Espaço Comum Luiz Estrela completa um ano em BH

Local abriga artistas dispostos a fazer de seu ofício um compromisso com a cultura

06/11/2014 08:40

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Ramon Lisboa/EM/D.A Press
Em dezembro de 2013, artistas levaram seu talento para o casarão abandonado da Rua Manaus (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
A palavra comum pode designar algo rotineiro, dentro da normalidade. Há um ano, esse termo ganhou outros significados em Belo Horizonte: pertencente a todos, a muitos. Um “coletivo de coletivos” de artistas promoveu uma das primeiras ocupações culturais do Brasil, o Espaço Comum Luiz Estrela. No primeiro ato, em 26 de outubro de 2013, maquiados e paramentados com guarda-chuvas cênicos, eles se instalaram no casarão público da Rua Manaus, no Bairro Santa Efigênia, abandonado há 20 anos. Tudo à moda das performances urbanas como as realizadas na Europa, a partir de 2011, pelo chamado “movimento dos indignados”.
 
 “No dia seguinte, eram cerca de 40 pessoas, que abriram as portas por dentro”, conta a arquiteta Priscila Musa, do núcleo de memória e restauração do Luiz Estrela. BH ganhava um centro de produção artística contemporânea. A polícia tentou retirar os jovens, mas o coletivo invocou o artigo 216 da Constituição Federal, que determina que também cabe à sociedade civil salvaguardar o patrimônio cultural.

Começava ali a escrita, por dezenas de mãos, de uma dramaturgia que se alimenta da cidade – entendida como território do comum. Para integrar esse elenco, basta “colar”, como diz a gíria dos artistas-ativistas. “Brincamos que o casarão nos escolheu”, diz Priscila Musa. O grupo se surpreendeu ao deparar com o risco de desabamento do imóvel, mas isso não desmobilizou ninguém. As atividades foram transferidas para o pátio, até que ele seja restaurado.

Pertencente à Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), o imóvel já estava ocupado pelo coletivo. Mas era necessário obter o termo de cessão de uso, providenciar a restauração e criar programação que contemplasse a cultura não como evento, mas como processo formativo e reflexivo.

Obtida a cessão, em 16 de dezembro de 2013, começa o segundo ato. Os artistas se organizam em núcleos – o teatral nasceu com a própria ocupação, pois a ideia veio de quatro atores. “Nossa motivação partiu de uma reflexão sobre a cultura em BH. Queríamos fazer arte independente, livre de amarras como patrocínio e editais”, explica o ator Rafael Bottaro. Hoje, funcionam núcleos de memória e restauração; teatro; infracultura; e hospedagem criativa. Há o Grupo de Trabalho de Autonomia (GTA) e projetos de pedagogia libertária, comunicação, artes expandidas e audiovisual.

O núcleo de memória propõe ações para revitalizar o casarão. O setor de infracultura reflete sobre os novos modos de viver. A hospedagem solidária acolhe quem vem de outras cidades, estados e até mesmo países. Ao GTA, cabe avaliar questões referentes às atividades – se elas serão pagas, por exemplo. Os setores de artes expandidas e audiovisual trabalham com linguagens contemporâneas. Vem sendo produzido um documentário sobre o Luiz Estrela. Os ativistas também pretendem organizar o acervo de fotos e vídeos que registram a ocupação desde o primeiro dia.

“Pretendemos cruzar a história do casarão, um bem tombado com 100 anos, com as trajetórias dos ocupantes e do próprio Luiz Estrela, artista que dá nome ao espaço”, explica Paula Kimo, integrante do núcleo audiovisual. A agenda não para: aos sábados, tem Feirinha Estelar, com produtos orgânicos, artesanato e comida vegana. O Sarau do Comum ocorre quinzenalmente, às sextas-feiras. Também são organizadas oficinas de memória, restauração e arqueologia.

Restauração Devido ao tempo exposto às intempéries, o casarão da Rua Manaus teve de ser escorado para evitar o desabamento iminente. Parte do recurso para intervenção emergencial veio do Programa Adote um Bem, da Diretoria de Patrimônio de Belo Horizonte, repassou R$ 40 mil ao Luiz Estrela. Os coletivos buscam recursos para implentar a restauração do imóvel. Outros R$ 42 mil vieram do Catarse, site de financiamento coletivo.

Em audiência pública na Assembleia Legislativa, foram solicitados R$ 2 milhões, mas emendas parlamentares somam apenas R$ 100 mil. Com cerca de R$ 160 mil em caixa, será possível iniciar a segunda etapa da reforma que prevê a melhoria do telhado e da fachada frontal, além da retirada de uma laje que coloca a estrutura em risco. “Queremos que o casarão tenha cara de denúncia”, diz Priscila. Para tanto, o processo de restauração deverá preservar as camadas de descascamento, trincas e traços que ajudem a contar a história do imóvel.

Em 1913, ali foi instalado um hospital militar. Depois, o casarão abrigou um centro de saúde neuropsiquiátrico infantil e escola para crianças especiais chamada Iolanda Martins. Em 1995, o espaço foi interditado pelo Corpo de Bombeiros.

Uma das propostas é receber produções artísticas que têm dificuldade de ocupar os espaços institucionalizados de cultura na capital. É o caso de jovens ligados ao movimento hip-hop. “Vimos o espaço ocioso e resolvemos organizar um encontro do hip hop”, informa o artista Felipe Foca. O encontro de hip-hop era realizado semanalmente, mas, em função de acordos com a vizinhança, passou a ser quinzenal.

MARCOS MICHELIN/EM/D.A PRESS
A atriz Letícia Marçal participa de 'Escombros da Babilônia' (foto: MARCOS MICHELIN/EM/D.A PRESS)
Luxo e lixo


“Ele morreu com cabelo rosa”, lembra o ator Jonas Vidigal, de 30 anos. Essa é uma das lembranças deixadas por Luiz Otávio da Silva, o multiartista que se autodenominava estrela. Luiz Estrela.

A comemoração de um ano do espaço batizado com o nome dele inspirou a peça 'Estrela ou Escombros da Babilônia'. Vidigal faz o papel dele mesmo, fiel escudeiro de um dos artistas de rua mais conhecidos de Belo Horizonte. “Estrela era muito expressivo e criativo. Fazer essa peça mexe demais com meu passado”, diz Jonas.

O espetáculo resulta da parceria com estudantes de artes cênicas da Universidade Federal de Minas Gerais. A peça se baseia na rua. “Mostramos o lixo atrás do luxo que o mundo ostenta”, explica a artista Letícia Marçal, de 29.

Mesclando a linguagem dramatúrgica com música e projeções, cerca de 60 artistas interagem com o público. A dramaturgia foi orientada pelo professor Antonio Hildebrando. O palco foi a rua.

“Falar do Luiz Estrela é falar da luta antimanicomial e da dependência de remédios, alcoolismo, homossexualidade e da higienização das ruas”, resume Jonas Vidigal. Luiz Otávio da Silva morreu em 26 de junho de 2013 em circunstâncias não esclarecidas. Não se sabe se ferimentos no corpo resultaram de crises convulsivas e se o socorro foi prestado de maneira correta.

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