Exposição apresenta retrospectiva de 57 anos de carreira de Bracher

Mostra ainda vai passar por SP, Rio e Brasília

por Eduardo Tristão Girão 11/11/2014 09:42

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Beto Novaes/EM/D.A Press
O pintor ao lado de um dos autorretratos. Mostra em BH tem ainda coleção de paisagens, retratos, naturezas-mortas e homenagens a Van Gogh (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)
Para o artista plástico Carlos Bracher, um quadro sendo pintado é mais bonito que a própria obra pronta. Conhecido pela rapidez com que trabalha, esse juiz-forano de quase 74 anos acredita há muito de urgência em seu ofício: “É rápido porque é muito ligado ao sentimento. A paixão é algo muito louco, felizmente. Se você demora, perde o timing da paixão. Aí você fica muito mental, racional. A arte é veloz, é um ato fugaz. Comigo, ou sai ou não sai. Como vem, a paixão vai. É fugidia. É a mesma coisa que ocorre com músicos e poetas. E ediria que isso é 90% de inspiração e 10% de transpiração”.

Ainda possuído pela mesma paixão de quando iniciou sua carreira, 57 anos atrás, o artista ganha exposição no Centro Cultural Banco do Brasil, em Belo Horizonte, que será aberta nessa quarta-feira sob o nome 'Bracher – Pintura & permanência'. A mostra conta com 86 obras, além de objetos pessoais, fotografias, videos e até réplica de seu ateliê, incluindo os móveis e objetos originais. A montagem será repetida nas unidades do CCBB de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, no ano que vem.

A exposição tem tom de retrospectiva, possibilitando que o visitante perceba a evolução de Bracher em fases distintas, a exemplo do caráter questionador de sua produção nos anos 1960, do interesse pelo cubismo na década seguinte e do estilo modernista e tempestuoso dos últimos tempos. São telas a óleo, desenhos, aquarelas, livros, catálogos, fotos, objetos pessoais e poemas de autoria do artista. A curadoria é assinada pelo crítico de arte Olívio Tavares de Araújo, em parceria com o próprio Bracher.

Há apenas uma escultura na mostra, revela o artista. Trata-se do busto 'Reydner' (nome de um amigo seu), produzido nos anos 1960 e que não chegou a ser finalizado em bronze, mantido no gesso. “Comecei esculpindo, depois é que fui pintar, no início dos anos 1960. Aí, abandonei a escultura. Valeu como ponto de partida e foi por influência de Rodin, que conheci quando era menino. Tinha uns 16 anos e vi que a arte era meu caminho”, lembra.

Bracher diz que sempre pintou por puro prazer, sem se preocupar com estilo. “Sou ligado às minhas necessidades, uma dinâmica muito interior. A paixão é que me move. Nessa retrospectiva, vejo meu eu desenvolvido no tempo e no espaço. Isso possibilita ver como tudo foi feito, é interessante. Vi quadros que nunca mais havia visto, como 'O caminhão Mack', que pintei nos 1960. É lindo ver como era a paixão de outrora, como eram as lágrimas naquela época. Pintava com a fúria de um doido, era dilacerante e profundo”, emociona-se.

Castelinho Estarão no CCBB os retratos – parte bastante conhecida de sua obra, bem como autorretratos, paisagens, naturezas-mortas, cenas do cotidiano e as séries 'Homenagem a Van Gogh', 'Do ouro ao aço', 'Brasília' e 'Petrobras'. A coletânea será exposta em ambientes assinados pelo cenógrafo Fernando Mello da Costa, com painéis e instalações, a exemplo da reprodução do ateliê do artista, em Ouro Preto, onde mora há 43 anos. A casa onde nasceu e cresceu, em Juiz de Fora (conhecida como Castelinho dos Bracher), também ganhou forma cenográfica.

“É uma exposição meio biográfica, ou melhor, geobiográfica. Remontaram minhas duas casas, com tudo trazido desses locais. São meus ambientes formadores. As pessoas sentirão o que tem sido a minha vida. A casa em Juiz de Fora era um reduto sensível, humano, amoroso das pessoas da cidade. Era habitada pelos familiares e inumeráveis amigos. Uma casa livre, abera, sempre cheia, com interação, debate, meio filosófica. Teve função importante na formação de pessoas. Meus pais eram pessoas maravilhosas, que recebiam todos como filhos, sobretudo os artistas”, lembra Bracher.

Depois de uma temporada pela Europa, nos anos 1960, o artista resolveu conhecer cidades barrocas mineiras. Na companhia da irmã Nívea, também pintora, visitou São João del-Rei, Tiradentes e Ouro Preto. Pela última, confessa ter sido completamente arrebatado por uma tremenda paixão. “Queria redimensionar o tempo de dois anos que passei fora do Brasil, deglutir e desfiar esse enigma. A casa de Ouro Preto é meu celeiro, onde compreendo, sinto e refluo as coisas da arte e do espírito”, diz. Ele mora na mesma casa até hoje ao lado da mulher, Fani Bracher, que também é pintora.

Ao vivo No espaço multimídia, o público ouvirá a voz do artista em textos de sua autoria. A responsável pelo áudio e vídeo nesse espaço é a jornalista Blima Bracher, filha do artista, que há sete anos se dedica a pesquisar a trajetória do pai. São dela os documentários 'Âncoras aos céus' (2007) e 'Das letras às estrelas. JK: dos sonhos ao sonho de Brasília' (deste ano), ambos dedicados à obra do pai. Por fim, o público poderá acompanhar o processo intenso de criação do artista da melhor forma possível, ou seja, ao vivo. Amanhã, ele dará suas pinceladas diante de todos no CCBB.

Intervenções como essa tornaram-se comuns no decorrer da carreira de Bracher. “Meu objetivo com isso é aclarar a vista, tornar a arte palatável às pessoas. O ato de pintar é muito forte, lindíssimo. O desenvolvimento do quadro é mais bonito do que ele acabado. Você vê a emoção que é tramitar durante aquele instante. É uma coisa apaixonante e é lindo mostrar isso para o público. O artista se revela. É o mistério a olho nu. Franquear isso engrandece a arte com a participação de outros. Seria muito pequeno se fosse só da gente”, observa ele.
 
CARLOS BRACHER/REPRODUÇÃO
(foto: CARLOS BRACHER/REPRODUÇÃO)
 
Atravessando a praça

Paralelamente, o Museu das Minas e do Metal, também na Praça da Liberdade, em BH, exibe a mostra Aleijadinho 200 anos: Tributo de Bracher, com 25 telas do artista plástico inspiradas nas obras do mestre do Barroco brasileiro. Entre os trabalhos, Prisão de Cristo, em técnica mista (foto). A exposição integra circuito maior, com total de 80 telas, que podem ser conferidas também em Ouro Preto e Congonhas. Na capital mineira, a entrada é franca e a visitação vai até dia 23.

Em família

Violinista, um dos avós de Carlos Bracher, Frederico, teve cinco filhos. Todos tornaram-se artistas. “Vim desse pessoal. Meu pai era engenheiro, mas se dedicou ao piano e à composição, essa era a história da vida dele. Ele é que introduziu na casa esse sentimento pela arte”, conta o artista. Caçula, ele se orgulha de contar que seus quatro irmãos também seguiram esse caminho: Paulo é cantor, Décio foi arquiteto e pintor e Celina e Nívea também atuaram como pintoras. “Fora a Lotus Lobo, que é minha prima”, lembra. As gerações mais jovens dão prosseguimento a essa tradição, a exemplo de Larissa, filha de Bracher, que é atriz.
 
Bracher – Pintura & Permanência
Exposição de obras e acervo pessoal do artista plástico Carlos Bracher. De sábado a 12 de janeiro, no Centro Cultural Banco do Brasil (Praça da Liberdade, s/nº, Funcionários). Horário de visitação: de quarta a segunda-feira, das 9h às 21h. Entrada franca. Informações: (31) 3431-9400.\

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