Grupo Galpão lança coleção de diários de montagem de seus espetáculos

Livros e DVD duplo com apresentações ao vivo de Romeu e Julieta e Os gigantes da montanha contam história da companhia mineira

por Carolina Braga 15/11/2014 10:00

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Guto Muniz/Divulgação
Romeu e Julieta, o mais conhecido espetáculo do Galpão, ganha registro em DVD (foto: Guto Muniz/Divulgação)

Um DVD duplo com a íntegra dos espetáculos Romeu e Julieta e Os gigantes da montanha e um CD com a trilha sonora desta montagem dirigida por Gabriel Villela e também a de Till, a saga de um herói torto, de Júlio Maciel. Tem ainda a coleção de 10 diários de montagem. Essas são as novidades que o Grupo Galpão lança hoje na Livraria Quixote. O registro histórico é soberano, mas por trás do pacotão a companhia sinaliza olhar atento para a questão da sustentabilidade da cultura no país.

Que as leis de incentivo demonstram não dar conta de fomentar a produção nacional é fato. Enquanto novas alternativas não surgem, é hora de diversificar. Ou pelo menos tentar. A iniciativa do Galpão não deixa de ser uma aposta em novas fontes de renda, ainda que ela possa ser analisada sob outros pontos de vista. De um lado, a importância dada à preservação da memória de uma arte essencialmente efêmera; de outro, a experimentação de modelo de negócio distinto da atividade principal.

Vender produtos associados à marca do grupo não é novidade na trajetória de 32 anos do Galpão. Na década de 1990, embalada pelo encantamento geral despertado por Romeu e Julieta, a trilha sonora foi gravada e lançada em fita cassete. Logo depois canções como Flor, minha flor foram para o CD, juntamente com as músicas de A Rua da Amargura. Vieram postais, camisetas e por aí foi. “Sempre tivemos essa preocupação, mas nunca tratamos os produtos como uma fonte de renda”, diz o ator Beto Franco, também diretor administrativo da trupe.

Ainda que de maneira artesanal, o Galpão já oferece 48 produtos, sendo quatro CDs duplos, 14 DVDs, entre peças e documentários, sete modelos de camisetas e também 23 livros. Até agora foram lançados pensando mais em estreitar os laços com a plateia. “São ações de memória, de aproximação com o público e que acabam tendo um efeito indireto na sustentabilidade. Mas a renda que vem disso não é tão significativa a ponto de ter uma contribuição muito forte dentro do orçamento do grupo”, explica Rômulo Avelar, consultor de planejamento do Galpão.

Rafael Motta/Divulgação
(foto: Rafael Motta/Divulgação)
Segundo ele, mesmo que pesquisas já tenham revelado o potencial da marca Grupo Galpão, sua exploração ainda é feita de maneira tímida. As vendas são realizadas principalmente depois dos espetáculos, com a renda utilizada para garantir o funcionamento da loja. A partir da semana que vem, porém, isso tende a mudar. O Galpão colocará no ar um novo site e inaugura o e-commerce. Com o investimento feito na nova plataforma, os produtos poderão ser comprados pela internet e o pagamento feito pelo sistema do Pag-seguro, por meio de cartões de débito, crédito e boleto. A butique itinerante também passará a aceitar cartão, o que deve aumentar a comercialização nos locais de apresentação.

INVESTIMENTO

Rômulo Avelar observa que às vezes há muito pudor por parte dos grupos em fazer esse tipo de investimento. “São pouquíssimos que o fazem de maneira mais consistente”, constata. Por aqui, o Grupo Corpo também tem a própria lojinha, mas também voltada para a venda pós-espetáculos. Os produtos são quase um souvenir, uma oportunidade de o espectador levar para casa a lembrança de um momento efêmero, que ele quer preservar. O Grupo Corpo oferece ao púbico DVDs e CDs com as trilhas sonoras dos balés.

A timidez com que os grupos de artes cênicas tratam essa área tem a ver com a necessidade de investimento que a iniciativa demanda, mas não é só isso. Não se pode negar que há certo preconceito na área. Como se arte e mercado fossem coisas muito separadas. Basta acompanhar a iniciativa de museus ao redor do mundo para ver que o modelo de licenciamento e comercialização de produtos é consistente com projetos culturais. Um bom exemplo é o de Inhotim, que tem até uma linha de cerâmica licenciada, guarda-chuvas, sandálias, bonés e muitos outros produtos com a marca do centro de arte contemporânea.

Outra turma que não deixa o licenciamento passar batido é a galera do hip-hop e do funk, com lançamento de camisetas, bonés e acessórios. Os grupos de rock, por sua vez, apostam no segmento das cervejas. Raimundos, Tia Nastácia, Sepultura são alguns que já agregaram suas marcas à bebida. Experiente no trato com grupos artísticos, Rômulo Avelar defende a ideia de que a cultura precisa aprender mais com o mundo empresarial. “Precisamos adaptar e trazer para a nossa área aquilo que não vai entrar em conflito com o artístico”, afirma.

Uma história em construção


Mesmo que a relação do Grupo Galpão com seus produtos venha mudando, para seus integrantes a importância histórica continua sendo a força motriz para o lançamento. É por isso que é com um ar de dever cumprido e alegria que Eduardo Moreira fala sobre a coleção com os 10 diários. Eles revelam um pouco sobre o processo de montagens de peças como Romeu e Julieta, A Rua da Amargura, Um Moliére imaginário, Partido, O inspetor geral, Um homem é um homem, Till, a saga de um herói torto, Tio Vânia (aos que vierem depois de nós) e Os gigantes da montanha.

Moreira tem a escrita como parte da criação. “É um hábito. Meu estudo enquanto ator tem essa preocupação de criar um registro para a história do Galpão. Os diários são relato do dia a dia dos ensaios”, conta. Isso significa que estão lá avanços, retrocessos, dilemas, conflitos, dificuldades e soluções que foram encontradas ao longo da realização de cada uma das peças. Os diários de Romeu e Julieta, A Rua da Amargura, Um Moliére imaginário e Partido foram escritos por Cacá Brandão, arquiteto e também dramaturgo da companhia.

O lançamento em livro é também uma contribuição para outras gerações de atores. Como o Grupo Galpão é bastante procurado como objeto de pesquisas de diversas áreas, as obras também auxiliam os estudos. Por meio dos diários, é possível acompanhar a evolução da relação dos artistas com o ofício. O diário de Os gigantes da montanha, por exemplo, começa na verdade com a remontagem de Romeu e Julieta e a consolidação da parceria com Gabriel Villela.

MEMÓRIA


“Quando me refiro a riscos, penso no perigo que pode ser retomar um grande sucesso. Além da questão do tempo (já se passaram quase 10 anos da última apresentação do espetáculo) e da nossa idade (somos um grupo de cinquentões fazendo uma tragédia cujo casal de protagonistas é adolescente), pesa um pouco a lembrança de que o espetáculo foi um marco na memória de muitas pessoas de toda uma geração”, escreveu Eduardo em fevereiro de 2012, no início dos ensaios. “Como é que as pessoas reagirão ao rever um espetáculo que foi um verdadeiro mito?”, questiona.

O DVD de Romeu e Julieta que o Galpão também lança hoje, de certa forma, responde a pergunta. Gravado em junho de 2012, inclui além da peça na íntegra, o documentário Flor, minha flor, dirigido por Chico Pelúcio, que trata justamente da relação afetuosa que o público nutre pela peça. É um disco duplo que também contém a estreia de Os gigantes da montanha, em maio de 2013. “É um fenômeno. Tanto no Romeu como em Os gigantes da montanha são umas 5 mil pessoas na Praça do Papa”, conta Eduardo Moreira.

Guto Muniz/Divulgação
(foto: Guto Muniz/Divulgação)


O registro audiovisual das peças sai por R$ 40 cada, o DVD duplo custará R$ 60 e o CD das trilhas de Till, a saga de um herói torto e de Os gigantes da montanha R$ 20. A coleção os 10 diários de montagem custa R$ 130, se os livros forem comprados separadamente saem por R$ 20. Os produtos, além de livrarias, podem ser comprados pelo www.grupogalpao.com.br.

Gigantes no palco

Junto com o lançamento dos produtos, o Grupo Galpão está em cartaz no Teatro Bradesco com Os gigantes da montanha. Concebido para a rua, ao ser apresentado em palco italiano oferece uma experiência diferente para o espectador. É ainda mais potente, já que um dos pontos fortes do espetáculo é a estética, com assinatura de Gabriel Villela. Desde que estreou, em maio de 2013, Os gigantes da montanha já percorreram 50 cidades e foi visto por mais de 120 mil pessoas. A peça fica em cartaz sábado, às 21h, e domingo, às 20h. Os ingressos custam R$ 30.

LANÇAMENTOS GRUPO GALPÃO
Este sábado, de 10h às 14h. Livraria Quixote. Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi, (31) 3227-3077.

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