Teatro musical conquista mais espaço e ganha escola de formação de atores

Gênero tem história em Minas Gerais e produções se caracterizam por estilo próprio

por Ailton Magioli 05/11/2014 07:30

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Allan Calisto/Divulgação
Compegada jazzística, a comédia musical 'Quem não casa não ganha' volta em cena no ano que vem, na Campanha de Popularização do Teatro (foto: Allan Calisto/Divulgação)
Musical de berço, Minas Gerais tem feito pouco investimento no sentido de levar a música para os palcos, seja no formato de teatro musical ou musicado. Verdade que, a essa altura, pode-se falar até de um repertório de clássicos do gênero, recorrendo a montagens como 'Beco, a ópera do lixo', do Grupo Ponto de Partida, de Barbacena, ou a 'Mulheres de Hollanda', a vitoriosa incursão de Pedro Paulo Cava no universo chico-buarquiano, que ficou três anos em cartaz no Teatro da Cidade.

Como não dá para escapar à bem-vinda produção do eixo Rio – São Paulo, nos últimos tempos a capital também tem assistido a incursões de sucesso no gênero, tais como 'Sassaricando – E o Rio inventou a marchinha' e 'Elis, o musical', que seguem a já célebre escola carioca, enquanto outras como 'Cabaret', de São Paulo, são importadas diretamente da Broadway americana para os palcos brasileiros, ainda que com elenco local.

Vale lembrar, também, de iniciativas como a do ator-cantor Maurício Tizumba, da Cia. Burlantins, com as operetas 'O homem que sabia português' e 'O homem da gravata florida', ao lado das cantoras-atrizes Marina Machado e Regina Souza. Além da parceria de Tizumba com o diretor carioca João das Neves, radicado em Minas, que resultou em incursões de sucesso na temática negra com 'Besouro, cordão de ouro' e 'Galanga, Chico Rei'. Já o Grupo Galpão, que a cada nova montagem leva o elenco a exercitar-se em canto, música e dança, só contribui para o enriquecimento do chamado teatro musicado ou musical.

Desse cenário plural nasceu, há três anos, uma escola dedicada ao gênero na capital. Trata-se do Centro de Atividades Musicais e Artísticas (Cama), do Bairro Santo Antônio, região Centro-Sul de Belo Horizonte, onde também funciona a Cyntilante Produções, ambas do ator e diretor fluminense Fernando Bustamante.

Com seis musicais infantis no repertório, incluindo o sucesso 'A pequena sereia', e dois para o público adulto, entre eles 'Eu não sou cachorro não', a Cyntilante acaba de estrear a comédia musical 'Quem não casa não ganha', sob direção de Fernando e Polyana Horta e supervisão do veterano Eid Ribeiro. Em cena, a história de um casal de amigos que resolve se casar para pagar as dívidas com os presentes. Trata-se de montagem inspirada na novela 'The Glimpses of themoon', da autora americana Edith Wharton.

“O espetáculo tem uma pegada do jazz nova-iorquino da década de 1920, com a participação, ao vivo, da Happy Feet Jazz Band”, anuncia Fernando Bustamante, que lembra ter chegado à capital quando Na era do rádio, em montagem de Pedro Paulo Cava, fazia sucesso no Teatro da Cidade. “Fiquei encantado”, acrescenta o jovem diretor, que tem Cava como referência do gênero na cidade.

Em busca de estilo próprio, Bustamante diz que deseja fazer musicais que “falem de nossas coisas e que também beba de outras fontes”. Para ele, os musicais americanos têm uma precisão muito marcante. “A forma deles é bacana, precisa e perfeita”, elogia, mesmo admitindo não se identificar com o conteúdo dos mesmos. Em termos musicais, o diretor fluminense acredita que Maurício Tizumba é quem melhor trabalha a mineiridade nos palcos. “Ele tem estilo próprio, não copia ninguém”, destaca.


POLIFONIA Pedro Paulo Cava, por sua vez, admite ter criado estilo com sotaque mineiro. “Os musicais que faço têm uma forma diferente de encenação, porque não têm o brilho que reluz dos cariocas, além de contar com uma forma também diferente de narrar a história. Nós, mineiros, temos uma maneira muito peculiar de contar uma história, sem os grandes arroubos da Praça Tiradentes”, pondera o diretor.

Os temas épico, histórico e político são os que mais atraem Pedro Paulo Cava, que, em pleno 1968, insistia em ensinar as crianças a votar no musical 'Liderato, o rato que era líder', de André Carvalho e Gilberto Mansur. Depois, adaptou o clássico Romeu e Julieta para crianças no espetáculo 'Romão & Julinha', que também fez sucesso. Na era do rádio, 'Estrela Dalva', 'Morte e vida severina' e 'Brasileiro, profissão esperança' foram alguns dos sucessos do diretor, que, atualmente, assina a produção de 'Samba, amor e malandragem', de Kalluh Araújo, em cartaz no Teatro da Cidade.

Com previsão de chegar ao mercado no ano que vem, pela Editora UFMG, o livro 'Atuação polifônica: princípios e práticas', de Ernani Maletta, promete trazer à cena pesquisa empreendida pelo diretor cênico-musical, ator e cantor mineiro, cuja tese foi defendida em 2005, na Faculdade de Educação da UFMG. Trata-se de estudo por meio do qual Maletta justifica uma forma particular de trabalhar a música no teatro.

Em seu estudo, ele identifica modos distintos de utilização da música em cena: por meio da simples participação; pelo que ele chama de “música interteatro”, quando há o empréstimo de métodos e técnicas da música para aplicação em cena; ou, ainda, pelo que chama de música-teatro, vista pelo ponto da polifonia, na qual a música é tida como um discurso próprio. “Não estou preocupado com a música que é emprestada ao teatro, que entra nele como participação. Preocupo-me com o discurso musical que é intrínseco ao teatro”, conclui Ernani Maletta.

Palavra de especialista
Pedro Paulo Cava
Diretor e produtor teatral

Com sotaque mineiro

Meus primeiros espetáculos, ainda como ator nos anos 1960, foram musicais ou musicados. Quando comecei a dirigir, em 1970, entendi que meus espetáculos tinham que ser pontuados por vinhetas, cortes musicais, música de fundo, passagens de cena, que pudessem me ajudar a compor a partitura de cada encenação. Então, dos mais de 100 espetáculos em que atuei ou encenei ao longo destes 50 anos de carreira, nunca faltou música de todos os gêneros. Daí para os essencialmente musicais, aqueles em que o texto é contado em canto e prosa, foi só um pulo. Desde a década de 1970 dedico-me aos musicais. Infantis e adultos. E foram incontáveis. Creio que desenvolvi um estilo próprio de encenar o musical brasileiro com sotaque mineiro. Aos poucos fui também juntando uma equipe de profissionais da música e da cena: maestros, musicistas, arranjadores, preparadores vocais, coreógrafos, técnicos, cenógrafos e figurinistas, bailarinos e atores, sem os quais não conseguiria realizar tanta coisa com qualidade. Acho mesmo que o teatro musical brasileiro é a cara do nosso povo. E como é rica a nossa história musical. Precisaria viver três vidas, com a mesma intensidade desta, para montar tudo o que sempre sonhei.

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