Exposição mostra correspondência entre Carlos Drummond de Andrade e sua mãe

Cartas do escritor para Julieta começam a ser exibidos nesta terça-feira, em BH. Os documentos serão mostrados ao público pela primeira vez

por Carolina Braga 16/11/2014 00:13

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Fundação Carlos Drummond de Andrade/Reprodução
(foto: Fundação Carlos Drummond de Andrade/Reprodução)
Como um garimpeiro, Marconi Drummond anda à caça de tudo que possa preservar a memória do primo ilustre, o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Depois de encontrar em Lavras, Sul de Minas, importante lote de cartas escritas pelo poeta, muitas delas endereçadas à mãe, Julieta, chegou a hora de o público ter contato com esse rico acervo, acrescido de novas descobertas. Será a oportunidade de conhecer as respostas dadas às cartas encaminhadas pelo poeta à mãe. Uma intimidade inédita que estará aberta à população a partir de terça-feira, na exposição QuasePoema – Cartas e outras escrituras drummondianas.

Há cerca de um mês, Marconi Drummond e Fabíola Moulin, responsáveis pela curadoria da mostra, começaram a organizá-la. Por uma curiosidade – ou instinto investigador –, eles foram para o Rio de Janeiro consultar dois acervos. A primeira parada foi na Fundação Casa Rui Barbosa, que, mesmo com inventário muito organizado, não foi produtiva. Já na segunda tentativa, no Instituto Moreira Salles, Marconi se deparou com um tesouro.

“Conseguimos casar algumas cartas do filho com algumas da mãe. Respostas a perguntas e até comentários sobre mensagens anteriores. É uma grande rede de correspondência afetiva entre mãe e filho”, diz. Será a primeira vez que 88 documentos e cartas escritas por Drummond serão apresentados ao público. Ao acervo do Memorial Carlos Drummond de Andrade se somam as 28 cartas assinadas por dona Julieta Augusta Drummond.

Será um encontro da afetiva poesia postal entre mãe e filho. Uma instalação vai projetar as cartas em mesas antigas. Os escritos em papel também estarão no local, assim como fotografias e outros documentos familiares. Na sala também haverá a exibição do documentário Consideração do poema, com Caetano Veloso, Fernanda Torres, Gregório Duvivier, Drica Moraes, Laerte, Chico Buarque e Marília Pêra, entre outros, recitando trechos da obra do poeta.

Carlos Drummond de Andrade saiu de Belo Horizonte em 1934 para trabalhar no Rio de Janeiro. Vinha com certa frequência visitar a família, mas a comunicação se dava sobretudo por via postal. Pelas cartas, o tom carinhoso era recíproco. “Minha boa mãe” era como ele iniciava a mensagem, por vezes assinada como Carlitos. Ela, por sua vez, respondia “Meu bom Carlos” e frequentemente terminava com “a bênção da tua mãe muito amiga de coração, Julieta”.

Como Marconi Drummond observa, mãe e filho quase nunca fazem referência a questões literárias. “Ele também não compartilha com ela sua vida emocional e de funcionário público”, conta. O que comentam tem mais a ver com as rotinas da vida em Itabira e no Rio de Janeiro, as mudanças trazidas pela guerra e assuntos de natureza prática.

Em uma das cartas, Julieta Drummond fala do início da atividade mineiradora em Itabira. “Ela escreve para o filho dizendo que a cidade estava vivendo um clima progressista e ela estava feliz com isso, mas atenta e receosa pela desconfiguração do cenário da infância dele”, comenta o curador. “É um Drummond visto por uma ótica absolutamente inédita. É um filho afetuoso na sua mais absoluta intimidade.”

Coleção preciosa

As cartas adquiridas pela Fundação Carlos Drummond de Andrade foram compradas em outubro do ano passado do jornalista e empresário Eduardo Cicarelli, de Lavras, que guardou os documentos durante 20 anos. Ele é colecionador de selos e foi graças ao hábito de comprar exemplares antigos que descobriu o acervo de cartas da família Drummond. O lote de documentos pertencia a Ita, a cunhada de Drummond, que, por sua vez, herdou as cartas da sogra, Julieta Augusta, mãe do poeta.

O lote tem 212 itens, entre cartas, fotografias, bilhetes, postais e telegramas. Estão datados entre 1915 e 1986. Quando chegou a Itabira, o material foi higienizado, separado em plásticos adequados e guardado em caixas. Segundo Marconi Drummond, por enquanto não há previsão de itinerância da mostra QuasePoema – Cartas e outras escrituras drummondianas. “Acho que deveria, pelo ineditismo desse encontro. Nem eles mesmos viram essas cartas juntas. É muito bonito promover essa aproximação poética entre mãe e filho”, conclui o curador.

QUASEPOEMA – CARTAS E OUTRAS ESCRITURAS DRUMMONDIANAS

Do dia 18 deste mês a 18 de janeiro de 2015. Casa Fiat de Cultura, Praça da Liberdade, 10, Funcionários, (31) 3289-8900. Terça a sexta-feira, das 10h às 21h; sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h. Entrada franca.

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