Diretor Pedro Paulo Cava comemora 50 anos de dedicação ao teatro de BH

Ao se descobrir 'péssimo ator', ele passou a montar peças de sucesso na cidade, como Mulheres de Hollanda

por Carolina Braga 16/11/2014 00:13

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Euler Júnior/EM/D.A Press
Pedro Paulo Cava no Teatro da Cidade: investimento que mudou toda uma carreira (foto: Euler Júnior/EM/D.A Press)
A lembrança é de um almoço domingueiro, em 1958. O pai, em conversa com o escritor João Guimarães Rosa, pede um conselho sobre o futuro do herdeiro. “Esse meu filho é muito inteligente, mas muito levado. Tenho vontade de que ele tenha uma profissão de curso superior. Queria que fosse advogado, porque médico ele não vai ser, nem engenheiro, porque não sabe fazer conta”, comenta Samuel. “Põe o seu filho para estudar línguas. Prometo: quando ele tiver a idade certa, ajudo-o a entrar no Itamaraty para ser diplomata”, responde Guimarães.


A cena é narrada pelo diretor Pedro Paulo Cava com riqueza de detalhes. Nascido em 1950, ele tinha 8 anos quando ouviu a conversa do pai com o amigo. Quando o autor de Grande sertão: Veredas faleceu, ele estava com 17. Mesmo falando inglês, russo, francês, esperanto, alemão, italiano e espanhol, o rapazinho já havia trocado o Itamaraty pelo palco – e bem antes da tal idade certa. “Vou viver de teatro em Belo Horizonte”, decidiu.

De fato, Pedro Paulo nunca se afastou muito da capital mineira. Em meio às recordações e comemorações de seus 50 anos de carreira, o diretor anuncia: está escrevendo um livro de memórias. A ideia não é lançá-lo em formato tradicional, mas em versão on-line para que os leitores possam acrescentar, corrigir e até mesmo colaborar com histórias. A produção dos primeiros textos já começou, mas não há data de lançamento.

Na década de 1960, o então morador da Rua São Paulo, ao lado da badalada Galeria do Ouvidor, frequentava o grupo de esquerda Juventude do Centro (Jucen), ligado à Igreja São José, que, por sua vez, apoiava o Teatro Jovem, dirigido por Arnaldo Brescia. Em 1964, pouco antes do golpe militar, Pedro Paulo Cava estreava em O pequeno príncipe, em cartaz no Instituto de Educação. “Eu era o mais novo. Tinha toda aquela discussão política sobre subdesenvolvimento, e você ia ficando com a cabeça feita. Por um acaso do destino, convivi com pessoas muito mais velhas e isso me abriu para o aprendizado”, conta ele.

Como o Teatro Universitário da Universidade Federal de Minas Gerais, o famoso TU, ainda era incipiente e Pedro não tinha idade para ingressar no curso, ele aprendeu fazendo. Cursou sociologia, mas abandonou as aulas dois meses antes da formatura. Durante a ditadura, foi preso. Chegou a ter uma banda com Beto Guedes e também era ator, contrarregra e produtor. Cada vez que voltava à cena, dava-se conta de que a interpretação não era o seu forte. “Fui um péssimo ator”, reconhece. Em 1970, fundou o Teatro de Pesquisa e, três anos depois, estreou como diretor, função que jamais abandonou.

TEATRO DA CIDADE Desafiado a destacar três momentos importantes de sua carreira, ele aponta, primeiro, a inauguração do Teatro da Cidade, em 1990, na Rua da Bahia. Pedro não tinha um tostão no bolso para bancar o projeto. O espaço foi recentemente tombado como patrimônio imaterial de BH. “Aquilo, sem dúvida alguma, mudou a minha carreira”, diz. Outra virada: a inauguração da Oficina de Teatro, em 1981, em uma casa na Avenida Afonso Pena – ao lado do Dops –, no fim da ditadura. O terceiro ato foi a aquisição da Galeria de Arte Guignard, que funcionava no Teatro Marília. “Comprei por susto e por acaso. Era a primeira galeria de arte de Belo Horizonte e estava falida. A partir dali, ela abriu o contato com a elite de BH e com a classe média em ascensão”, relembra.

Frequentador assíduo dos jantares na casa do diretor João Ceschiatti, Cava era respeitado pelo que realizava na capital, sem se deixar seduzir pelas promessas do eixo Rio de Janeiro-São Paulo. De Juca de Oliveira, Paulo Autran e Fernanda Montenegro ouviu conselhos para se mudar de Minas, mas ficou em BH – e não se arrepende. Passou uma temporada na Alemanha, mas logo estava de volta. Teve depressões e dificuldades financeiras. Não se abateu.

“Duas coisas que não faço: cultivar rancor e olhar para trás com raiva. Não consigo. Quando olho para trás, só consigo enxergar coisas boas”, diz. Pedro Paulo Cava, de 64 anos, tem mais de 60 espetáculos adultos e 20 montagens infantis no currículo. É fã confesso de musicais, adepto da comédia e de grandes elencos, além de generoso com o relógio: suas montagens têm de duas a três horas – frequentemente, com casa cheia. Cultiva uma estética própria e se mantém fiel a ela. “Meus espetáculos são épicos, com muita gente e uma costura diferente. Na verdade, sou um encenador”, resume.

Pelo menos sete de suas montagens foram encenadas mais de uma vez. Oh, oh, oh Minas Gerais (Cava foi assistente de direção em 1967; produziu e atuou em 1971); Morte e vida Severina (1977 e 2011); Nossa cidade (2001 e 2006) e o grande sucesso da carreira, o musical Mulheres de Hollanda (1992, 1998, 2007). “Vou fazê-lo de novo. Até hoje, tem gente que entra aqui no teatro e pergunta quando Mulheres de Hollanda volta”, conta.

 

O "sem-grupo"

 

Na capital mineira, reconhecida pela quantidade de grupos de teatro, o diretor Pedro Paulo Cava é um caso à parte: logo abandonou a ideia de ter a própria companhia. “O Teatro de Pesquisa começou assim, mas depois vi que não poderia ter um grupo só com as mesmas pessoas, porque isso não supriria a minha necessidade de montar um outro espetáculo. Não daria para encaixar todos nos papéis”, explica. Resultado: ele calcula ter trabalhado com mais de 1 mil atores de diversas gerações.

Pedro Paulo relembra a visceralidade com que se fazia teatro em Belo Horizonte no início de sua carreira. A sobrevivência, explica, vinha da bilheteria. “A gente estava certo de que teatro tinha função social tão importante que seria capaz de mudar o mundo. Hoje, coloco uma interrogação nisso. Ele é capaz de mudar algumas pessoas”, conclui.

PRINCIPAIS PEÇAS


>> Adulto
Oh, oh, oh Minas Gerais
(1967 e 1971)
Frei Caneca (1973)
Galileu Galilei (1983)
Liberdade, liberdade (1983)
Bella ciao (1988)
Mulheres de Hollanda
(1992, 1998, 2007)
Na era do rádio (1996)
Futuro do pretérito (1999)
A estrela Dalva (2000)
Morte e vida Severina (2011)
 
>> Infantil
O pequeno príncipe (1964)
Liderato, o rato que era líder (1967/1968)

Trajetória

50  anos de carreira
60 espetáculos adultos
20 espetáculos infantis

 

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