Angela-Lago se muda para Biribiri e encontra inspiração para criar histórias

A escritora e artista plástica mineira usa a paisagem e na flora do cerrado do Vale do Jequitinhonha em suas obras

por Ana Clara Brant 09/11/2014 07:00

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TÚLIO SANTOS/EM/D.A PRESS
Na bucólica paisagem de Biribiri, Angela mantém rotina criativa, toma banhos diários de cachoeira e ainda encontrou tempo para aprender a dirigir (foto: TÚLIO SANTOS/EM/D.A PRESS)
Biribiri– Um lugar mágico e bucólico como Biribiri, a 12 quilômetros de Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, e a 290 de Belo Horizonte, é mais do que inspirador para qualquer pessoa. Para alguém acostumado às palavras e aos desenhos, como a escritora e ilustradora mineira Angela-Lago, de 68 anos, o distrito incrustado em um vale na Serra do Espinhaço é mais do que estimulante. “Já conhecia esse lugar há muito tempo e o achei bem bonitinho. No começo deste ano, vim ao aniversário de um amigo em Diamantina e comentaram comigo que as casas em Biribiri estavam à venda. Isso foi num sábado. No domingo fechei a compra e um mês depois estava de mudança, tamanha a minha paixão”, lembra.




A vila, datada do século 18, e que hoje faz parte de um parque estadual que também abrange as cachoeiras dos Cristais e de Sentinela, aos poucos começa a refletir-se no trabalho da autora, que é a quinta entrevistada da série 'Escultores de sonhos', que o Estado de Minas vem publicando com os mestres da literatura infantojuvenil brasileira.


Foi ao som de pássaros, cigarras, grilos e galinhas-d’angola que ela conversou com a reportagem. Primeiro em sua casa, uma das 33 do lugarejo. Depois, não resistiu e desceu para o bar e restaurante do Adilson, onde, com sua gata no colo, terminou a entrevista com uma cerveja gelada ao lado. “Estou desenhando as flores do cerrado como exercício de observação. E vamos ver se Biribiri vai de alguma forma mudar alguma coisa na minha obra. Ainda não sei. Espero que surja alguma obra inspirada neste lugar. Foi uma mudança grande e acredito que ela vai acabar acontecendo por dentro também”, filosofa.


Na verdade, um dos projetos da escritora e artista plástica já traz inspiração dessa nova fase da vida. 'O caixão rastejante e outras assombrações de família', segundo livro da série dedicada às assombrações, editada pela Companhia das Letrinhas – o primeiro foi 'Sete histórias para sacudir o esqueleto' –, traz imagens de cenários, janelas e construções biribirenses. “É um livro só de selfies minhas. Sou a personagem. É na mesma linha do 'Sete histórias', mesclando terror e humor, mas agora estou usando o recurso fotográfico. Fotografei-me como sendo os personagens assombrados da minha família e coloquei em cenários diferentes daqui de Biribiri. Como se fosse um teatro. Minhas fotos estão cheias de truques e aí desenho por cima. É interessante como a gente vai ficando com a cara do lugar onde a gente mora, não é?”, provoca.


Aliás, a fotografia tem despertado um interesse especial na obra da escritora. Ela diz que só conhece o básico, tanto que vai fazer em breve um workshop em Diamantina para explorar todas as nuances que a arte oferece. Autora de 40 títulos, Angela-Lago se diz um pouco impressionada em como a fotografia vem sendo explorada pela maioria das pessoas e, por meio de seu trabalho, vai tentar inverter um pouco esse processo. “Com essa história do digital, todo mundo resolveu apressadamente fazer um simulacro. Essa é a minha sensação. Vamos fazer uma viagem supercorrida, mas a fotografia fica linda; chega uma visita em casa correndo, mas a foto que você posta na rede social parece que é uma festa muito grande, bonita. A fotografia ficou no lugar da vida, um lugar falso, um simulacro”, define.


Por isso, ela vem tentando fazer o caminho contrário, desenhando ou fazendo colagens em cima das imagens. “O meu tempo é muito dilatado, de observação. Continuo observando o que fotografei, porque estou desenhando por cima. Pretendo e espero que não seja um simulacro e que, pelo contrário, esteja trazendo um pouco de realidade para o campo da imaginação e da fantasia. Estou banhando com o real, com o cotidiano, o que normalmente no desenho fica mais solto para a fantasia. A fotografia me ajuda a dar um tempo concreto, a ver detalhes e acentuar esses detalhes que a criança vai reconhecer no seu dia a dia, no seu ambiente brasileiro, de cidade brasileira”, explica Angela-Lago.

O prazer de criar

Angela-Lago já morou em vários lugares, como os Estados Unidos, a Venezuela, a Escócia e, claro, Belo Horizonte, a cidade onde nasceu. “Tenho muito apego a BH, mas nem tenho mais uma base fixa lá. Minas é toda da gente. E em Biribiri estou apaixonada. Aqui é muito mineiro. Tenho a sensação de que é uma escolha definitiva”, revela. Quando comprou a casa de número 14 da vila, teve que reformar a parte elétrica, pintar, fazer alguns reparos e durante esse tempo acabou morando na única pousada do simpático lugarejo. Apenas três residências são habitadas e boa parte dos compradores utiliza as casas apenas no sábado e domingo. “Fazemos parte de uma associação de moradores, como se fosse um condomínio. A maioria das pessoas só utiliza as casas nos fins de semana e mora mesmo em Diamantina”, informa.

A rotina de Angela é de fazer inveja a muita gente. Depois do trabalho, que geralmente vai até as 17h, ela sai para dar uma caminhada na região e quase sempre toma um banho de cachoeira. “Tem uma muito próxima daqui, a do escorregador. Dá uma renovada, não é? O interessante é que o cenário daqui vai mudando e é sempre surpreendente. Ainda não conheço todas as florações do cerrado. Tudo me encanta. As flores, as pedras, a quantidade de água, a vegetação. Nos fins de semana, trabalho com jardinagem”, conta.

Como Biribiri fica distante 12 quilômetros de Diamantina, ela comprou um Uno usado e está aprendendo a dirigir. Mas, por enquanto, quando vai viajar ou precisa comprar algo de necessidade básica, sempre conta com a boa vontade dos vizinhos. “Somos poucos e nos vemos o tempo todo, então todo mundo se ajuda. É como uma comunidade”, resume.

Seu contato com a família e os amigos, quando não é por meio de visitas, se dá pela internet ou pelo celular, mas apenas uma operadora tem sinal no distrito. “Nem tenho televisão e me mantenho informada pelos sites. E adoro ler. Mas gosto também de ficar isolada. E de ficar comigo mesma. Não me queixo. Sou uma boa companhia para mim”, diverte-se.

Influências Por volta dos 30 anos, quando voltou ao Brasil depois de uma temporada na Europa, Angela-Lago passou a escrever e a publicar poemas no 'Suplemento Literário de Minas Gerais', dirigido por Murilo Rubião, figura que considera importantíssima não só para ela, mas para toda a sua geração. Sem falar na escritora Laura Sandroni, também fundamental para o seu trabalho, na medida que criticou, acentuou qualidades e trouxe respostas e retornos.

Angela também cita a poetisa, escritora e jornalista Laís Corrêa de Araújo, que tinha uma seção de literatura infantil no Estado de Minas. “É tão importante para quem está em começo de carreira receber uma leitura, uma crítica, um retorno dos seus textos. E, hoje, acontece de gente iniciante me procurar. E é sempre interessante e enriquecedor para mim também”, destaca.

Conquista da liberdade

Formada em serviço social, a autora acha que seu ofício se reflete em sua visão de mundo e na sua experiência de trabalhar com algumas carências. Ela gosta de lembrar a importância de uma residência em artes plásticas, feita com o escultor Amilcar de Castro. “Tudo que a gente vive sempre se soma e se reproduz no nosso trabalho”, defende. Angela-Lago é divorciada e não foi mãe. No entanto, seus leitores acabam sendo um pouco seus filhos. E ela é fascinada com a garotada. Costuma dizer que, mesmo tendo conquistado tantos prêmios literários ao longo de sua trajetória, nenhum se equivale ao retorno que tem de uma criança. “Mesmo algo negativo, uma crítica. Tudo vale. Em geral, a gente recebe elogios, carinhos. Mas uma menina em especial estava indignada com o que eu tinha feito em uma de minhas publicações. Foi um caso diferente”, recorda.

Em seu livro 'O personagem encalhado', a autora pontua toda a sua angústia diante do ato da criação. “Nele há um texto que rabisco todo, porque estou contando a história que não está saindo. E o personagem também estava encalhado no meio das páginas e não consegue sair de jeito nenhum. Além do texto principal, um subtexto se desenha no fundo das páginas. Então, essa criança me mandou uma carta que veio toda rabiscada e no fim tinha um recado: ‘Pra você ver como é difícil ler seu livro’. Ela descontou em mim”, diverte-se.

Novas mídias
Além do lançamento de 'O caixão rastejante e outras assombrações de família', previsto para dezembro, Angela-Lago está na fase final de uma empreitada envolvendo as novas mídias, que é a continuação do projeto do seu site que auxilia crianças que estão se alfabetizando (www.angela-lago.com.br/ABCD.html). “É um embriãozinho de um trabalho no qual a garotada passa o dedo em cima da letra e escuta o som, e quando fica no meio de duas letras, faz o som das duas letras juntas. Vai funcionar em e-books e aplicativos”, anuncia.

Fã das novas tecnologias, a escritora aceitou bem a transição da máquina para o computador, tanto que não desenha e nem escreve à mão há muito tempo. “Desenho direto no computador há anos. Nem material de desenho manual, como lápis ou tinta, tenho mais. E a mesma coisa foi com a máquina de escrever. Além disso, diagramo todos os meus livros e acho isso importantíssimo. Também crio a maioria das minhas capas”, frisa.

Em 2015, Angela-Lago chega aos 70 anos. Na verdade, ela nem completou o 69º ano de vida ainda, já que seu aniversário é em 17 de dezembro, mas já está se preparando para as sete décadas de vida. “Acho que a gente perde muita coisa, é claro, porém ganha também… Mas vamos ficando mais livres, mais soltos, com menos compromissos e com um tempo maior para usufruir a vida. Sem correria. E o importante é continuar produzindo. Trabalhar é muito prazeroso quando é realmente o seu desejo”, completa.

TOQUES DE MESTRE

Como surgem suas histórias?
Pode ocorrer de uma maneira tão lenta e ao longo de tanto tempo que a gente não consegue depois fazer um resumo de como aconteceu. E às vezes não. Vem uma ideia, ela te fascina e você rapidamente soluciona um caminho para usá-la. É sempre tão diferente cada experiência de criação. Não tem muita continuidade. ‘Ah.. sempre é assim.’ Não tem disso. Cada um é um.

Qual o seu método de trabalho?
Não costumo ter um método, mas um horário de trabalho, que, em geral, cumpro e que atualmente vai das 13h às 17h. Sou meio meticulosa quanto a isso. Mas nesse horário de trabalho podem acontecer as coisas mais diferentes, como vontade de escrever, vontade de desenhar, e eu vou seguindo essa vontade. De manhã, trabalho também, mas lendo, fazendo pesquisa. É uma forma de trabalho.

Como você desenvolve seus personagens?

O problema é que cada um é cada um. É uma dificuldade para pensar sobre isso (risos). Tem livros, por exemplo, que nem texto têm. Só uso imagens para contar a história, sem nome de personagem nenhum e é bem interessante, porque deixa a criança criar a própria história. Antes de aprender a ler, ela já é capaz de compreender uma sequência de imagens. Ela já esta acostumada com o mundo visual da televisão. Ainda mais nessa faixa de 3, 4 anos, quando ela ainda não é letrada, e já aprende o ritual da leitura. Ela aprende a percorrer o livro de acordo com o nosso alfabeto e vai lendo e acompanhando as páginas muito precocemente, bem antes da leitura.

Você se lembra do primeiro livro que você leu?

Consigo me lembrar de um dos contos que minha mãe me contava na beirada da cama. Ela lia Hans Christian Andersen e os irmãos Grimm. Lembro-me tudo desses contos. Mas meu primeiro livro foi A bonequinha preta, da Alaíde Lisboa, uma pessoa tão querida. As imagens eram tão modernas.

Trecho de Psiquê

“Era uma vez Psiquê, uma princesa tão linda, que é impossível pintar ou descrever. Pessoas do mundo inteiro vinham de longe conhecer e homenagear sua formosura. Até que um dia, Afrodite, a deusa da beleza, teve ciúmes.
E mandou seu filho Eros, o deus do amor, fazer Psiquê se apaixonar pelo mais terrível dos seres.


O feitiço virou contra o feiticeiro e justo ele, Eros, ao ver a princesa, se enamorou. Não passou muito tempo, o rei consultou o oráculo sobre o destino da filha, e soube que Psiquê se casaria com um monstro, uma fera que voa, queima e fere.”

 

 

Reino das histórias Grande admiradora dos contos de fadas e histórias populares desde os tempos de menina, foi na Escócia que Angela-Lago começou a estudar mais seriamente o assunto. “Já tinha 30 anos, não tinha filhos e alimentava esse desejo de contar histórias e também de desenhar e de escrever ao mesmo tempo. O campo da literatura infantil é muito fecundo para a utilização das duas linguagens simultaneamente. É um campo de experimentação. E no Reino Unido há toda uma tradição de livro para criança, então, foi um lugar propício para retomar esse desejo de trabalhar com os contos de fantasia”, explica a autora de 'ABC doido'.

 

Principais obras
O fio do riso (1980)
Sangue de barata (1980)
Cena de rua (1994)
ABC doido (1999)
Sete histórias para sacudir o esqueleto (2002)
Muito capeta (2004)
Psiquê (2010)

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