Mostra 'Ciclo' reúne obras que dão novo significado a objetos industrializados

Exposição que será aberta quarta-feira no CCBB conta com artistas de 11 países

por Walter Sebastião 17/11/2014 07:20

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Joana França/Divulgação
O chinês Song Dong vai construir maquete de BH feita com biscoitos. Público está convidado a comer a obra (foto: Joana França/Divulgação)
“Estamos bêbados de excesso, vivemos montados em uma montanha de objetos. O que instala crise humana, no sentido psicológico, existencial e nas relações interpessoais”, observa Marcello Dantas. Opulência que é dimensão estrutural da vida contemporânea, que ganhou, inclusive, nova escala com a presença da China no mercado. A questão não passa despercebida pelos artistas. Criadores de todo o mundo têm feito arte com materiais ou objetos industriais. São obras que ironizam, dramatizam, fazem refletir ou dão novos sentidos a cenário posto diante das pessoas.

Marcello Dantas se refere à exposição 'Ciclo – Criar com o que temos', que será aberta quarta-feira, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), da qual é o curador. “É reflexão sobre a cultura do excesso”, afirma. A mostra reúne artistas de 11 países, jovens e veteranos, que criaram esculturas e instalações com parafernálias que fazem parte do cotidiano. Estão na exposição, por exemplo, trabalho com 750 mil copos descartáveis; e outro que utiliza 25 mil absorventes internos. Setecentos pneus de caminhão, 100 mil palitos de dente e centenas de quilos de doces também foram utilizados para fazer arte. A mostra foi vista por 400 mil pessoas em São Paulo e, depois de BH, segue para Brasília.

“Hoje, tudo é superlativo. Essa situação impõe aos artistas observação sobre a produção em massa”, analisa Dantas. Os números são impressionantes quando se sabe que a prática de fazer arte a partir de objetos industriais teve início há um século, com o francês Marcel Duchamp (1887-1968), mostrando um mictório de louça em galeria de arte. “É estrada aberta no século 20, mas Ciclo é exposição sobre o hoje”, afirma o curador. Ele conta que priorizou obras que usam os objetos reais, e não apenas objetos que os representam, até para evidenciar a resignificação feita pelos artistas.

O espectador pode explorar os trabalhos de acordo com sua sensibilidade. “Não criei narrativa fechada”, explica Dantas. A escolha dos trabalhos valoriza a intuição, considerada por ele importante instrumento na fruição artística. As pessoas devem se surpreender com o que os artistas fizeram com os materiais utilizados. Um exemplo: no dia 29, às 10h, o público será convidado a comer uma maquete de Belo Horizonte, construída com dezenas de quilos de biscoitos e doces, obra do chinês Song Dong.

Marcello Dantas tem 46 anos e vem fazendo curadorias há 25. Já assinou dezenas de projetos, entre institucionais (Museu da Língua Portuguesa), temáticos (História da Televisão e Bossa Nova), sobre personalidades (Pelé e Roberto Carlos) ou mostras de artistas plásticos prestigiados na cena contemporânea – Anish Kappor, Tunga, Jenny Holzer, Laura Vinci.

“Especializei-me em contar histórias, não importa quais”, afirma. “Minha motivação, ao fazer curadoria de uma exposição, é construir público para ela, é formar público, o que é sempre um desafio. Para trazer mais gente para o circuito de mostras, o essencial é tirar a arrogância desses eventos e fazer com que as pessoas se sintam empoderadas, que tomem posse da exposição”, argumenta.

O curador ficou conhecido pelo intenso uso de recursos tecnológicos nas exposições que tem organizado. Para ele, essa é uma opção que renova as instituições, que vivem processo de estagnação. “Hoje, considero que o uso da materialidade aliada à tecnologia é o que há de mais inovador. Não somos tão matéria e nem tão virtuais”, afirma, considerando importante contemplar os dois lados da vida.

Pintura

Leva o nome de 'O sol me ensinou que a história não é tão importante' – frase do escritor Albert Camus –, a instalação do carioca Daniel Senise, único brasileiro na mostra Ciclo. Ele transformou catálogos de exposições de diversos centros culturais e eventos em placas de papier-machê, que cobrem paredes da sala de exposição. “É comentário sobre a arte”, observa Senise, saboreando tensão criada por sala branca, feita com material que só se sabe qual é lendo a ficha da peça.

Daniel Senise não afasta seu trabalho da linguagem que fez dele artista respeitado: a pintura. Define a obra como superfície posta ao olhar, além de colocá-la sob o conceito de pintura expandida. Aproxima O sol… a outra criação, de 1995, quando mostrou lençóis usados de hospitais e motéis. Ou a parede de tijolos construída em torno de uma escultura de Victor Brecheret, um dos fundadores do modernismo brasileiro.

As obras do artista brasileiro alimentam uma discussão sobre a pintura, que o levou, desde 1986, a sonhar com obras feitas sem uso de pincel e tintas. “Isso não é o essencial da pintura”, argumenta Daniel Senise. Para ele, o mais importante é a relevância do que o artista tem a dizer, o que determina, inclusive, os meios que devem ser utilizados na realização dos trabalhos.

Os artistas

Daniel Canogar (Espanha)
Daniel Rozin (EUA)
Daniel Senise (Brasil)
Douglas Coupland (Canadá)
Michelangelo Pistoletto (Itália)
Julia Castagno (Uruguai)
Lorenzo Durantini (Itália)
Michael Sailstorfer (Alemanha)
Pedro Reyes (México)
Petah Coyne (EUA)
Ryan Gander (Inglaterra)
Song Dong (China)
Tara Donovan (EUA)
Tayeba Begum Lupi (Bangladesh)

Terceiro paraíso

A mostra 'Ciclo' em Belo Horizonte ganha obra de autor histórico da arte contemporânea: o italiano Michelangelo Pistoletto, de 81 anos. Ele é uma das referências quando se fala em arte povera (que trabalha com materiais pobres, precários e descartáveis). Ele vai ocupar o pátio do CCBB com escultura criada com sucata de ferro, que faz alusão ao infinito. O trabalho leva o nome de 'Terceiro paraíso'. É especulação sobre mundo distinto do natural (o primeiro paraíso) e do artificial (segundo paraíso), equilibrando ambos e afirmando valores espirituais, a liberdade e a responsabilidade social.

Depoimento

Tara Donovan
Artista norte-americana


“Não posso falar dos motivos que levam outros artistas a usarem cada vez mais materiais reciclados e cotidianos, mas acho que tem a ver com o fato de vivermos em uma cultura na qual estamos constantemente inundados com objetos produzidos em massa, que têm funções específicas. Na minha prática, procuro subverter as relações das pessoas com itens de uso diário, a fim de abrir outra esfera de apreciação estética, que tem o potencial para uma reflexão sublime.”

Ciclo – Criar com o que temos
Exposição coletiva com curadoria de Marcello Dantas. Aberta ao público a partir de quarta-feira. Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), Praça da Liberdade, 450, Funcionários, (31) 3431-9400. De quarta-feira a segunda, das 9h às 21h, até 29 de janeiro. Entrada franca.

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