Literatura de cordel conquista representantes em Minas

Cordelistas aceitam o desafio e criam estrofes para os jogos da decisão da Copa do Brasil

por Ana Clara Brant 12/11/2014 09:10

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Marcos Michelin/EM/D.A Press
Ator e cenógrafo, Adir Affa se apaixonou pelo cordel e vende seu trabalho nas ruas de Belo Horizonte (foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press)
Olegário Alfredo, de 60 anos, e Adir Affa Rievrs, de 43, nasceram em Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, e são dois dos principais representantes da literatura de cordel em Minas Gerais. De gerações diferentes, eles não se conhecem, mas ajudam a propagar no estado essa arte, que tem registros desde a época do Renascimento e, no Brasil, é forte sobretudo nos estados do Nordeste.


Foi na adolescência que Olegário descobriu o cordel. Como morava às margens da rodovia Rio-Bahia, acabou tendo contato com caminhoneiros que vinham de Pernambuco, da Paraíba e do Rio Grande do Norte. “Como era muito curioso, queria saber o que eram aqueles folhetos que eles traziam. Eram justamente os cordéis. E continham histórias ligadas ao cangaço, a Gonzagão, Maria Bonita e Lampião. Encantei-me também com as xilogravuras (técnica de gravura na qual se utiliza madeira como matriz e possibilita a reprodução da imagem gravada sobre papel). “É um processo muito parecido com um carimbo”, explica.


O fascínio foi tanto que ele decidiu criar os próprios cordéis. Passou a rascunhar e tomou gosto pela coisa sem saber no que ia dar. “Acabei me especializando mesmo nesse tipo de manifestação artística a partir dos anos 1970 e quando me mudei para Belo Horizonte procurei outros cordelistas na cidade, mas não encontrei de jeito nenhum. Hoje, tenho mais de 100 cordéis publicados, dos mais variados assuntos”, comenta. Olegário Alfredo. Ele também é conhecido como Mestre Gaio, por causa da capoeira, e costuma privilegiar temas ligados a Minas Gerais, como as lendas urbanas, a folia de reis e o congado. Entre os títulos de destaque estão Cintura fina, O rei da navalha; A loura do Bonfim; O Mercado Central de Beagá; O escravo Chico Rei; Manuelzão, a vereda humana do sertão mineiro; e Cordel em tributo a Chico Xavier, entre outros.


Adir, apesar de ser teófilo-otonense, veio com um mês para a capital e por isso se considera muito urbano. E essa vivência se reflete em sua criação. “Falo muito de política, de problemas da cidade, do cotidiano, mas não deixo de ter aquele linguajar e o ritmo nordestino. Acho que qualquer assunto pode virar um cordel”, acredita. Poeta desde os 10 anos, ele se lembra com precisão do dia em que foi “picado pelo mosquitinho do cordel”.


Ele era estudante no Teatro Universitário e o professor Fernando Limoeiro ensinava literatura de cordel. Um dia, decidiram montar um cena de cordel que reproduzia a discussão entre um crente e um macumbeiro. “Tinha acabado de ouvir aquela música do Zé Ramalho, A peleja do diabo com o dono do céu, e ela ficou na minha cabeça. Foi a partir dali que me apaixonei por esse gênero. Tem que ter um ritmo para declamar, como se fosse um repente, e hoje sou muito mais cordelista do que poeta convencional. Prefiro um cordel do que um soneto”, confessa. Adir, que também é ator, aderecista, mascareiro, cenógrafo e dramaturgo, costuma vender e recitar seus cordéis na Praça da Liberdade.


“A maioria das pessoas sempre é muito receptiva com o meu trabalho e costumo improvisar bastante. Sugiro um tema e crio na hora. Mas quando declamo tem muita gente que não faz a menor ideia do que seja. Acha que é rap ou algo do tipo. Quando explico, eles entendem”, diz ele, que lamenta a falta de mais cordelistas em BH e em Minas Gerais.

MARCOS MICHELIN/EM/D.A PRESS
Olegário Alfredo, Mestre Gaio, é o únicomineiro na Academia Brasileira de Literatura de Cordel (foto: MARCOS MICHELIN/EM/D.A PRESS)
MINEIRIDADE
Olegário Alfredo, que é um dos precursores desse estilo no estado, afirma que o cordel mineiro se difere dos demais estados sobretudo pelos assuntos abordados, já que se concentra mais nas questões mineiras. Mas destaca que a métrica costuma seguir as mais utilizadas pelos nordestinos, como a sextilha, que é a mais conhecida – uma estrofe ou estância de seis versos de sete sílabas, com o segundo, o quarto e o sexto rimados – ou a septilha – estrofe de sete versos. “Sou o único representante de Minas na Academia Brasileira de Literatura de Cordel, com sede no Rio de Janeiro, mas temos outros colegas que fazem esse tipo de poesia aqui também, mas com uma produção muito pequena”, comenta.


O poeta, que também é professor de literatura e funcionário do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), revela que os cordéis sempre chegaram nas Gerais pelas rodovias do Norte e Nordeste do estado, pelos barcos em Pirapora e até por trem. “Por isso, naqueles regiões o cordel sempre foi mais forte e ainda é. No centro de Minas ele nunca teve tanto destaque, mas a gente vem tentando fazer esse trabalho de divulgação em escolas e também por meio de palestras”, destaca.


A literatura de cordel foi trazida para o Brasil pelos portugueses e se adaptou à cultura do Nordeste, principalmente em Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Era tradicionalmente vendida em mercados e feiras pelos próprios autores, declamando ou entoando os versos ao som da viola, em apresentações individuais ou desafios. Hoje, os cordéis também são encontrados no Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, vendidos em feiras culturais, casas de cultura, livrarias e nas apresentações dos cordelistas.

 

Cordelteca


Uma das iniciativas de divulgação dos cordéis em Minas é a Cordelteca, em Sabará, biblioteca especializada em literatura de cordel e cultura popular brasileira, inaugurada em 2010 por Marco Túlio Damascena, em reverência a Olegário Alfredo. O espaço conta com acervo de cerca de 3 mil folhetos de diversos autores, doados por diferentes pessoas e instituições, além de seu homenageado, e ainda livros sobre cordel e literatura popular brasileira. A decoração do espaço tem motivos da cultura popular, xilogravuras e artesanato.

 

 

Copa do Brasil em cordel

 

A intriga do galo com a raposa

Olegário Alfredo

 

A intriga do galo com a raposa
É muito bastante antiga
Os dois nunca se truvaram
Vivendo em constante briga
A raposa fica sempre
Querendo encher sua barriga

Mas o galo espertalhão
Não dá chance pra raposa
O galo tem sua galinha
Que é fiel esposa
A raposa traiçoeira
Não pega mariposa

Aqui nas Minas Gerais
Futebol lidera assunto
Muito mais que política
Religião ou de defunto
Sabemos que nosso Galo
Na jogada chega junto

O Cruzeiro é um time
De porte fenomenal
Pode se considerar
O melhor da capital
Além de jogar futebol
Faz trabalho social

Em se tratando de bola
No cenário nacional
Para todos os mineiros
O Atlético é maiorial
Possui a maior torcida
Do interior a capital

 

 

O melhor futebol do Brasil
Adir Affa Rievrs

 

 

Futebol mineiro
Está dominando tudo
Depois do Brasil inteiro
Inda vai dominar o mundo
Mas Atlético e Cruzeiro
Dividem o mesmo terreiro
Nas figuras do raposo e do bicudo

E o Raposo bem ardil
Ao encontrar o rival
Na final da Copa do Brasil
Diz na maior cara de pau:
“E primeiro e sem demora
Vou te cortar as esporas
Pra te jantar no final.”

Mas o bicudo reagiu:
“Dona Raposa, se oriente
Que nesta Copa do Brasil
A sua batata está quente
Vou golear sem aresta
Pra depois fazer a festa
No salão de festa da gente.”

Mas disse o Raposo: “Dona não,
Pois eu sou é um raposo
Você que é galinha, então
Da que bota e choca ovo
E se a memória não me falhe
Só quando passar o cometa Halley
Que você vai ser campeão de novo”.

E o final da discussão
Ainda ninguém ouviu
E é no Horto e no Mineirão
Que vai queimar este pavio
Mas seja Atlético ou Cruzeiro
O que importa é que o mineiro
É o melhor futebol do Brasil

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