversas nas plateias. No geral, o público adora o espetáculo, principalmente o primeiro ato. No entanto, Deborah percebeu certo “incômodo” em alguns lugares. “Por causa da sensualidade e da carga de sexualidade trazida pela montagem. Mas, isso é bom, mexe com questões de casamento, sociedade, com todos os tabus”, afirma a coreógrafa.

Em 2015, a companhia Deborah Colker voltará com temporada popular de 'Belle' no Rio e fará também turnês pelo Nordeste do Brasil, pelo Chile e pela Ásia.


Belle
Espetáculo da Companhia de Dança Deborah Colker. Amanhã, às 21h, domingo, às 19h. Grande Teatro do Palácio das Artes, Av. Afonso Pena, 1.537, Centro. Ingressos: de R$ 45 a R$ 90. Informações: (31) 3236-7400. Classificação etária: 14 anos

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